Júlia Fernandes

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Repórter

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Negócios

Na torcida pelo Brasil e pelos negócios: Copa do Mundo vira estratégia para empreendedores em Porto Alegre

Há menos de um mês da Copa do Mundo 2026, negócios de Porto Alegre investem em projetos pensados para conquistar o público durante o evento esportivo
Datas comemorativas são uma grande oportunidade para negócios, mas ano de Copa do Mundo ganha algumas estrelas a mais no calendário dos empreendedores. Seja em casa ou na rua, grupos se juntam para assistir às partidas e torcer. Para acompanhar os jogos, petiscos, bebidas e acessórios com referência às seleções entram na experiência, e a consequência é um consumo mais acelerado, ainda mais no país do futebol.
Datas comemorativas são uma grande oportunidade para negócios, mas ano de Copa do Mundo ganha algumas estrelas a mais no calendário dos empreendedores. Seja em casa ou na rua, grupos se juntam para assistir às partidas e torcer. Para acompanhar os jogos, petiscos, bebidas e acessórios com referência às seleções entram na experiência, e a consequência é um consumo mais acelerado, ainda mais no país do futebol.
Há menos de um mês para a Copa do Mundo 2026, negócios colocam em prática as ações e estratégias desenvolvidas para um dos maiores eventos esportivos mundiais. Seja uma identidade visual, um novo produto ou até mesmo um novo negócio, todos esses movimentos são planejados com antecedência e com estratégia.
O Oaks Burritos y Bowls, tradicional rede de franquias de comida mexicana criada na Zona Sul de Porto Alegre e atualmente presente em quatro estados do País, encontrou no período da Copa uma oportunidade para relançar um dos seus produtos, além de apostar em uma identidade visual com referências aos anos que o Brasil foi campeão mundial.
Fabricio Leite, diretor executivo do Oaks, explica que, antes da virada do ano, ele e a equipe responsável pelo marketing da marca fazem uma leitura do calendário do próximo ano. “Gostamos sempre de olhar o mapa do ano, entender quais são as datas relevantes, que têm a ver com a marca, e de que forma podemos fazer alguma ação legal”, detalha o diretor.
Para além de um evento esportivo, a Copa do Mundo acaba flertando com o entretenimento, fazendo com que até quem não tem o costume de acompanhar jogos de futebol, se interesse pelo momento. O mesmo acontece com as marcas. Mesmo aquelas que não se relacionam com o tema, encontram formas de explorar o momento. “Futebol não é o território do Oaks, mas a gente entende que Copa do Mundo é muito mais que futebol, é um negócio mais de entretenimento. Percebemos também que os horários de jogos favorecem muito o food service, e a galera tende a se juntar para assistir os jogos, então a alimentação vai estar junto com certeza em todos esses momentos”, afirma Marce Garcia, responsável pelo departamento de marketing do Oaks.

