Nem sempre empreender significa começar do zero. Cada vez mais, empresários têm optado por assumir operações já existentes, negócios cheios de história, com clientela ativa e estrutura em pleno funcionamento. Nesse cenário, o desafio deixa de ser criar e passa a ser gerir. Entender o que sustenta a operação, corrigir falhas e encontrar espaço para inovar sem romper com a essência do que levou muito tempo para ser construído é a missão desses empreendedores.
É exatamente esse movimento que observamos ao passar ao lado do Parcão, na rua Comendador Caminha. A fachada preta com letreiro de LED minimalista em azul e vermelho, com letras japonesas, continua chamando atenção, mas, por trás dela, há uma nova fase em curso. Para quem não conhece, é o Sofia Karaokê (@sofiakaraoke), bar conhecido pela cantoria que há seis meses está sob nova gestão.
Quem comanda o pub agora é o casal Fernanda Berté e Pedro Vieira, sócios do Brita, e a amiga Thaís Gomes, também sócia do espaço multicultural a céu aberto e de outras casas de Porto Alegre, como Spoiler e Cucko.
A amizade entre Thaís e o antigo proprietário, Arthur Teixeira, foi essencial para que a negociação ocorresse num tom saudável na hora de passar o bastão. Fernanda conta que o desejo de Arthur era encontrar alguém que carregasse o mesmo carinho pela marca. Tanto que ofereceu o Sofia apenas para algumas pessoas que ele sabia que tocariam bem o negócio e não estragariam o projeto de mais de 8 anos, o qual se encerrou não por estar no vermelho, e sim por vontade própria.
"A gente super se interessou e viu potencial no Sofia, porque karaokê é uma experiência muito massa. E, no mundo atual, as pessoas estão buscando novas vivências a todo momento", diz ela empolgada, do novo capítulo que começou em outubro do ano passado e não fechou um dia sequer desde então.
"A gente super se interessou e viu potencial no Sofia, porque karaokê é uma experiência muito massa. E, no mundo atual, as pessoas estão buscando novas vivências a todo momento", diz ela empolgada, do novo capítulo que começou em outubro do ano passado e não fechou um dia sequer desde então.
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A empreendedora atrela o sucesso da empreitada ao carinho no que se refere à manutenção de antigos funcionários do local e a postura mais conservadora adotada em relação às mudanças. Para evitar a alta rotatividade de pessoal, característica do setor e não apavorar a equipe com as mudanças, foram mantidos o gerente, o chefe de cozinha e o DJ, que também atua como Mestre de Cerimônias.
"Pensamos: 'espera aí, vamos caminhar com a marca, entender como a equipe funciona'. A gente trabalha no Brita com planilhas, padronização, processos internos. Se chegássemos aqui já "com os dois pés no peito" do gerente, dizendo: "quero assim, abastece essas planilhas, me entrega esse checklist", no primeiro mês o cara ia dizer "tchau, não quero mais", avalia Pedro.
No entanto, a infraestrutura sofreu uma bela repaginada. Os novos sócios investiram uma verba não planejada para renovar toda a estrutura operacional: compraram freezers para as bebidas, atualizaram os equipamentos da cozinha, adquiriram celulares para os atendentes e diversos computadores essenciais para que o sistema do karaokê não travasse.
"Nos nossos outros bares, a gente não tinha praticamente nenhum conhecimento de microfone, caixa de som ou amplificador. Até entendemos de música, claro, mas o karaokê tem suas próprias peculiaridades", aponta Pedro.
O karaokê, inclusive, vem do Japão e significa "orquestra vazia", ou no dialeto popular: cantar versões instrumentais acompanhadas de letras que vão sendo coloridas em uma tela. Essa cultura nipônica é algo que a nova gestão quer resgatar, pois, apesar da identidade, nenhum item do cardápio é oriental. Entretanto, Fernanda alerta que o local não irá se nichar servindo sushi. A ideia é ir incorporando aos poucos insumos e molhos asiáticos às comidas da casa e ir dando aos poucos toques japoneses na coquetelaria autoral — como usar wasabi ou matcha em drinks —, sem perder a essência brasileira.
A empreendedora atrela o sucesso da empreitada ao carinho no que se refere à manutenção de antigos funcionários do local e a postura mais conservadora adotada em relação às mudanças. Para evitar a alta rotatividade de pessoal, característica do setor e não apavorar a equipe com as mudanças, foram mantidos o gerente, o chefe de cozinha e o DJ, que também atua como Mestre de Cerimônias.
