O peso-leve Orlando "Johnson" Silva não fazia feio nos toscos ringues da Porto Alegre da década de 1930, mas suas pretensões pugilísticas acabaram beijando a lona contra três rivais imbatíveis: música, boemia e uma mãe aflita. Sorte da cidade, que ganhou em definitivo um de seus mais queridos e duradouros cantores. Amigo inseparável de Lupicínio Rodrigues (a quem serviu como confidente, intérprete e divulgador), foi também funcionário público, fiscal de direitos autorais e, sobretudo, um boêmio gentil que deixou saudades entre o pessoal que dorme tarde.
Caçula dos três filhos de um carroceiro com uma lavadeira, o guri negro e pobre nasceu em 24 de outubro de 1910 na travessa Cauduro, bairro Bom Fim (então Colônia Africana), e durante a infância morou na vizinhança da cervejaria Continental (hoje Shopping Total), bairro Floresta. Cresceu jogando bola, fumando bitucas e cantarolando, enquanto levantava trocos como ajudante nas bancas do Mercado Público e em uma fábrica de banha na Zona Norte. Essa agenda movimentadíssima decretaria uma derrota por desistência para as listas de presença do ensino primário.
A sedução do boxe que se expandia na cidade fez do adolescente mais um adepto, iniciando seu cartel antes dos 17 anos (vitória por nocaute no segundo round, em julho de 1927) como "Pereira Johnson", nome-de-guerra que malandramente unia os sobrenomes da mãe e de um célebre esportista norte-americano. Futuramente, a alcunha ajudaria a evitar mal-entendidos com o cantor carioca Orlando Silva (1915-1978), pois Orlando também já demonstrava talento para a interpretação de composições populares, alimentando o sonho de uma carreira musical.
Com rara entrega emocional para um rapazote inexperiente nos dramas do coração, sua voz embargada agradava em cheio aos exigentes ouvidos de uma Capital onde as oportunidades artísticas se multiplicavam. A cidade ainda sem emissoras de rádio ou mesmo microfones derramava música ao vivo em bares, cafés, cineteatros, cabarés, saraus, serestas e carnavais - o garoto já era solista do bloco dos Turunas, sediado na rua Ramiro Barcelos (atual bairro Rio Branco). Tempos de Lupicínio, Horacina Corrêa, Otávio Dutra, Paulo Coelho, Alberto Carusinho, Caco Velho.
O atleta e o artista não demorariam a perceber, entretanto, que obter sucesso em atividades tão conflitantes se impunha como um desafio instranponível, principalmente aos adeptos convictos dos prazeres da vida noturna. "Conciliar porradas e canções era como uma batalha interna e sem tréguas, mesmo para os fortes de corpo e espírito", ressaltou este jornalista no livro biográfico Johnson: o Boxeur-Cantor, publicado de forma independente em 2013. "Dificilmente seria possível desempenhar ambos os papéis com a devida qualidade."
Entre palcos e ringues
Johnson (primeiro à esquerda, acima) posa elegante para foto com os colegas do Jazz Cruzeiro, em 1933
/ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCDas ruas para os palcos foi um abraço. Diretor dos Turunas, o contrabaixista Flávio Correa também liderava o Jazz Cruzeiro (1930-1934), um dos melhores grupos locais a incorporar na assinatura a referência ao gênero norte-americano em ascensão, mesmo que suas partituras estivessem mais para sambas, foxes, valsas, marchas e tangos. Coube a ele a aposta em Johnson para crooner do conjunto, experiência que proporcionou ao garoto de bigode colado no megafone metálico um aprendizado de grande valor, aprimorando um talento musical que logo estaria a serviço de um meio de comunicação em pleno crescimento: o rádio.
Esse novo round na carreira teve início com o inesperado aviso "Vou te botar no ar!", cortesia do violonista Ney Orestes quando o relógio da PRC-2 Gaúcha (ainda no bairro Moinhos de Vento) marcava 20h45min na abafada noite de 12 de dezembro de 1934, sexto ano de atividade da emissora. Chegando ao estúdio em cima do laço e sem nada preparado para o programa Audição de Águas Caxambu, acabou recorrendo ao amigo e parceiro de noitadas. O cantor mal teve tempo de se recompor do susto - uma coisa era brilhar em salões, festas e eventos, outra bem diferente seria ter a própria voz navegando nas ondas da emissora.
