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Publicada em 20 de Agosto de 2026 às 18:50

IFI: cumprimento formal da meta fiscal convive com realização de déficits primários efetivos

Déficit fiscal efetivo pode comprometer finanças em longo prazo

Déficit fiscal efetivo pode comprometer finanças em longo prazo

José Cruz/Agência Brasil/Divulgação/JC
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Agências
A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, criticou, no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de agosto, que o cumprimento formal da meta de resultado primário conviva com a realização de déficits primários efetivos. A leitura da instituição é de que deduções legais em grande magnitude sustentam o resultado apurado para fins de meta.
 
O cumprimento da meta fixada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 será alcançado após as deduções legais de despesas, que somam entre R$ 62,8 bilhões (segundo cálculos do governo) e R$ 69,8 bilhões (segundo a IFI), além do uso do intervalo de tolerância legalmente previsto. O centro da meta deste ano corresponde a um superávit primário de 0,25% do PIB, ou R$ 34,3 bilhões.
 
Conforme o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias (RARDP) referente ao 3º bimestre de 2026, produzido pelos ministérios do Planejamento e da Fazenda e divulgado em julho, o resultado primário para fins de apuração da meta passou de um superávit de R$ 4,1 bilhões, projetado no 2º bimestre, para R$ 10,8 bilhões. Não houve necessidade de contingenciamento e com reversão parcial do bloqueio de despesas discricionárias (que recuou de R$ 23,7 bilhões para R$ 17,9 bilhões).
 
"Em uma primeira leitura, portanto, o quadro fiscal do terceiro bimestre é mais favorável do que o observado em maio", avaliou a IFI, que vislumbra um cenário de cumprimento formal da meta fiscal, neste ano, um pouco mais folgado que o observado nas duas avaliações bimestrais anteriores.
 
"Essa melhora reflete, majoritariamente, revisões para baixo nas projeções de despesas obrigatórias - pessoal e encargos sociais, benefícios previdenciários, BPC e precatórios -, e não uma reversão estrutural na trajetória do resultado primário efetivo, que permanece deficitário em R$ 52,0 bilhões na projeção para o ano", colocou a instituição no documento divulgado nesta quinta-feira (20).
 
Para a IFI, a magnitude das deduções legais que sustentam o cumprimento da meta reforça a leitura de impossibilidade de cumprimento da meta fiscal na ausência dessas deduções. "O cumprimento formal da meta, portanto, deve ser interpretado com a devida cautela: decorre, em parcela substancial, de descontos autorizados por lei que reduzem o resultado apurado sem alterar a trajetória do resultado primário efetivo", afirmou.
 
A IFI afirmou que, se, por um lado, a receita líquida registrou aumento de 5,6%, acima da inflação, por outro, as despesas subiram 6,3%, em termos reais. Tanto a entidade quanto o governo projetam um déficit primário efetivo em torno de 0,4% do PIB, em 2026, que importa para efeito da trajetória da dívida pública.
 
 
"PIB - Para ilustrar o tamanho do desafio fiscal que se impõe, a IFI estima que, para a estabilização da dívida bruta em proporção do PIB, seria necessário um superávit de 2,1% do PIB, com a maior contribuição vindo, necessariamente, do governo central", trouxe o texto. E prosseguiu: "A equipe econômica vem se empenhando na gestão do cotidiano da execução orçamentária para melhorar os resultados fiscais, mas o horizonte desejável para o futuro do País impõe um ajuste estrutural mais profundo e sustentável".
 
Outro ponto destacado foi a restrição imposta pelo estoque de restos a pagar sobre a capacidade de pagamento do Poder Executivo em 2026. Para a IFI, o descompasso entre o limite de pagamento de despesas discricionárias (R$ 225,4 bilhões) e o total de obrigações passíveis de pagamento no exercício, somados o orçamento do ano e os restos a pagar inscritos (R$ 330,9 bilhões), resulta em uma restrição de R$ 105,5 bilhões - cerca de seis vezes o valor do bloqueio de despesas anunciado no relatório do 3º bimestre. "Esse é um risco fiscal contingente que as métricas tradicionais de acompanhamento da meta não capturam."
 
Deterioração do déficit estrutural
 
A IFI estimou que, no acumulado em quatro trimestres até junho, o déficit estrutural tenha sido de 1,4% do PIB, ante um déficit estrutural de 0,7% do PIB no mesmo período de 2025. "Esse resultado revela uma tendência de agravamento dos desequilíbrios fiscais presentes na realidade brasileira", colocou.
 
Para a instituição, a deterioração do resultado estrutural e o "impulso fiscal expansionista" constituem pontos de atenção para o acompanhamento da trajetória fiscal. "A política fiscal, de caráter contracionista em 2025, tornou-se expansionista nas comparações anuais dos períodos encerrados em março e em junho de 2026", sustentou a instituição. E justificou que essa mudança ocorreu em um contexto de maior execução de despesas discricionárias no primeiro semestre, em parte associada à antecipação de emendas parlamentares, e em parte devido a ações voltadas à mitigação dos efeitos do conflito no Irã.
 
A comparação entre o limite de pagamento de despesas discricionárias (R$ 225,4 bilhões) e o total de obrigações passíveis de pagamento em 2026 (R$ 330,9 bilhões) revela uma restrição de R$ 105,5 bilhões - cerca de seis vezes superior ao bloqueio oficialmente reportado, prosseguiu. "Ainda que parte relevante desse estoque (R$ 94,1 bilhões, ou 89% do total) corresponda a restos a pagar não processados, sujeitos a cancelamento ou diluição em exercícios futuros, a concentração da restrição em emendas de bancada e de comissão indica um ponto de tensão orçamentária que tende a se repetir, e possivelmente se agravar, nos próximos exercícios."
 
O estoque dessas emendas já supera, isoladamente, todo o limite de pagamento disponível para essas rubricas em 2026.

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