Fernanda Berté e Pedro Vieira são sócios da nova gestão do Sofia Karaokê
TÂNIA MEINERZ/JC
"Pensamos: 'espera aí, vamos caminhar com a marca, entender como a equipe funciona'. A gente trabalha no Brita com planilhas, padronização, processos internos. Se chegássemos aqui já "com os dois pés no peito" do gerente, dizendo: "quero assim, abastece essas planilhas, me entrega esse checklist", no primeiro mês o cara ia dizer "tchau, não quero mais", avalia Pedro.
No entanto, a infraestrutura sofreu uma bela repaginada. Os novos sócios investiram uma verba não planejada para renovar toda a estrutura operacional: compraram freezers para as bebidas, atualizaram os equipamentos da cozinha, adquiriram celulares para os atendentes e diversos computadores essenciais para que o sistema do karaokê não travasse.
"Nos nossos outros bares, a gente não tinha praticamente nenhum conhecimento de microfone, caixa de som ou amplificador. Até entendemos de música, claro, mas o karaokê tem suas próprias peculiaridades", aponta Pedro.
O karaokê, inclusive, vem do Japão e significa "orquestra vazia", ou no dialeto popular: cantar versões instrumentais acompanhadas de letras que vão sendo coloridas em uma tela. Essa cultura nipônica é algo que a nova gestão quer resgatar, pois, apesar da identidade, nenhum item do cardápio é oriental. Entretanto, Fernanda alerta que o local não irá se nichar servindo sushi. A ideia é ir incorporando aos poucos insumos e molhos asiáticos às comidas da casa e ir dando aos poucos toques japoneses na coquetelaria autoral — como usar wasabi ou matcha em drinks —, sem perder a essência brasileira.
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Pedro complementa com astúcia o sentimento empregado pela companheira: "tu até podes fazer uma caipirinha de saquê, mas tu tens que cantar evidências", brinca o sócio.
Pedro complementa com astúcia o sentimento empregado pela companheira: "tu até podes fazer uma caipirinha de saquê, mas tu tens que cantar evidências", brinca o sócio.
Porto seguro dos introvertidos
Os empresários relatam que o bar possui uma dinâmica especial para incluir os tímidos. É bem comum pensar que conhecemos uma música inteira só pelo refrão, o problema é quando nos deparamos com o contrário. Para driblar esse infortúnio, o Mestre de Cerimônia fica no apoio com um microfone preparado para preencher as eventuais lacunas. O sentido é dar tranquilidade e não envergonhar quem está no palco e esqueceu a letra ou se perdeu no ritmo, por exemplo.
No salão, também acontece um rodízio por mesa, em que os clientes fazem pedidos de músicas via QR Code para o DJ e cantam para o público geral — e a rodada só termina quando todos tenham cantado. "É engraçado, alguém vai, puxa o amigo, é comum no primeiro som rolar o nervosismo, mas depois tu já és o cantor, quer ir em todas", brinca Fernanda.
Embora acolha os mais quietos, ela garante que o Sofia não deixa de ser o lugar perfeito para os extrovertidos. Observando um funcionário freelancer que contagiava animação junto aos clientes, a empreendedora percebeu que, para manter a imersão, deveria orientar a equipe a não ficar parada quando não está servindo. Agora, eles são incentivados a bater palmas, fazendo parte da festa. "Tu tens que fazer parte da animação, porque cada pessoa que pega o microfone está fazendo seu show", elucida.
No salão, também acontece um rodízio por mesa, em que os clientes fazem pedidos de músicas via QR Code para o DJ e cantam para o público geral — e a rodada só termina quando todos tenham cantado. "É engraçado, alguém vai, puxa o amigo, é comum no primeiro som rolar o nervosismo, mas depois tu já és o cantor, quer ir em todas", brinca Fernanda.
Embora acolha os mais quietos, ela garante que o Sofia não deixa de ser o lugar perfeito para os extrovertidos. Observando um funcionário freelancer que contagiava animação junto aos clientes, a empreendedora percebeu que, para manter a imersão, deveria orientar a equipe a não ficar parada quando não está servindo. Agora, eles são incentivados a bater palmas, fazendo parte da festa. "Tu tens que fazer parte da animação, porque cada pessoa que pega o microfone está fazendo seu show", elucida.
Geração Z também canta Brega?
Na playlist do Sofia, o brega é inevitável: todo mundo canta Evidências junto. Fernanda e Pedro dizem que esse fenômeno está ligado a uma forte "nostalgia de anos que não viveram", tanto dos jovens quanto dos mais velhos.
