Entre os desafios e as novidades do primeiro ano de um negócio, um dos movimentos mais importantes para a consolidação da operação é a transição do trabalho operacional para a gestão estratégica do empreendimento. Pelo menos esse foi o destaque apontado por Rafael Gross, um dos sócios do restaurante Amado, que começou a operar em abril de 2025.
Ao lado de Rafael, Carol Moraes e Eduardo Smidt formam o quadro societário do negócio no Centro Histórico. Após 12 meses, a proposta do espaço se mantém: ser um refúgio afetivo, onde priorizam uma gastronomia simples, com técnica e preços acessíveis. Do período de abertura para o momento atual, uma das grandes mudanças foi a entrada de Carol na sociedade. Apesar de Rafael e Eduardo terem experiência em grandes restaurantes, os primeiros dias mostraram que, para dar conta da demanda, seria necessário um reforço. A estratégia para fortalecer a operação foi convidar Carol para somar ao quadro societário.
“Trabalhei em um restaurante com demanda industrial e depois em restaurantes com demanda de processo, com refino. Pensei ‘a gente não vai apanhar aqui’, porque eram 25, 30 clientes inicialmente. A realidade foi que no primeiro dia apanhamos, no segundo dia apanhamos e no terceiro também. A Carol já tinha trabalhado conosco em outros restaurantes, tem uma mão muito boa nos drinks, além de muito conhecimento de bar e hospitalidade”, conta Rafael.
Segundo os sócios, o primeiro semestre foi um período de sobrevivência, enquanto o segundo serviu para entender o fluxo do negócio. Entre agosto e dezembro ocorreu o boom do empreendimento, quando o número de clientes passou de 45 para 100 em poucos dias. A equipe precisou se adaptar rapidamente. Agora, no segundo ano, os sócios começaram a planejar o futuro com base no crescimento e nas margens obtidas. “Tivemos que depositar muita energia, realizar alguns sacrifícios. Nesse primeiro ano, a prioridade era estar aqui, não estar em casa”, desabafa Rafael. “Tinha dias que chegávamos às 6h30min e saíamos depois das 22h”, lembra Carol.
Estratégia para crescer
Para consolidar a proposta do Amado foi necessário olhar para o estratégico. Os sócios entenderam a necessidade de fortalecer tecnicamente a cozinha para que ela ganhasse mais autonomia. Atualmente, Rafael e Eduardo fazem um rodízio: passam três dias na cozinha e três dias no salão, o que permite uma visão mais ampla da operação.
Entre as ações do primeiro ano está o Rolê da Fila. Em períodos de grande movimento, a espera pode durar de 1h a 1h45min. Para gerenciar isso, criaram uma ação que disponibiliza bebidas e entradas exclusivas para quem aguarda, transformando um problema em oportunidade. “Desenvolvemos um drink especial para os clientes tomarem na fila, você não consegue pedir ele aqui dentro”, comenta Carol.
O pensamento estratégico também se reflete nas reuniões de final de mês, com avaliações de planos de venda. Um exemplo é a permanência do PF no cardápio. Embora exija mais trabalho operacional, a análise mostrou que ele é o principal motivo de retorno e fidelização. “É o prato que mais me dá trabalho na cozinha, mas não consigo tirar. É o prato que nos deu muita identidade”, destaca Rafael.
Atualmente, o Amado entrega cerca de 1,5 mil pratos por mês, sendo o PF o carro-chefe, com cerca de 850 unidades. O prato consiste em peito de frango empanado na farinha de milho, purê de cabotiá, farofa da casa, vinagrete de feijão carioca e mix de folhas verdes. Outro destaque é a Galinhada, considerada o prato que melhor representa a proposta do negócio por ser simples, mas ainda assim técnico. O preparo leva arroz cateto, sobrecoxa de frango, base de sofrito — técnica espanhola, demi-glace para trazer colágeno, maionese, picles, farofa e salada.
Na parte dos drinks, o destaque é o Amadinho, criado para um menu de Dia das Mães e incorporado ao cardápio fixo. Carol utiliza técnicas como clarificação e infusões para criar coquetéis leves e autorais. Outra demanda percebida foram os vinhos, com parcerias com produtores locais da Serra Gaúcha.
Entre os orgulhos da operação está o tempo de entrega. A equipe trabalha com uma inteligência de cardápio que permite servir cada prato em média em 2 minutos e meio. Mesmo com a casa cheia, o tempo máximo de espera é de 20 minutos. “Precisamos saber o que a nossa cozinha consegue operacionar na ‘dança’ do serviço. Não pode ser algo muito complexo”, explica Rafael.
