Para muita gente,
John Coltrane não era apenas um músico: ele, na verdade, seria uma entidade divina - um santo, mesmo. Pode parecer, mas não é uma simples força de expressão. A
Igreja Ortodoxa Africana Santo John Coltrane tem sede em Los Angeles e completa em 2026 nada menos que 55 anos de existência. As músicas e letras de Coltrane são parte da liturgia, e seus integrantes garantem que os cultos não são piada ou excentricidade: para eles, o músico (
nascido há exatos 100 anos, em 23 de setembro de 1926) é de fato um emissário de Deus, trazendo em sua arte uma mensagem de
transcendência e salvação por meio da divindade da música.
É claro que ninguém é obrigado a levar a admiração pela arte do mestre a esse ponto, mas qualquer um que tenha se permitido mergulhar na obra de Coltrane haverá de concordar que se trata, de fato, de uma figura fora do ordinário. Para ele, a busca pela sonoridade perfeita era, de fato, um esforço para alcançar Deus - algo que teve início em 1957, quando o saxofonista, demitido da banda de
Miles Davis pelo uso descontrolado de drogas, resolveu isolar-se em um hotel por uma semana, como forma de desintoxicação. Conhecida como
cold turkey, a pesada crise de abstinência dos viciados em heroína virou algo mais. Enquanto rezava para encarar o baque, o músico teve uma epifania, durante a qual dizia ter
recebido uma confirmação direta da existência de Deus e ter implorado a Ele que o permitisse tocar a alma das pessoas por meio da música.
Em seus primeiros anos, o jovem tinha ficado conhecido entre os colegas como um
perfeccionista obcecado pelo saxofone: há relatos de quem encontrou o músico dormindo abraçado no instrumento, ou de situações em que driblou reclamações de barulho praticando por horas os movimentos dos dedos nas teclas, como se estivesse tocando, sem aproximar o sax dos lábios. Depois da revelação divina, ele direcionou sua energia para outro extremo,
explorando os limites da própria estrutura musical - e criando sonoridades próximas do inacreditável durante o processo.
Impulsionado por parcerias com Thelonious Monk e Miles Davis, John Coltrane foi ganhando fama no cenário jazzístico de sua época, em especial pelo uso de
acordes substitutos (incomuns nas progressões típicas do jazz) e pela complexidade de seus padrões harmônicos, não raro quase impossíveis de imitar. Como
bandleader, ele levou essas inovações ao extremo, sendo decisivo no surgimento de categorias como o
modal jazz (que substitui as progressões de acordes em torno de um tom pela adoção de escalas como base harmônica) e o
free jazz.
Essas reinvenções combinaram com a ampliação da visão espiritual de Coltrane, culminando no seminal
A Love Supreme, lançado no começo de 1965 e considerado por muito fãs e colecionadores
um dos melhores álbuns de todos os tempos. Neste trabalho, o músico criou uma suíte (tema único) de quatro partes, no qual buscava
capturar sua fé em Deus em forma de música - e a quarta e última parte,
Psalm, é para ser ouvida enquanto se lê um poema escrito por Coltrane, incluído no encarte e cuja cadência de sílabas coincide com a das notas sopradas pelo sax. Álbuns posteriores, como
Ascension e
Meditations (ambos de 1966), também refletem essa busca espiritual, que no caso de Coltrane também assumia um caráter de sincretismo - originalmente um muçulmano por influência da primeira esposa, Naima, o artista mais tarde se diria "
um devoto de todas as religiões".
A morte de John Coltrane, em 17 de julho de 1967, surpreendeu amigos e fãs - em especial porque o músico, mesmo sofrendo as dores de um
câncer de fígado, seguiu tocando ao vivo e em estúdio praticamente até os últimos dias de vida. A principal suspeita é de que o saxofonista tenha sido vítima de uma hepatite nunca tratada - contraída, ao que parece, por
uso de agulhas contaminadas durante seus dias de vício. Ou seja, o músico teria sido vítima das tentações mundanas anteriores à sua conversão. Menos mal, para ele e para nós, que Deus o concedeu uma década de genialidade para tocar nossas almas - tempo mais do que suficiente para virar não apenas santo de igreja, mas um ícone da arte que se liberta das próprias amarras rumo à eternidade.