"Aqui, recebemos happy hour, aniversário, encontro de amigos, então rola um duelo de gerações. E quando a galera está ali pra se divertir, sem se preocupar com aparências, todo mundo canta junto, independente da música", exemplifica Pedro.
A curadoria é a mais diversa possível, e há dias que eles classificam como uma verdadeira mistureba; tem funk, pop, música gauchesca, heavy metal e até a abertura de Cavaleiros do Zodíaco.
Mas, no geral, o foco do bar tem sido no comportamento da geração Z, trabalhando com atualidade sem perder de vista o saudosismo. Uma das iniciativas que trouxeram é o karaokê temático com artistas como Bad Bunny, Lady Gaga, Taylor Swift e idols do K-pop.
"Tal artista veio fazer show no Brasil, aquela cantora famosa lançou um disco. É complexo, mas faz parte do trabalho: temos que ficar de olho nas tendências toda semana e estar muito antenado no que está surgindo", ressalta Fernanda.
Em dois andares, o local tem, além do salão, quatro salas privativas que acomodam entre 10 e 35 pessoas, com capacidade para cerca de 160 sentadas. Cada espaço tem sua individualidade, com líricas famosas de led cintilantes, sendo possível contratar um DJ exclusivo mediante reserva. O casal aponta que a grande vantagem desse formato é poder "cantar a noite inteira" de forma ininterrupta e, o melhor, entre amigos.
"Aqui, recebemos happy hour, aniversário, encontro de amigos, então rola um duelo de gerações. E quando a galera está ali pra se divertir, sem se preocupar com aparências, todo mundo canta junto, independente da música", exemplifica Pedro.
A curadoria é a mais diversa possível, e há dias que eles classificam como uma verdadeira mistureba; tem funk, pop, música gauchesca, heavy metal e até a abertura de Cavaleiros do Zodíaco.
O Sofia Karaokê fica na rua Comendador Caminha, nº 348, no Moinhos de Vento
TÂNIA MEINERZ/JC
Mas, no geral, o foco do bar tem sido no comportamento da geração Z, trabalhando com atualidade sem perder de vista o saudosismo. Uma das iniciativas que trouxeram é o karaokê temático com artistas como Bad Bunny, Lady Gaga, Taylor Swift e idols do K-pop.
"Tal artista veio fazer show no Brasil, aquela cantora famosa lançou um disco. É complexo, mas faz parte do trabalho: temos que ficar de olho nas tendências toda semana e estar muito antenado no que está surgindo", ressalta Fernanda.
Em dois andares, o local tem, além do salão, quatro salas privativas que acomodam entre 10 e 35 pessoas, com capacidade para cerca de 160 sentadas. Cada espaço tem sua individualidade, com líricas famosas de led cintilantes, sendo possível contratar um DJ exclusivo mediante reserva. O casal aponta que a grande vantagem desse formato é poder "cantar a noite inteira" de forma ininterrupta e, o melhor, entre amigos.
Endereço e horário de funcionamento
O Sofia Karaokê funciona de terça a domingo, a partir das 18h. A casa fica na rua Comendador Caminha, nº 348, no Moinhos de Vento. Para mais informações, acesse sofiakaraoke.leadsfood.app
De clientes a sócios, amigos assumem pub de cerveja artesanal no Menino Deus
Já imaginou frequentar um bar por anos e, de uma hora para outra, ter a oportunidade de assumir a gestão? Essa história é real, e aconteceu no bairro Menino Deus com os amigos Gabriel de Almeida e Carlos Mainá.
Os dois passaram a comandar, no fim de 2025, o Regional, pub que completa 10 anos de história na próxima terça-feira (21) e já virou ponto de encontro para os amantes de cervejas artesanais produzidas em solo gaúcho. Eles formam a terceira gestão do Regional, mas por pouco não foram a segunda.
Quando o negócio foi vendido pela primeira vez, os parceiros quase assumiram a marca. "A gente era colega de academia, chegou a falar sobre, mas naquela época optamos por não seguir em frente. Agora surgiu a oportunidade de novo e a gente abraçou", explica Gabriel.
"Resolvemos dar esse passo a mais, de adquirir aqui, tocar o negócio que a gente já conhece e frequentava e gostava, a gente já tinha a ideia mais ou menos daquilo que deveria ser melhorado", completa.
Ajustes e melhorias
Clientes fiéis e já conhecidos nos arredores, eles adquiriram a operação de forma saudável, pois o dono já queria se desvencilhar do ponto. A situação que encontraram não carregava problemas financeiros, mas muitos contratempos em relação à infraestrutura.
