A Galeria Tina Zappoli está completando 45 anos de história neste ano. Para celebrar a data, está em cartaz uma exposição que revisita, em 60 obras de 25 artistas, este quase meio século dedicado ao encontro, circulação e valorização das artes brasileiras. A foto que estampa a matéria diz tudo: Tina emoldurada e no meio daquela produção que vai buscar nos rincões brasileiros e que compõem a mostra – a arte popular, feita pelo povo, e que se tornou uma das marcas registradas do espaço. A coleção A Arte Ali fica em cartaz até dezembro, com visitação gratuita de segunda a sexta-feira, das 14h às 19h.
Costurando um belo ir e vir entre o passado e o presente, a exposição traz nomes que caminham com a Galeria desde o seu nascimento – como Iberê Camargo, Maria Lídia Magliani, Marianita Linck, Antônio Dias e Xico Stockinger, artista que presenteou a casa com uma mostra individual de terracotas para marcar a inauguração, em 1981 – chegando a artistas contemporâneos, que são parceiros do espaço há menos tempo, como o porto-alegrense Rodrigo Plentz (o nome mais recente a se juntar à Galeria), a pernambucana Catarina Dantas, o goiano Gabriel Augusto e a gaúcha Tere Finger.
A diversidade de sotaques e linguagens também marca a mostra – que, entre pinturas, cerâmicas e esculturas, apresenta uma das características essenciais do lugar: a valorização da arte popular brasileira. Não são poucos os artistas em exposição cujas obras arrebataram Tina e Marinho Neto durante suas peregrinações pelos interiores do Brasil. “É uma arte totalmente intuitiva, autodidata. E nós fomos pioneiros em colocar a arte popular no mesmo nível da arte da academia, dos grandes centros, dos eruditos, no mesmo nível, como está exposto aqui”, explica Tina.
Alguns dos representantes desta arte popular que foi buscada na raiz são o piauiense Cornélio, uma das primeiras obras consideradas populares trazidas para Porto Alegre pela Galeria. Além do sergipano Veio, que há duas décadas integra a coleção; o pernambucano Luiz Antônio; os mineiros Jadir João Egídio e Zezinha, com suas delicadas esculturas; e a alagoana Sil, que participa da equipe desde o início dos anos 2000. Este múltiplo, efervescente e caleidoscópico recorte do Brasil é, com certeza, um dos motivos pelos quais a Galeria Tina Zappoli resiste há quase meio século.
Ainda fazem parte da mostra o argentino Alberto Cedrón, o paraibano Antônio Dias e o paulista Cabral. Além deles, Dalton Costa, Família Petuba, Felipe Góes, Francisco Graciano, Itelvino Jahn, Jorge Leite, Luiz Antônio, Manuel Graciano também têm obras expostas
Artur Koch/JC
“Acho que é
uma mistura bem boa de idealismo, que vem do meu marido Marinho, e do pragmatismo, que vem de mim. O idealismo é tu não seguires tendências. Tu fazeres o que tu achas que deve. Algumas vezes vais errar? Sim. Mas tu vais ter que assumir. Eu, como representante do pé no chão, sei aceitar e assino embaixo as nossas escolhas. Mas também
sei que ninguém come ar e que precisamos ser autossustentáveis.”
Este pragmatismo de Tina encontra consonância com os outros pragmáticos que fizeram com que o
mercado brasileiro de artes tenha movimentado R$ 3,12 bilhões em 2025, segundo
pesquisa divulgada pelo escritório de inteligência Act Arte. O estudo ainda mostra que entre 2021 e 2025 este setor teve
crescimento de 8%, muito puxado pelo
mercado interno – que representa 56,41% do total movimentado em 2025.
O MERCADO DE ARTES EM PORTO ALEGRE
Apesar de estar muito longe das capitais e afastados do eixo Rio-São Paulo, que dita o tom do mercado das artes por estar acoplado ao centro econômico do país, Porto Alegre tem uma tradição cultural muito importante e um lastro artístico antigo, na avaliação da galerista. “O nosso Estado faz essa mistura, conecta esse passado cultural com o presente. Isso faz com que a gente sempre alcance algum tipo de público. Não é o lugar mais rico do país. Mas tem muita gente que enxerga importância na arte, independente da sua conta bancária”, analisa.
“Por isso, também, sempre foi preocupação da nossa Galeria ter uma boa variedade de preços. Então a gente se mantém em vários estratos socioculturais e econômicos. A gente não vende só para uma classe porque a gente não tem só obras milionárias: a gente tem obras de meio preço, de baixo preço, mas desde que se mantenha a qualidade.”
LEIA TAMBÉM: O que os candidatos ao Governo do Estado pensam sobre CulturaMuito mais que um espaço para apreciação e descoberta de novas expressões e artistas, as galerias têm a fundamental
função de fortalecer o caráter profissional do artista, consolidando o fazer artístico como trabalho remunerado. Viver da arte independente é, sabidamente, um desafio no Brasil e “
ajudar o artista a sobreviver da sua obra é uma parte essencial das galerias. A gente se esforça muito para que isso aconteça”, diz.
Entre cifras bilionárias na economia brasileira e trabalho remunerado,
a arte das galerias se transforma, dentro de suas contradições, em muito mais do que um produto. Comprar uma obra de arte é
adquirir uma parte da cultura, da história, do transcendental. “Acho que a nossa importância está aí:
impor a qualidade à frente da decoração. Uma peça de arte é muito além daquilo que tu enxergas aparentemente”, declara.