Ana Esteves
Especial para o JC
A
insegurança dos produtores rurais em relação à
renegociação das dívidas e à
operacionalização das medidas anunciadas pelo governo federal está freando a movimentação de crédito e a comercialização na Expointer 2026. Os
primeiros cinco dias da mostra foram considerados fracos e a expectativa é de uma definição sobre a renegociação das dívidas ocorra ainda durante a feira, permitindo que os produtores retomem as decisões com maior previsibilidade.
O executivo acrescentou que a indefinição também afeta o Plano Safra, que estaria com a execução praticamente paralisada diante das dúvidas dos produtores sobre como proceder. “É preciso que o governo federal dê uma definição imediatamente para que os produtores saibam o que eles podem fazer e as instituições financeiras possam começar a operar”, afirmou.
O desafio, segundo ele, é criar condições para que os produtores retomem os investimentos e o crédito com maior segurança. “Os produtores estão cautelosos com razão”, disse.
Além das incertezas financeiras, Lemos aponta outro fator que contribui para a prudência nas decisões de investimento: a rápida evolução tecnológica no campo. Na avaliação dele, o avanço da Inteligência Artificial deverá provocar mudanças importantes nas máquinas e nos sistemas utilizados na produção rural, o que pode fazer com que produtores adiem a compra de equipamentos. “Há uma mudança de tecnologia que está vindo aí que não é recomendável sair comprando máquina agora. A inteligência artificial vai modificar tudo”, afirmou.
Como os investimentos em máquinas são elevados, a avaliação é de que o produtor deve acompanhar as novidades antes de comprometer recursos. Nesse cenário, Lemos avalia que a Expointer vem assumindo cada vez mais um papel de feira de conhecimento e prospecção, além da tradicional função de espaço para negócios.
O Banrisul não estabeleceu uma meta específica de crédito para a Expointer, mas chega à feira com recursos e operações preparados para atender os produtores. Segundo ele, cerca de R$ 4,5 bilhões estão relacionados a operações enquadráveis nas medidas de renegociação, enquanto a carteira de custeio que precisa ser renovada supera R$ 4 bilhões. Somados, os dois montantes representam aproximadamente R$ 8,5 bilhões, sem considerar os financiamentos para investimentos em máquinas e equipamentos, que, na avaliação do executivo, deverão ser menores neste momento. Lemos afirmou que o banco já deixou as operações de crédito pré-aprovadas e aguarda apenas a definição das condições e os procedimentos para colocá-las em operação.
“Estamos preparados. Todos os nossos créditos estão pré-aprovados, está tudo pronto. Só falta a parte operacional”, afirmou.
Mesmo diante do cenário adverso, o Banco do Brasil mantém a projeção de superar R$ 1 bilhão em intenções de financiamentos para esta edição da Expointer. “Estamos trabalhando para alcançar esse objetivo e melhorar a conversão de intenções em negócios”, afirma o superintendente Varejo do BB no Rio Grande do Sul, Ricardo Sehn.
Entre as linhas mais procuradas até o momento está o Move Agrícola para médios e grandes produtores em máquinas e implementos, e a agricultura familiar com o Pronaf Mais Alimentos, também em máquinas e implementos, que têm apresentado procura superior ao ano passado. O executivo informa que o cenário de endividamento e de incerteza faz com que o Banco do Brasil atue de forma personalizada, com alternativas para renegociações, seja pela MP 1.376 ou, quando cliente é não elegível, outras alternativas de renegociação com recursos próprios. “Mas também temos uma parcela significativa de clientes que tem procurado novos investimentos”, aponta.
O presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste, Márcio Port, diz que nos primeiros dias de feira a procura diretamente no parque foi pequena. “Percebemos um público menor circulando na feira, mas sabemos que o produtor deixa para vir para Expointer nos últimos dias. Ainda não temos um levantamento das contratações durante a mostra”, diz.
O Sicredi liberou R$ 5,6 bilhões no primeiro mês do Plano Safra 2026/2027, 6% a mais do que o montante liberado no mesmo período do ano passado, quando foram concedidos R$ 5,3 bilhões. No total foram R$ 22 bilhões em crédito rural no Rio Grande do Sul durante o Plano Safra 2025/26, encerrado em 30 de junho, o que manteve a liderança na concessão de recursos para o setor no Estado. O volume corresponde a 34% de todo o crédito rural liberado pela instituição no território gaúcho e representa, pelo segundo ano consecutivo, a maior participação entre as instituições financeiras. Em todo o País, o Sicredi liberou R$ 69 bilhões no ciclo.
Para o diretor vice-presidente do Bradesco, José Ramos Rocha Neto, o agronegócio gaúcho começa a dar sinais de recuperação, com a valorização da soja e da pecuária, cenário que pode favorecer a retomada dos investimentos, inclusive na renovação de máquinas e implementos agrícolas. No entanto, o executivo defende cautela e condições de crédito compatíveis com a realidade dos produtores. “Ninguém vai pagar uma conta de cinco anos em um ano”, afirmou, ao comentar as renegociações de dívidas rurais.
O diretor também destacou o impacto da taxa de juros sobre um setor dependente de financiamento. Apesar do cenário ainda restritivo, vê sinais positivos com a perspectiva de redução dos juros. Para ele, 2027 poderá representar um ano melhor para o Estado. “Esse momento pode estar sendo agora”, avaliou, reforçando que o Bradesco pretende permanecer próximo dos agricultores gaúchos.
O BRDE anunciou a aprovação de R$ 35 milhões em financiamentos durante a Expointer 2026. Os recursos serão destinados às empresas Alisul Alimentos, de São Leopoldo, e Brita Ouro Preto, de Santa Cruz do Sul, com projetos voltados à modernização, inovação e sustentabilidade. “Operações demonstram a confiança do setor empresarial no potencial do Estado para novos investimentos”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico, Leandro Evaldt.
Do total, R$ 25 milhões serão destinados à Alisul para a modernização da planta industrial de produção de rações animais. O projeto inclui um novo centro de distribuição, com automação da logística por meio de robôs móveis, além da instalação de uma caldeira movida a cavaco de madeira e biocombustíveis, reduzindo o uso de combustíveis fósseis. Os outros R$ 10 milhões serão destinados à mineradora Brita Ouro Preto para a modernização do parque industrial em Santa Cruz do Sul. O projeto permitirá a produção de remineralizador de solo, conhecido como pó de rocha, utilizado na agricultura para reposição de nutrientes e melhoria das condições do solo.
A instituição também celebrou a aprovação de uma linha de financiamento no valor de R$ 30 milhões para a Cooperativa Tritícola Espumoso Ltda (Cotriel) e o primeiro financiamento do programa CrediTur RS, que contemplou o hotel fazenda Acqua Lokos, localizado em Capão da Canoa, no Litoral Norte, que acessou a R$ 500 mil para manutenção de suas atividades.