"Não tem mistério, eu me garanto no violão e tu canta algumas daquelas que a gente tá habituado a fazer", suavizou o titular antes de um curto ensaio. O estreante deu o recado direitinho em uma toada e dois sambas que caíram no agrado do diretor artístico Ovídio Chaves (1910-1978), personagem essencial daquele período. Entre jornais falados, reclames, programas educativos e esquetes humorísticas, discos de orquestras e muita música ao vivo, durante quatro anos "A Voz Morena da Cidade" se tornaria uma das atrações fixas do elenco, com performances de 15 minutos por noite, a uma média de três vezes por semana.
Com Alcides Gonçalves, Horacina Correa, Caco Velho, Stella Norma, Leo Romano, Cândida Linhares, Ivan Castro, Ione Pacheco, Heitor Barros e dezenas de outros talentos disputando o espaço apertado de apenas três rádios (incluindo Difusora e Farroupilha, fundadas em 1934-1935), o boxeur-cantor dedicava amplo espaço a composições - inclusive inéditas - de conterrâneos em ascensão como Lupicínio Rodrigues. "Ele vai mostrar o que é nosso, modulando com alma as notas nostálgicas e cadenciadas, como elemento que vê sua popularidade aumentar dia a dia", sublinhou uma edição do jornal Folha da Tarde de 1936.
Johnson com músicos da Rádio Gaúcha, em foto de 1936
ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCO sucesso também se confirmava nos concursos artísticos e festivais nos cineteatros, onde os ouvintes podiam conferir de perto a pinta de seus ídolos. Nada mal para quem dedicava igual afinco ao boxe e à boemia. Porém, as vacas seguiam magras: sem salário na Gaúcha (o mesmo ocorreu em breve "empréstimo" à Difusora), Johnson recebia apenas cachês por participação. Um "carancho", na gíria da época. À beira dos 27 anos e sem planos de gravar discos ou tentar a sorte fora do Estado, em agosto de 1937 sua carreira foi golpeada pelo rompimento de vínculo com a emissora, em momento de crise e reformulação.
"Nem todo mundo tinha salário. Para se ter uma ideia das dificuldades de então, até os radioatores Pery Borges e Estelita Bell, nomes mais famosos desse tipo de mídia no Rio Grande do Sul da época, precisavam complementar a renda com longas e penosas excursões pelo Interior durante o verão, entre uma temporada e outra na Farroupilha", contextualiza o professor Luiz Arthur Ferraretto, 57 anos, coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Para Johnson, restava o ainda mais minguado sustento dos ringues (e trabalhos avulsos) antes que pintasse algo melhor.
"Nem todo mundo tinha salário. Para se ter uma ideia das dificuldades de então, até os radioatores Pery Borges e Estelita Bell, nomes mais famosos desse tipo de mídia no Rio Grande do Sul da época, precisavam complementar a renda com longas e penosas excursões pelo Interior durante o verão, entre uma temporada e outra na Farroupilha", contextualiza o professor Luiz Arthur Ferraretto, 57 anos, coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Para Johnson, restava o ainda mais minguado sustento dos ringues (e trabalhos avulsos) antes que pintasse algo melhor.
Boxeur-cantor
Folheto para divulgação de show em 1935 (esquerda) faz referência ao sucesso de Johnson no cineteatro; mesmo com a fama, era preciso complementar a renda nos ringues de pugilismo (direita)
/ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCTal como duas faces de um mesmo disco, música e boxe tinham tudo a ver no espaço-tempo de promessas, glórias e tropeços do filho da lavadeira. Surgido 5 mil anos antes no Oriente Médio dos sumérios e babilônios, cultuado na Grécia dos filósofos, praticado na Roma dos césares, aperfeiçoado na Inglaterra dos proletários e expandido nos Estados Unidos dos estrangeiros, o pugilismo se espraiou pelas metrópoles da América Latina no começo do século XX. A curiosamente chamada "nobre arte" ingressara aos poucos no Brasil, de forma rudimentar, por imigrantes italianos e alemães, marujos em trânsito e notícias vindas de outros países.