"Na nossa visão de cliente, não enxergávamos que havia tantas demandas, a gente só começou a ver que tinha bastante coisa por fazer quando entramos para o lado de cá do balcão", diz Gabriel.
Foi então que colocaram em ação um pacote inicial de melhorias: a nova direção priorizou o conserto de equipamentos, como geladeira, ar-condicionado e o balcão de atendimento, ampliou o número de mesas e cadeiras — que agora acomodam 80 pessoas levando em consideração o espaço da rua — e melhorou a higiene geral do espaço.
O mais importante, porém, foi a adição de mais duas torneiras de chopp, totalizando sete opções. Também foi realizada a compra de mais uma TV, sendo possível assistir dois jogos simultaneamente. "Antes, se tivesse conflito de horário, sempre passava o time que iria jogar fora, hoje em dia conseguimos transmitir os dois", garante Gabriel.
Essência e cardápio
No entanto, como se trata de um bar que carrega muitas histórias, eles apontam que cuidam ao máximo antes de realizar qualquer mudança para preservar a história e o norte da marca Regional: trabalhar com cervejas da região.
Falando de cerveja, a marca sempre busca manter o giro constante de opções nas torneiras. Só que, há muito tempo, a queridinha do público vem sendo a Cachorro Ovelheiro, IPA de 500ml produzida em Garibaldi pela Cervejaria Guarnieri. Com graduação alcoólica de 6%, o diferencial se dá pelo aroma frutado, composto por lúpulos americanos, com maior evidência de maracujá.
Uma das comemorações mais usuais no pub é o famoso happy hour depois do expediente. Desse modo, eles perceberam que uma reclamação comum era a pouca diversidade no que diz respeito às comidas. "Antes, só tinha pizza. Hoje a gente já implementou o espetinho e está fazendo outros testes, porque todo mundo reclamava muito da comida e das cervejas que eram sempre as mesmas", revela Carlos, que garante os aperitivos de terça a domingo, quando o bar abre, e não somente nas quartas, quando o parceiro Nitro Food Truck (@nitrofoodtruck) estaciona em frente ao pub para oferecer hambúrgueres à clientela.
Nova fase e programação
Preparando-se para o frio que se aproxima, os sócios montaram uma pequena adega para introduzir vinhos locais, já que uma contestação frequente dos usuários era ter somente stouts para consumir em dias mais gelados. O movimento faz parte de uma nova fase da marca, que quer se tornar Empório Regional.
"A gente começou a movimentar mais o Instagram, e foi bem importante. Desde que a gente assumiu aqui, tivemos um acréscimo substancial no número de seguidores, que já estão beirando os 10 mil", comemora Carlos. "O pessoal vem elogiando bastante, porque era um ponto que não era muito utilizado", conclui.
A semana tem programação fixa e começa com a terça da IPA, com preço especial: o pint sai pelo preço do half. Na quarta, o food truck entra como opção de alimentação. De quinta em diante, a casa costuma receber atrações ao vivo - voz e violão, MPB, Rock, DJs, além de samba e pagode.
Know-how é ativo estratégico na transição da gestão
Começar do zero ou assumir um negócio existente. Esse é um dilema que permeia o pensamento de muitos futuros empreendedores e até empresários mais experientes. Lucas Bonacina Roldan, professor da Escola de Negócios e do Programa de Pós-Graduação em Administração da Pucrs, defende que a escolha depende, acima de tudo, do perfil do empreendedor. Para quem está começando no meio ou ainda pensando em largar a CLT, assumir um negócio já validado pode ser a estratégia mais segura, pois o início é o momento mais vulnerável.
"Começar com algo já validado no mercado é mais fácil: tu entras com uma marca que já tem história, know-how e até uma base de clientes. No fim, é uma estratégia mais segura para quem está começando, porque reduz a incerteza sobre produto, serviço e público", afirma Lucas.
O professor aponta, porém, que a percepção de quem tem mais casca no empreendedorismo pode ser diferente. Segundo ele, esse grupo possui maior facilidade para lidar com riscos e identificar oportunidades ao começar do zero.
"Se tu és um empreendedor mais experiente, a tendência é começar do zero, porque tu já tens uma melhor leitura de oportunidades. O brasileiro naturalmente se expõe um pouco mais ao risco, o que reforça esse perfil mais propenso a criar ou transformar negócios", garante.
Esse pensamento é corroborado pela Global Entrepreneurship Monitor que, em 2025, mostrou que o Brasil tem 44 milhões de empreendedores — que já possuem um negócio formal ou informal ou já estão começando a criar o seu negócio.