Ampliação e reestruturação
Em um ano, o Amado ampliou o salão e a cozinha após assumir o ponto vizinho. Hoje, o espaço comporta cerca de 35 pessoas, mas atende entre 95 e 100 clientes em dias de pico. Recentemente, o restaurante bateu o recorde de 103 atendimentos em um único dia.
A equipe também foi ampliada, são cinco funcionários fixos e três freelancers aos fins de semana. Mesmo operando todos os dias, os sócios mantêm escala 5x2 para a equipe. “Conseguimos respeitar a escala para que a equipe descanse. A equipe, mas nós como sócios ainda não”, brinca Rafael.
Segundo Rafael, o sucesso do negócio se dá por muitos motivos, entre eles a sua formação no Senac, em 2019. Ele afirma que tudo o que sabe e sua identidade como cozinheiro foram construídos na instituição e nos ensinamentos de seu mestre, Mamadu. “O Senac foi o lugar que me trouxe da forja”, define, explicando que ali construiu sua base técnica, enquanto as experiências posteriores serviram para lapidar esse conhecimento. A ideia de permanecer no Centro Histórico também nasce desse período. “Desde que eu estava no Senac, a ideia primordial foi ter um restaurante no Centro. Entendia que tinha espaço para algo entre o buffet e a à la minuta de grande quantidade.”
Para quem está entrando na jornada empreendedora, os sócios deixam algumas dicas. “Tenha convicção e deposite energia. Não vai aparecer o momento certo. Desenha, escreva, entenda o que tu queres, avalia os riscos, mas se tem convicção, faz”, afirma Rafael. Depois do negócio construído, a transparência com a equipe é essencial. “Seja claro com quem está trabalhando contigo. Jogar limpo, falar dos problemas e resolver rápido. Eles vão acontecer. É preciso ter controle emocional, porque todo dia é um The Bear diferente”, conclui.
Rodízio de pastéis celebra um ano em Porto Alegre com mais de 1 milhão de pastéis vendidos
Há um ano de portas abertas na Zona Norte de Porto Alegre, o rodízio Seu Pastenor comemora a marca de mais de 1 milhão de pastéis vendidos. Celso Dalpasqual, nome à frente do negócio, garante que o número superou as expectativas mais otimistas. "Quando a gente investe em um negócio, sempre imagina prosperar bem. Mas foi melhor que o esperado", celebra.
Com sabores como bala Fini e camarão, o rodízio de pastéis conta também com buffet de sorvete e açaí, serviço que conquistou a clientela, especialmente as crianças. Durante o primeiro ano, os eventos realizados no local, como aniversários e outras comemorações, representaram 50% da receita do restaurante. De acordo com o empreendedor, o número vem do tradicional boca a boca. "É bacana ver as pessoas comemorando aniversário, ver um convidado voltando para comemorar o aniversário dele. É muito satisfatório", relata.
Hoje, a média é de 9 mil clientes mensais, número que superou a perspectiva inicial de Celso. "A minha projeção alta seria 7 mil clientes. Mas começamos acima disso e nunca baixou. Mesmo janeiro e fevereiro, que são meses de férias, foram maravilhosos", comemora. Para ele, a clientela assídua se construiu em três pilares. "A qualidade do produto, o atendimento e o nosso sistema de rodízio de preço fechado, que é algo que agrada muito o pessoal, porque inclui água, refrigerante, sorvete, açaí. A pessoa já sai de casa sabendo quanto vai gastar", avalia.
Projeção para o próximo ano
Virando a página do primeiro ciclo do negócio, Celso projeta os próximos passos do Seu Pastenor. Uma nova unidade que atenda o delivery na Capital está nos planos. "Agora é consolidar bem, conseguir manter da forma que estamos trabalhando, buscar mais clientes e estamos em um estudo de abrir um próximo. Ainda não temos delivery. Devido ao alto fluxo, seguramos o delivery para, quando colocar, ser uma cozinha separada, que não envolve o atendimento da loja", pontua.
Dicas para superar o primeiro ano
Passar pelo primeiro ano de operação pode ser desafiador, já que é o momento em que as expectativas são colocadas à prova e confrontadas com a realidade do negócio. Celso avalia que os bons frutos colhidos nessa etapa vieram da preparação prévia antes de abrir as portas. "A gente se estruturou bem antes de abrir", garante.
Para empreendedores que estão começando a sua jornada, Celso é direto: trabalho é a chave para construir o primeiro ano de operação. "A dica é muito trabalho. Não pode simplesmente abrir o negócio e não estar junto. Buscar outras opiniões, frequentar outros lugares do mesmo ramo para ver o que está certo o que está errado, o que pode melhorar. Atendimento hoje em dia é o diferencial, porque entramos em uma geração diferente. Chego em casa de madrugada e fico lendo as avaliações. Quando tem um comentário dizendo que foi bem atendido, elogiando o garçom, é maravilhoso, é o que faz o cliente voltar", acredita.