Os duelos repletos de adrenalina conquistavam adeptos dentro e fora das cordas, sobretudo a partir de sua inclusão na terceira Olimpíada (EUA), em 1904. Na capital gaúcha, a primeira academia especializada surgira na Rua da Praia, em 1914, e os cinemas da década seguinte já exibiam fitas com lutas estrangeiras de ranger os dentes, enquanto estética e jargões eram apropriados pela publicidade dos mais variados produtos nos mesmos jornais que davam destaque aos espetáculos locais, com seus desafios, revanches e heróis. Popularização alcançada, aliás, em meio ao disciplinamento por ligas empenhadas em dar verniz mais civilizado à atividade.
"Nessa fase de plena transição do amadorismo para a profissionalização (que se consolidaria nos anos 1940), os combates ofereciam uma opção irresistível de divertimento noturno para a classe operária após o expediente", acrescenta o professor e historiador gaúcho Jônatas Caratti, 39 anos, autor do livro Dentro e Fora dos Ringues (Editora Appris, 2022) - uma das raras publicações debruçadas sobre o assunto no Rio Grande do Sul. "Outro fator de estímulo à difusão do esporte no Estado foi a tradição pugilística de países próximos como Argentina, Uruguai e Chile, com praticantes frequentemente se apresentando por aqui."
A rapaziada de bolso vazio não ficou ilesa à ideia combinada de virilidade e melhoria de vida. Na galeria de esmurradores das temporadas porto-alegrenses da década de 1930, nomes como Garoto de Bronze, Luiz Retamoza, Polo Norte, João Tóbis, Waldemar Moraes, Mário Pinto, Francisco Tom Mix, Jack Vitrola, Malvado Baby. E um tal Pereira Johnson, pura agilidade e elegância de 61 quilos em 1m67cm de altura, cria do Southern Boxing Club (na rua Ramiro Barcelos, quase esquina com Cristóvão Colombo), onde um técnico espanhol e outro italiano haviam percebido, em 1927, que o guri de 17 anos não levava jeito apenas para a música.
Uma das medalhas conquistadas por Johnson em seus dias de boxeador
ACERVO SEBASTIÃO SANTOS/REPRODUÇÃO/JCInspirado no ídolo afroamericano Jack Johnson (1878-1946) e logo reduzido pela retirada do "Pereira" (sobrenome da mãe, em uma tentativa de "amaciá-la"), o apelido o acompanharia em uma rápida ascensão na categoria peso-leve, sob elogios de especialistas como Amaro Júnior, que o descreveu em coluna para o Correio do Povo como "verdadeiro senhor do quadrado, esquivador emérito e com boa visão de oportunidades". No currículo consta o título citadino da modalidade em 1932-1933, quando já acompanhava o Jazz Cruzeiro - um olhar de lupa sobre fotos do grupo mostra um belo crooner de mãos castigadas.
Entre acordar cedo para treinar depois de longas madrugadas de esbórnia ou cantar com o corpo doído e a "fachada" de mal disfarçados hematomas, o que poderia ser mais difícil? Caso nenhuma dessas razões fosse suficiente para jogar a toalha, um adversário vinha se mostrando especialmente duro: Dona Maria Antônia. Em lágrimas desde o primeiro dia de Orlando nos ringues, ela dedicava súplicas e velas a São Jorge para que o caçula desse um ponto final àquele desatino, capaz de deixar sequelas ou, pior, igual desfecho ao alardeado pela imprensa no relato da morte de um lutador europeu vitimado por concussão cerebral.
Com a idade cercando o corner dos 30 anos, Orlando enfim cedeu aos apelos familiares em 1939, pendurando as luvas após sua terceira derrota em um cartel de pelo menos dez peleias. Nobreza em pessoa, consta que pelo resto da vida ele jamais daria um mísero tapa fora das cordas. Nem mesmo no episódio em que, ao cantar em uma boate, teve que recorrer à antiga esquiva para evitar o soco do namorado ciumento de uma fã: com a mão quebrada pelo murro contra a parede, o sujeito acabou conduzido pelo próprio artista até o hospital mais próximo. "Nada pode ser mais violento que uma boa letra de música", costumava enfatizar.