E o potencial empreendedor do País apresenta números semelhantes: ficamos atrás apenas da Índia no assunto. São 43 milhões de adultos que ainda não têm, mas pretendem criar o próprio negócio em até três anos.
No entanto, um dado menos otimista vem do IBGE. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística aponta que 60% das empresas fecham as portas após cinco anos de atuação — sendo os pequenos negócios os mais atingidos.
O que avaliar antes de adquirir um negócio
Adquirir uma operação tende a ser o passo mais seguro. Entretanto, é crucial compreender a espinha dorsal do empreendimento: o que torna o negócio lucrativo, quem são os clientes, os fornecedores, a proposta de valor e a qualidade esperada.
"Tu tens que entender a lógica do negócio para conseguir avançar. Que experiência tu tens com o negócio, quais são os contatos, qual conhecimento tu possui desse setor e de suas particularidades", contextualiza o professor ao defender que, antes de assumir, é necessário entender o que faz com que um negócio se sustente.
Não basta avaliar apenas números como faturamento e custos, é preciso também analisar os ativos intangíveis. O especialista acredita que um deles é o conhecimento tácito passado pela gestão anterior. "Muitos processos são informais e ficam apenas na cabeça do antigo dono ou da equipe. Se a transição for mal feita, esse saber vai embora, o que pode frustrar os clientes e penalizar a nova direção", defende.
Gestão da equipe na transição
Nessa linha, manter a equipe, num primeiro momento, pode ser válido, considerando que os funcionários são a "cara" do negócio, o que preserva tanto a identidade e a história do local quanto traz conforto ao cliente já fidelizado.
"Vícios vêm junto, mas manter a equipe é uma boa prática. Ajustes podem ser feitos paulatinamente, para imprimir a identidade do novo gestor sem descaracterizar o negócio", explica Lucas.
Ainda em relação às mudanças, o especialista argumenta que esse processo começa de dentro para fora. No início, o ideal é dar prioridade para melhorias que não aparecem para o cliente final, como controle de custos, organização financeira e demais processos internos, como a gestão de equipe citada anteriormente.
De acordo com o professor, esse movimento é primordial, pois, além de blindar a tradição de um negócio, permite que haja mais tempo para pensar em testes no que se refere às inovações incrementais. Lucas diz que mexer em produtos ou reposicionar a marca são ações de risco, não podendo ser feitas de maneira brusca. "A ideia é aprender com o mercado, bem como com a equipe e os clientes", sustenta.
Mudanças, marketing e reposicionamento
Apesar de estar de cara nova, cabe avaliar os efeitos do marketing em cima da nova gestão. Se o negócio ia bem, o professor recomenda que se faça de maneira discreta. Não há por que efetuar um alarde publicitário imediato, pois isso pode afastar a clientela saudosista.
"A comunicação vai ter que reforçar sempre segurança e evolução. Nunca gerar dúvida, e, se gerar dúvida, tu podes perder o teu cliente", comenta.
Agora, se o negócio ia mal, Lucas recomenda que a mudança na imagem seja, de certa forma, "radical".
"Às vezes, ao passar pela estrada, é comum ver restaurantes com a placa 'sob nova direção'. Isso geralmente indica que a gestão anterior não estava funcionando bem. Nesses casos, pode fazer sentido até trocar o nome. Mantém-se o tipo de negócio — como um restaurante —, mas com uma nova identidade. A marca é um ativo. Se for reconhecida, ótimo. Mas, se estiver queimada, joga contra", justifica.
Para quem está decidindo que é a hora de encerrar o ciclo e passar o bastão adiante, o professor entende que os motivos são os mais diversos, sendo o principal a falta de alinhamento com a vida pessoal, quando o motivo para vender um negócio costuma ser a quebra de expectativa. Ele dá o exemplo de um ex-aluno que considera um empreendedor fantástico. O estudante tinha uma empresa de cachorro-quente para eventos, que ia superbem, mas surgiu um problema: ele virou vegano. "Ele não acreditava mais naquilo, mesmo sendo lucrativo. Hoje, ele trabalha com assinatura de produtos orgânicos, o que tem tudo a ver com a nova pegada de vida dele", relata.
O peso da rotina também é um dos fatores. O especialista afirma que, muitas vezes, o empreendedor enjoa do ônus, como ter que trabalhar de domingo a domingo, em comparação ao bônus, que é variável, porque nem sempre é possível presumir o lucro.
Ele considera que, se a empresa é saudável e reconhecida, o melhor é vender a marca, pois ela tem alto valor agregado. Já se a operação estiver mal vista no mercado, muitas vezes é melhor passar apenas o ponto comercial.