Como comemoração, o Seu Pastenor preparou uma ação durante o mês de abril, dando um voucher de 50% de desconto para quem consumir o rodízio no valor integral. O desconto pode ser utilizado de domingo a quinta-feira. Ao todo, serão distribuídos 10 mil vouchers. "É uma forma de presentear o nosso cliente que nos ajudou a chegar a um ano no lugar que estamos."
Endereço e horário de funcionamento do Seu Pastenor
O Seu Pastenor está localizado na avenida Assis Brasil, nº 4863, no bairro Sarandi. A operação é diária das 19h às 23h. O valor do rodízio é de R$ 79,00 de segunda a quinta-feira. Sexta, sábado e véspera de feriados, R$ 89,00, e domingo custa R$ 79,00. Crianças de 4 a 10 anos pagam R$ 44,00.
O risco está em ver o boom como estabilidade, destaca especialista
Completar o primeiro ano de operação é um marco simbólico. Entre validações, ajustes e busca por clientes, esse ciclo inicial exige atenção constante e capacidade de adaptação. Para a pesquisadora, docente e especialista nas áreas de comunicação e empreendedorismo, Débora Coelho, da UniSenac, não há fórmula pronta, mas há caminhos que ajudam a atravessar esse período com mais consistência.
Antes mesmo da abertura, o trabalho começa com validações. "É sempre importante tentar entender quem é esse público, como é o produto e em que mercado o empreendedor vai atuar", afirma. Segundo ela, esse movimento reduz decisões baseadas apenas em intuição e amplia as chances de acerto já nos primeiros meses.
Quando o negócio abre as portas, especialmente no primeiro trimestre, inicia-se uma fase prática de confirmação ou revisão dessas hipóteses. "É quando a gente vai validar de fato se aquilo que foi planejado está se aplicando", explica. Nesse momento, o contato com o cliente se torna central. "Hoje, fala-se muito em ser especialista no consumidor, porque as jornadas estão mais híbridas e menos lineares", comenta a pesquisadora, falando especialmente sobre os clientes que transitam entre o online e o presencial.
De acordo com Débora, um dos principais desafios desse período inicial é a geração de fluxo. A expectativa de movimento imediato costuma frustrar novos empreendedores. "A gente subestima essa questão e acha que vai abrir as portas e já vai chover cliente", comenta. Por isso, além de atrair, é essencial entender a origem desse público, seu comportamento e, principalmente, se ele está satisfeito a ponto de retornar ou indicar o negócio.
Esse cenário se intensifica diante de picos de visibilidade, comuns no início, especialmente impulsionados pelas redes sociais. "Existe muito o fator curiosidade. Abriu algo novo, gera fila, lista de espera, mas isso nem sempre é permanente", alerta. Para Débora, o risco está em interpretar esse boom como estabilidade. "O empreendedor precisa entender como manter esse fluxo depois, o que envolve experiência, atendimento e consistência na entrega", afirma.
Ao mesmo tempo, há um contraste entre perfis de empreendedores. Enquanto alguns dominam o ambiente digital, outros ainda enfrentam dificuldades. "Para quem não tem familiaridade, é importante começar a se aproximar, entender as ferramentas e escolher onde faz mais sentido estar."
Outro ponto crítico no primeiro ano é o tempo de teste e adaptação. Embora não exista um prazo ideal, alguns fatores ajudam a guiar decisões. "O fluxo de caixa impacta diretamente. Quem tem mais fôlego consegue testar por mais tempo, mas muitos empreendedores precisam agir rápido", explica. Nesses casos, a agilidade vira vantagem. "É testar, aprender e mudar rapidamente, entendendo que nem sempre o cliente está pronto para aquele produto naquele momento", salienta.
Após 12 meses, o foco começa a mudar. Superada a fase mais intensa de sobrevivência, surge a necessidade de estruturar o crescimento. "Depois de organizar processos internos e a parte financeira, é hora de olhar para posicionamento e marca", destaca. Construir reputação e presença no mercado passa a ser prioridade. "Como a marca vai ser lembrada? Que percepção ela gera?", questiona.
A especialista também reforça a importância de separar finanças pessoais das empresariais desde o início — um erro comum que pode comprometer a sustentabilidade do negócio. E, mesmo com maior maturidade, o desafio da atração continua. "É preciso manter um fluxo contínuo de clientes, trazer novos e não esquecer dos antigos", afirma.
Em um cenário de mudanças rápidas e alta competitividade, a principal habilidade do empreendedor segue sendo a adaptação. "Estar aberto a mudar é essencial. As coisas mudam muito rápido, e o negócio precisa acompanhar esse ritmo", diz Débora.