Entre acordar cedo para treinar depois de longas madrugadas de esbórnia ou cantar com o corpo doído e a "fachada" de mal disfarçados hematomas, o que poderia ser mais difícil? Caso nenhuma dessas razões fosse suficiente para jogar a toalha, um adversário vinha se mostrando especialmente duro: Dona Maria Antônia. Em lágrimas desde o primeiro dia de Orlando nos ringues, ela dedicava súplicas e velas a São Jorge para que o caçula desse um ponto final àquele desatino, capaz de deixar sequelas ou, pior, igual desfecho ao alardeado pela imprensa no relato da morte de um lutador europeu vitimado por concussão cerebral.
Com a idade cercando o corner dos 30 anos, Orlando enfim cedeu aos apelos familiares em 1939, pendurando as luvas após sua terceira derrota em um cartel de pelo menos dez peleias. Nobreza em pessoa, consta que pelo resto da vida ele jamais daria um mísero tapa fora das cordas. Nem mesmo no episódio em que, ao cantar em uma boate, teve que recorrer à antiga esquiva para evitar o soco do namorado ciumento de uma fã: com a mão quebrada pelo murro contra a parede, o sujeito acabou conduzido pelo próprio artista até o hospital mais próximo. "Nada pode ser mais violento que uma boa letra de música", costumava enfatizar.
Amigo Lupi
Johnson e Lupicinio eram "a corda e a caçamba": onde um ia, o outro estava
/ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCNa sortida confraria de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), coube a Johnson - o "Jônson", na fala mansa da turma - o papel de irmão em afinidade e confidente mais próximo durante cinco décadas. Título mais do que justo, desde a casa da família Rodrigues na vila da Ilhota até a vida de casado do camaradinha na Zona Sul, inclusive como comparsa de boemia e coadjuvante fundamental na consolidação da carreira do maior compositor popular do Rio Grande do Sul. Separada em idade por irrelevantes quatro anos, a dupla era conhecida pelos mais chegados como "a corda e a caçamba": para saber de um, bastava procurar pelo outro. Ou vice-versa.
"Fomos ligados como unha e carne. Era uma vida fora do comum, nem gosto muito de lembrar, pois dá vontade de chorar", desabafaria o velho Orlando à pesquisadora gaúcha Márcia Ramos de Oliveira para a dissertação de mestrado Lupicínio Rodrigues: A Cidade, A Música e Os Amigos, defendida em 1995 no curso de História da Ufrgs. E se Lupi tinha no chapa o seu intérprete preferido, a recíproca se dava pelo esmero em manter em evidência o repertório (incluindo pérolas jamais gravadas, como o lindo samba-canção Gessi) em shows, rodas boêmias e as tantas entrevistas concedidas antes e depois da morte do companheiro.
Em fase de finalização da mais completa biografia já escrita sobre Lupicínio (lançamento previsto para abril), o jornalista e pesquisador Arthur de Faria, 54 anos, contribui com exemplo emblemático. "Em certa madrugada de julho de 1974, pouco mais de um mês antes de morrer, ele cantarolou e escreveu em guardanapo do bar Adelaide's (na rua Marechal Floriano) a sua última canção conhecida, Coquetel de Sofrimento. A melodia memorizada por Johnson permitiu que o carioca Jamelão (1913-2008) a gravasse, de forma inédita, em LP lançado naquele mesmo ano".
Suspeita-se, por sinal, que a figura tenha sido uma das tantas a perceber que suas próprias desilusões amorosas haviam sido convertidas em letra de música pelo gênio da dor-de-cotovelo. Experiências que, muitas vezes, eram compartilhadas durante a "via-sacra" dos bares na sequência de seus respectivos expedientes de trabalho no Centro de Porto Alegre.
