A resistência de Donald Trump às políticas climáticas de Joe Biden são bastante conhecidas, mas ninguém sabe ao certo se o novo presidente dos Estados Unidos terá, de fato, poder legal e político para caçar os incentivos fiscais da administração passada aos produtores de energia limpa. Por outro lado, é praticamente certo que o republicano impulsionará a produção de combustíveis fósseis no país.
Quem monitora os avanços da transição energética no mundo se preocupa com potenciais alterações que Trump poderá fazer no IRA, a Lei de Redução da Inflação sancionada por Biden em 2022 e responsável por injetar US$ 400 bilhões em projetos de energia limpa nos EUA até o final da década.
A lei prevê vários incentivos para a produção de combustíveis alternativos a petróleo, gás e carvão. Na lista, por exemplo, estão incentivos fiscais para cada três quilos de hidrogênio verde produzido nos EUA e créditos de US$ 15 para cada MWh (megawatt-hora) de energia nuclear e de até US$ 7.500 para a compra de veículos elétricos.
Os aportes têm sido fundamentais para atrair empresas da indústria verde aos Estados Unidos, hoje bem atrás da China nesse segmento. De acordo com o grupo americano E2, fundado por empresários de vários setores, até agosto do ano passado, ao menos 334 grandes projetos já haviam sido aprovados a partir de benefícios da lei, movimentando
US$ 126 bilhões e gerando quase 110 mil empregos.
Esses números, aliás, são os fatores que fazem alguns analistas duvidarem de que Trump terá capital político suficiente para rever os incentivos da lei. Até porque, 60% dos projetos anunciados até então foram hospedados em estados comandados pelos republicanos -que também receberam 85% dos recursos investidos.
Assim, caso Trump opte por enviar ao Congresso americano proposições que impactem esses recursos, é provável que ele enfrente resistência dos próprios aliados na Câmara e no Senado - as duas casas são comandadas agora pelo Partido Republicano.
"Acho muito difícil que o Trump consiga zerar os efeitos do IRA, até porque os projetos estão em operação. Ele pode dar uma roupagem nova, mas os investimentos vão continuar acontecendo", diz Patricia Ellen, especialista em descarbonização e cofundadora da AYA Earth Partners. Ela ressalta que desestímulos à legislação afetariam a cadeia global da indústria verde, gerando consequências para outros países.
Em uma análise divulgada no fim do ano passado, a consultoria Wood Mackenzie, especializada em transição energética, apontou ser inevitável que os EUA retrocedam em suas ambições climáticas, mas apontou eventuais dificuldades que Trump terá caso opte por suspender o IRA.
Ainda assim, mesmo que o Congresso não acabe com os incentivos, Trump poderia modificar cronogramas de créditos fiscais, mecanismos de financiamento e bônus adicionais da lei -ou seja, a legislação não está totalmente imune às resistências do novo presidente.
A Wood Mackenzie estima que esses possíveis ajustes e o aumento de taxas de importação prometidas por Trump têm potencial de reduzir em um terço as implantações de energias renováveis no país nos próximos anos.
O maior impacto deve ser na indústria eólica, que Trump já criticou várias vezes; o presidente eleito comparou turbinas eólicas a lixos e disse, sem comprovação científica, que elas matam baleias. É provável que o novo governo desestimule os investimentos em energia eólica offshore, quando as turbinas eólicas são instaladas em alto mar.
Já a energia solar deve continuar a todo vapor, à medida que é improvável que a demanda por painéis solares diminua -ao menos no curto prazo. "Com investimentos em manufatura concentrados em estados republicanos, acreditamos que os créditos para manufatura avançada permanecerão intactos e cerca de 7 GW de manufatura solar provavelmente avançarão", diz David Brown, diretor do serviço de transição energética da Wood Mackenzie em uma análise divulgada no final do ano passado.
Na indústria automotiva, espera-se que o governo Trump revise as metas estipuladas por Biden no ano passado para os fabricantes de veículos reduzirem suas emissões. A legislação de Biden tem o objetivo de diminuir pela metade as emissões de dióxido de carbono de veículos leves em 2032, em comparação com 2026, empurrando as empresas em direção aos veículos elétricos. A lei começaria a valer a partir de 2027, mas é provável que Trump a suspenda.
Apoiador da indústria de combustíveis fósseis, o republicano deve incentivar a produção de petróleo, gás natural e carvão - justamente os três maiores emissores de poluentes, responsáveis pelo aquecimento global. Trump deve, por exemplo, suspender a legislação de Biden que estipulava metas de emissões para as usinas termelétricas.