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Publicada em 24 de Setembro de 2024 às 15:17

'O governo que deixar a inflação subir sabe que está liquidado', diz Pérsio Arida

Economista relembrou o período da implementação do Plano Real durante palestra na Pucrs

Economista relembrou o período da implementação do Plano Real durante palestra na Pucrs

EVANDRO OLIVEIRA/JC
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Nícolas Pasinato
Nícolas Pasinato
Um dos idealizadores do Plano Real, o economista e ex-presidente do Banco Central do Brasil Pérsio Arida realizou palestra no Salão de Atos da Pucrs na noite desta segunda-feira (23). Na ocasião, ele relembrou o período histórico e cenário econômico vigente no País à época da criação e da implementação do Plano Real, que este ano completa 30 anos. Também refletiu sobre lições provocadas a partir do projeto responsável por acabar com a hiperinflação que atormentou os brasileiros por mais de uma década. 
Um dos idealizadores do Plano Real, o economista e ex-presidente do Banco Central do Brasil Pérsio Arida realizou palestra no Salão de Atos da Pucrs na noite desta segunda-feira (23). Na ocasião, ele relembrou o período histórico e cenário econômico vigente no País à época da criação e da implementação do Plano Real, que este ano completa 30 anos. Também refletiu sobre lições provocadas a partir do projeto responsável por acabar com a hiperinflação que atormentou os brasileiros por mais de uma década. 
Entre os aprendizados, o economista cita que, atualmente, inflação descontrolada resulta em impopularidade de governantes junto à população brasileira. “Hoje, a estabilização de preços é consagrada no Brasil, porque o governo que deixar a inflação subir sabe que está liquidado”, analisa.

A conclusão de Arida explica, em parte, o porquê do País ter convivido com uma inflação de dois dígitos ou mais por tanto tempo, já que a sua origem e agravamento se deu durante a ditadura militar (1964 a 1985), quando se reprimia qualquer tipo de crítica e oposição ao regime.

Ele detalha que o princípio do problema inflacionário ocorreu, especialmente, com a ideia do governo militar de conviver com a inflação por meio do mecanismo de indexação, cuja finalidade era fazer o reajuste de tributos, salários e outros pagamentos conforme a inflação do período. “Isso funcionou bem por um tempo, mas continha em si o germe da hiperinflação”, afirma, acrescentando que o País passou de uma inflação de 20% ao ano, em 1970, para uma de 200% ao ano em 1984.

Discursando para uma plateia majoritariamente de estudantes e que não conviveu com o período de constante alta de preços, ele trouxe exemplos da desorganização social que aquele fenômeno gerava, como o fato dos consumidores não saberem se algum produto havia acabado de ser reajustado ou se estava prestes a receber um incremento no seu preço, o que os deixavam sem parâmetro para saber se o item estava caro ou barato.

Também citou que os empregados, ao receberem o seu salário mensal, iam direto para os supermercados para evitar que o seu poder de compra fosse corroído pela alta de preços das mercadorias nos dias seguintes. "O que era não perecível, como produtos de limpeza, era estocado para o uso em vários meses", recorda.

Com a volta da democracia e do poder do voto, ele cita que os governantes logo perceberam que quem conseguisse acabar com a hiperinflação estava politicamente realizado. Isso fez com que fosse criado uma série de projetos que buscavam a estabilização da moeda, que atravessou os governos dos ex-presidentes Jose Sarney (1985-1990) e Fernando Collor de Mello (1990-1992). Em comum nesses planos, o congelamento de preços e a redução imediata da inflação, mas que, a longo prazo, não se sustentavam e acabavam fracassados.

Foi só no governo de Itamar Franco (1992-1995), sob a liderança do ministro da Fazenda à época, Fernando Henrique Cardoso, que a ideia do Plano Real ganhou força o obteve resultados satisfatórios a curto, médio e longo prazo. O economista recorda que, no mês anterior ao Plano Real, a inflação era de 45% ao mês. No mês seguinte ao Real, por sua vez, o índice caiu para 6% ao mês e, seis meses depois, ficou abaixo de 2%. “Tudo isso sem congelamento de preços, sem desemprego e sem recessão”, pontua.

O economista fez questão de destacar o papel de FHC para o sucesso do plano, o citando como alguém que soube comunicar aos congressistas e à população a ideia da equipe econômica que havia formado. Também menciona fato curioso de que FHC "um sociólogo e político de esquerda" acabou convocando economistas liberais da PUC do Rio de Janeiro para compor o seu time.

Arida ainda ressaltou o programa de reformas que deu sustentação ao Plano Real, que, entre outras medidas, envolveu ajuste fiscal, privatizações, venda de bancos estatais, abertura da economia, criação de agências reguladoras e aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal. Por fim, falou da participação da população que, em suas palavras, "abraçou o Plano Real". 

A vez de um Plano Ambiental

Durante a sua palestra na Pucrs, o economista e ex-presidente do Banco Central do Brasil Pérsio Arida, além de recordar os feitos e avanços gerados no passado, fez questão de pontuar a importância do Brasil adotar um plano para lidar com as mudanças climáticas
“Temos inúmeros problemas envolvendo dívida pública, declínio da taxa de natalidade, previdência, mas insisto em olharmos para o fenômeno climático”, disse, mencionando a tragédia das cheias do Rio Grande do Sul, que pode impactar em R$ 97 bilhões a economia nacional, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

O economista comenta que a probabilidade chuvas no Estado, bem como de secas no Centro e no Cerrado do País deve aumentar com os anos. “O setor do agronegócio, que hoje representa 25% do PIB nacional e onde estão todos os ganhos de produtividade do País, deve ser atingido em cheio pelo clima, o que irá gerar uma queda na economia, além de uma grande ameaça à população", conclui.  

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