Últimos rounds
Durante mais de seis décadas, Johnson era figura nobre na boemia da Capital
/ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCJohnson deixou o funcionalismo aos 70 anos, "na compulsória", sem se aposentar da boemia. Artista de percurso invertido (começara como profissional para depois se tornar amador), apresentava-se por prazer ou cachês irrisórios em eventos, reuniões da velha guarda e casas noturnas como Chão de Estrelas, Vinha D'Alho, Clube da Saudade e Gente da Noite, escoltado pelos violões de Jessé Silva, Darcy Alves e a flauta de Plauto Cruz, dentre outros, às vezes dividindo microfones com Zilah Machado, Rubens Santos e Lourdes Rodrigues. Sem ambições fonográficas, havia gravado uma só faixa (Meu Barraco, de Lupicínio), para um LP coletivo de 1973.
Além da homenagem com o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre em 1990 e de uma grande serenata festiva na Praça Garibaldi ao completar 80 primaveras, foi também um dos destaques do curta-metragem Amigo Lupi, vencedor da categoria no Festival de Cinema de Gramado em 1993. Mas os golpes da idade fizeram com que baixasse a guarda no ano seguinte. Fraquejo das pernas, confusão mental, memória grogue. O tempo abrindo contagem. Paquerador "alérgico" desde sempre à hipótese de casamento e dividindo casa no bairro Medianeira com os sobrinhos-netos Wanda e Sebastião (adotados como filhos), topou com seu mais sorrateiro oponente: o alzheimer.
Johnson divide uma mesa de bar com Jamelão, em imagem dos anos 1970
ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JCO último clique é do inverno de 1995. A serviço da revista cultural Capacete, o fotógrafo Eduardo Aigner capturou o velhinho já irreconhecível, encurvado sobre uma cadeira de balanço. Cabeça baixa, olhar perdido, as mãos especialmente calçadas em luvas de boxe para a ocasião. O gongo acabaria soando na tarde de 13 de junho, com o coração de quase 85 temporadas jogando a toalha a um minuto para as 17h no Hospital Petrópolis. Diante da sepultura nº 12.251 do Cemitério São Miguel e Almas, uma legião de amigos inconsoláveis se reuniu no dia seguinte, em seresta vespertina de improviso com um punhado de violões e dezenas de vozes.
Tomado pela emoção em uma das rodas de conversa, o pesquisador musical Carlos Roberto Campos (1952-2012) relembrou naquele momento uma visita durante a qual havia surgido de gravador em punho no lar do ídolo, na rua Gomes Carneiro, meses antes. A tecla play fizera soar pela sala de madeira um antigo samba-canção que despertou o anfitrião de sua catatonia, como o efeito do amoníaco sob as narinas de um pugilista castigado por sequência de jabes e diretos. De pescoço levemente empinado, sobrancelhas erguidas e um esboço de sorriso, "a Voz Morena da Cidade" balbuciou ali um de seus últimos suspiros de lucidez: "É o Lupicínio!".
* Marcello Campos é formado em Jornalismo, Publicidade & Propaganda (ambas pela PUCRS) e Artes Plásticas (UFRGS). Tem seis livros publicados, incluindo as biografias de Lupicínio Rodrigues, do Conjunto Melódico Norberto Baldauf e do garçom-advogado Dinarte Valentini (Bar do Beto). Há mais de uma década, dedica-se ao resgate de fatos, lugares e personagens porto-alegrenses.
Tomado pela emoção em uma das rodas de conversa, o pesquisador musical Carlos Roberto Campos (1952-2012) relembrou naquele momento uma visita durante a qual havia surgido de gravador em punho no lar do ídolo, na rua Gomes Carneiro, meses antes. A tecla play fizera soar pela sala de madeira um antigo samba-canção que despertou o anfitrião de sua catatonia, como o efeito do amoníaco sob as narinas de um pugilista castigado por sequência de jabes e diretos. De pescoço levemente empinado, sobrancelhas erguidas e um esboço de sorriso, "a Voz Morena da Cidade" balbuciou ali um de seus últimos suspiros de lucidez: "É o Lupicínio!".
* Marcello Campos é formado em Jornalismo, Publicidade & Propaganda (ambas pela PUCRS) e Artes Plásticas (UFRGS). Tem seis livros publicados, incluindo as biografias de Lupicínio Rodrigues, do Conjunto Melódico Norberto Baldauf e do garçom-advogado Dinarte Valentini (Bar do Beto). Há mais de uma década, dedica-se ao resgate de fatos, lugares e personagens porto-alegrenses.