Comportamento do consumidor

A percepção da marca acompanha uma tendência observada em pesquisas sobre comportamento do consumidor para a Copa de 2026. Um levantamento da NielsenIQ aponta que os jogos em horários noturnos e o hábito de reunir amigos e familiares em casa devem impulsionar o consumo doméstico durante o torneio. Segundo o estudo, 45% dos brasileiros pretendem controlar gastos fora do lar. Ao mesmo tempo, refeições rápidas, snacks e produtos compartilháveis aparecem entre os itens com maior intenção de compra durante a competição.
Apesar da oportunidade, Fabrício e Marce identificaram que era necessário construir uma ideia que fosse aplicável nas demais praças da marca espalhadas pelo Brasil, sem prejudicar os franqueados. “Precisávamos olhar para a questão de logística, tanto de produto quanto de embalagem. Assim, pegamos nosso último lançamento, que são os Mini Oaks, lançados em novembro, e demos uma cara nova”, comenta Marce. Os produtos relançados são uma das últimas novidades da marca.
O negócio vestiu os Mini Oaks para a Copa do Mundo. Fazendo uma alusão às Copas que a seleção brasileira foi campeã, as novas embalagens contam com os anos em que o Brasil ganhou o torneio, além do placar da final. “Fizemos uma do hexa, que vem com o ano de 2026 e o ‘Vai, Brasil’, para ficar como uma torcida”, explica Marce. Além disso, a Oaks aproveitou o momento para lançar mais dois novos sabores do produto, fechando um cardápio com seis opções.
Os Sabores do Hexa, como são chamados, contam com duas novas proteínas. Um deles leva camarão com molho de limão, enquanto a outra opção é feita com frango crispy acompanhado de barbecue. Segundo os executivos, é possível que esses novos produtos permaneçam no cardápio fixo, mesmo após o fim da competição.
“Já usamos esse momento para colocar esses dois novos produtos como teste”, comenta Marce. “As caixas funcionam para qualquer sabor, não precisa ficar juntando sabor com caixa. Priorizamos a facilidade do franqueado e a do consumidor”, explica o responsável pelo marketing, afirmando que a ideia é que o cliente tenha um contato legal com a marca dentro de um contexto de Copa do Mundo para além do esporte, apostando no sentimento do torcedor e no histórico das Copas do Mundo, mas também incentivando que o público experimente o produto.
“A gente brinca que aqui todo dia é o dia 1 para o Oaks, porque vender burrito no Brasil é um desafio. E a gente segue firme e forte e entende que esse Mini Oaks é uma porta de entrada para os demais produtos”, afirma Fabrício. Segundo o executivo, o Mini Oaks nasceu como uma nova categoria dentro da marca. “O burrito entra muito como refeição mesmo, almoço ou janta. Já o Mini Oaks virou aquele produto para qualquer hora, então é uma categoria que não para de crescer. É aquela fome no meio da tarde, antes do almoço ou da janta”, explica.
A estratégia também conversa com outro comportamento identificado em pesquisas para a Copa de 2026. Dados da Neogrid em parceria com a Opinion Box apontam que 51% dos brasileiros pretendem gastar mais com comida e bebida durante o Mundial, enquanto 20% afirmam que devem investir mais em festas e eventos sociais. O consumo coletivo e emocional tende a impulsionar produtos rápidos, compartilháveis e voltados para encontros em grupo.
“Como a Copa do Mundo também se relaciona muito com bebidas alcoólicas, pensamos em um produto que acompanha muito bem esse momento. Tem jogos no final da tarde, às 19h, então ele encaixa melhor do que o burrito tradicional”, comenta Marce.
Além da praticidade, o Oaks aposta na adaptação do cardápio ao paladar brasileiro. “Apesar de ter inspiração mexicana, os produtos são adaptados ao nosso público. Nos Mini Oaks fizemos algo muito proprietário. A gente usa a estrutura do burrito, mas com ingredientes totalmente adaptados ao paladar brasileiro”, explica Fabrício. Segundo ele, outro diferencial da marca é a preocupação com ingredientes menos processados. “Mesmo sendo comida rápida, a gente não gosta muito do termo fast food. É rápido e conveniente, mas cuidamos para não parecer algo processado.”
A expectativa da marca também está voltada também para o delivery. Segundo Marce, parte importante do consumo deve acontecer dentro de casa, especialmente nos horários dos jogos. “Nosso delivery tem um diferencial de ser muito rápido. Apostamos que muita gente não vai querer sair de casa, vai se reunir para assistir aos jogos, e entendemos que esses produtos se encaixam muito bem nesses momentos.”
O comportamento acompanha projeções do setor. A NielsenIQ aponta que refeições prontas, pizzas e lanches tiveram aumento de intenção de compra para a Copa de 2026, passando de 24,1% para 31,8%. Já a Scanntech identificou crescimento nas categorias ligadas às confraternizações, como carnes, petiscos, gelo, chope e cerveja.
Para o Oaks, no entanto, a Copa não funciona apenas como uma oportunidade comercial, mas também como uma forma de reforçar o posicionamento da marca. “Existe um orgulho de ser daqui, de ser brasileiro. É um dos raros momentos em que o Brasil se une, e isso deixa a gente feliz porque existe um tom de identificação para além das vendas”, comenta Fabrício. “Somos um restaurante brasileiro com inspiração mexicana.”

Grupo Leiteria aposta em buteco para transmitir jogos de futebol

Enquanto marcas e restaurantes ajustam estratégias para aproveitar o aumento no consumo durante o torneio, bares e operações voltadas para transmissão dos jogos também se preparam para disputar o público da Copa. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o setor de alimentação fora do lar registrou aumento médio de até 30% no faturamento durante os jogos do Brasil na Copa de 2022.
Em grandes capitais como Porto Alegre, alguns estabelecimentos chegaram a dobrar a receita em partidas decisivas. Agora, empreendedores apostam em novas operações e espaços temáticos para transformar a experiência coletiva dos jogos em oportunidade de negócio.
Em mais uma novidade, o Grupo Leiteria está prestes a abrir o primeiro boteco da marca, o Buteco do Leite. "A essência é trazer um lugar de encontro, um lugar de aconchego e de lembranças", comenta Tiago Leite, à frente do Grupo Leiteria. Desde o orelhão em frente ao bar aos azulejos coloridos e vitrais originais da casa, tudo foi pensado para levar ao cliente à experiência do tradicional boteco brasileiro.
Ainda em obras, a expectativa é que o estabelecimento abra as portas na próxima semana. A poucos dias do início da Copa do Mundo, o Grupo Leiteria aposta no novo espaço como um dos principais pontos de encontro para transmissão dos jogos em Porto Alegre.
Com capacidade para cerca de 280 pessoas, o Buteco do Leite foi planejado para unir estrutura de transmissão esportiva, operação de alta capacidade e uma ambientação inspirada nos tradicionais bares brasileiros. Segundo Tiago, a proposta é oferecer ao público uma experiência que vá além dos jogos.
"Vai ser uma casa para passar os jogos, uma baita opção para a galera que quer assistir à Copa. E não só a Copa, mas depois também. Então, vão ter várias telas espalhadas pela casa", afirma.
A operação ocupará uma casa de aproximadamente 80 anos, preservando elementos originais da construção. O projeto buscou integrar características históricas da casa à estética clássica dos botequins brasileiros. "Como estamos instalados em uma casa antiga, aproveitamos ao máximo toda a originalidade do imóvel. A parte de drinks vai funcionar dentro de uma janela original da casa, de frente para a rua Nova York", explica o empresário.
Entre os destaques da estrutura está o salão principal, que contará com um lustre composto por 150 garrafas de Brahma penduradas. O espaço será dividido em diferentes ambientes, incluindo área de calçada, bar principal, salão interno, sala reservada com sofás e lareira, além de pátio e jardim nos fundos, destinado também à realização de eventos.
A proposta do local é justamente transformar o ambiente em um ponto de convivência durante o torneio, acompanhando um movimento que vem ganhando força no setor de alimentação fora do lar. Além da transmissão das partidas, a aposta está na permanência do público por períodos mais longos, impulsionando o consumo de bebidas, petiscos e refeições completas.
Para isso, o grupo investe em equipamentos voltados à operação de chope, um dos principais focos da casa. "Vai ter chope Brahma gelado, trincando. Estamos trazendo uma ultra congeladora para canecas a menos 40 graus e chopeiras de última geração. É fazer o simples bem feito", comenta Tiago.
Segundo ele, a estrutura do bar foi pensada para valorizar justamente a operação típica de boteco tradicional. "O local começa pelo bar. Só de olhar os equipamentos, as pessoas já percebem o nível da operação", diz.
Outro ponto considerado estratégico foi a estrutura de atendimento e circulação do público, especialmente em dias de maior movimento, como os jogos da Seleção Brasileira. Os banheiros, por exemplo, receberam atenção especial durante a obra. "Entendemos que uma operação como boteco precisa de um suporte significativo de banheiros", afirma.
As obras no imóvel vêm sendo realizadas há cerca de quatro meses, embora a negociação e preparação da casa tenha iniciado ainda no ano passado. De acordo com Tiago, o projeto representa uma nova etapa para o grupo, conhecido principalmente pelas operações ligadas à confeitaria e restaurantes.
"A gente entende que existia uma lacuna nesse modelo de negócio em Porto Alegre. Já houve botecos que marcaram época aqui, mas sentimos falta de um projeto mais conectado às raízes do boteco brasileiro, como existe em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte", explica.
O cardápio seguirá a mesma proposta de resgatar referências tradicionais do segmento. Entre as opções estarão petiscos clássicos, como torresmo e feijoada, além de pratos mais elaborados. "Estamos desenvolvendo um cardápio bem alternado, para conseguir atender diferentes públicos", afirma.
A expectativa é que o Buteco do Leite opere com cerca de 25 funcionários na equipe inicial. Para o grupo, a chegada da Copa do Mundo deve acelerar o fluxo de clientes e consolidar o espaço como novo ponto de encontro da capital gaúcha durante o torneio.

Tendências e cuidados para usar a Copa em conteúdos de marketing

Em um período marcado pela comoção coletiva e pelo forte apelo emocional do futebol no Brasil, marcas de diferentes portes aproveitam o momento para criar campanhas temáticas, experiências imersivas e ações promocionais. Mas, para além do hype, o desafio está em construir conexões autênticas e coerentes com a identidade de cada negócio.
Para Luisa Merello, gestora de estratégia da Agência Bumbo, o sucesso durante a Copa não depende apenas de entrar na conversa do momento, mas de entender como transformar o interesse temporário em relacionamento duradouro com o consumidor.

Copa como oportunidade cultural

Mais do que um evento esportivo, a Copa é vista como um fenômeno cultural no Brasil. Segundo Luisa, até mesmo pessoas que não acompanham futebol ao longo do ano acabam se envolvendo com o torneio, criando um ambiente favorável para campanhas que despertam emoção, pertencimento e experiência.

Experiência vale mais do que oportunismo

Na avaliação da especialista, qualquer empresa pode aproveitar o período, sejam as grandes marcas ou pequenos negócios. O diferencial está menos no tamanho da operação e mais na capacidade de criar experiências conectadas ao universo da Copa. Promoções, ambientações temáticas e ações presenciais ajudam a fortalecer a relação entre marca e consumidor.

O erro é perder a essência da marca

Para Luisa, um dos principais equívocos das empresas durante grandes eventos é abandonar o próprio posicionamento para tentar seguir tendências. Ela destaca que nem toda marca precisa entrar em memes ou adotar uma linguagem exageradamente descontraída. O importante é adaptar a comunicação sem perder identidade, tom de voz e diferenciação.

Nem todo conteúdo funciona igual em todas as redes

A especialista também chama atenção para a necessidade de adaptar campanhas conforme a plataforma. Enquanto o TikTok favorece entretenimento e conteúdos rápidos, o X concentra conversas em tempo real e informação. Já o Instagram tende a valorizar a comunidade e conexão entre marca e público. Replicar o mesmo conteúdo em todas as redes, segundo ela, pode reduzir o desempenho das campanhas.

Promoção atrai, mas conexão fideliza

Campanhas promocionais ligadas ao desempenho da Seleção, como descontos vinculados ao placar dos jogos, seguem sendo uma aposta forte para gerar engajamento imediato. Ainda assim, Luisa ressalta que apenas promoções não garantem fidelização. Para transformar audiência em resultado de longo prazo, as empresas precisam investir também em conteúdos emocionais e experiências que fortaleçam vínculo com o consumidor.

Atenção às regras da FIFA

Apesar do potencial comercial do período, existem limitações legais importantes. O uso de símbolos oficiais, expressões ligadas à Copa do Mundo e elementos registrados pela FIFA exige cuidado. Segundo Luisa, marcas devem evitar o uso de termos oficiais, logotipos e referências protegidas, buscando alternativas criativas para se conectar ao evento sem infringir direitos.

IA acelera conteúdos, mas exige cautela

Com a popularização da Inteligência Artificial, a expectativa é de uma enxurrada de conteúdos produzidos em tempo real durante a Copa. Para a especialista, a tecnologia pode ajudar na agilidade e criatividade das campanhas, mas o excesso ou o uso artificial demais pode gerar distanciamento do público. O desafio será equilibrar velocidade com autenticidade.

A tendência é investir em experiências

Entre as principais tendências para o período, Luisa aponta a busca por experiências mais memoráveis e participativas. Mais do que surfar no momento, empresas que conseguirem criar interação genuína e sensação de pertencimento terão mais chances de transformar o engajamento da Copa em relacionamento contínuo com o consumidor.