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Publicada em 22 de Setembro de 2026 às 11:17

Os 100 anos de John Coltrane, o músico que virou santo e fez do jazz a trilha sonora para Deus

Nascido em 23 de setembro de 1926, John Coltrane é reconhecido como um dos maiores ícones do jazz

Nascido em 23 de setembro de 1926, John Coltrane é reconhecido como um dos maiores ícones do jazz

JOHN COLTRANE ESTATE ARCHIVES/DIVULGAÇÃO/JC
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Igor Natusch
Igor Natusch Editor de Cultura
Para muita gente, John Coltrane não era apenas um músico: ele, na verdade, seria uma entidade divina - um santo, mesmo. Pode parecer, mas não é uma simples força de expressão. A Igreja Ortodoxa Africana Santo John Coltrane tem sede em Los Angeles e completa em 2026 nada menos que 55 anos de existência. As músicas e letras de Coltrane são parte da liturgia, e seus integrantes garantem que os cultos não são piada ou excentricidade: para eles, o músico (nascido há exatos 100 anos, em 23 de setembro de 1926) é de fato um emissário de Deus, trazendo em sua arte uma mensagem de transcendência e salvação por meio da divindade da música.

É claro que ninguém é obrigado a levar a admiração pela arte do mestre a esse ponto, mas qualquer um que tenha se permitido mergulhar na obra de Coltrane haverá de concordar que se trata, de fato, de uma figura fora do ordinário. Para ele, a busca pela sonoridade perfeita era, de fato, um esforço para alcançar Deus - algo que teve início em 1957, quando o saxofonista, demitido da banda de Miles Davis pelo uso descontrolado de drogas, resolveu isolar-se em um hotel por uma semana, como forma de desintoxicação. Conhecida como cold turkey, a pesada crise de abstinência dos viciados em heroína virou algo mais. Enquanto rezava para encarar o baque, o músico teve uma epifania, durante a qual dizia ter recebido uma confirmação direta da existência de Deus e ter implorado a Ele que o permitisse tocar a alma das pessoas por meio da música.

Em seus primeiros anos, o jovem tinha ficado conhecido entre os colegas como um perfeccionista obcecado pelo saxofone: há relatos de quem encontrou o músico dormindo abraçado no instrumento, ou de situações em que driblou reclamações de barulho praticando por horas os movimentos dos dedos nas teclas, como se estivesse tocando, sem aproximar o sax dos lábios. Depois da revelação divina, ele direcionou sua energia para outro extremo, explorando os limites da própria estrutura musical - e criando sonoridades próximas do inacreditável durante o processo.

Impulsionado por parcerias com Thelonious Monk e Miles Davis, John Coltrane foi ganhando fama no cenário jazzístico de sua época, em especial pelo uso de acordes substitutos (incomuns nas progressões típicas do jazz) e pela complexidade de seus padrões harmônicos, não raro quase impossíveis de imitar. Como bandleader, ele levou essas inovações ao extremo, sendo decisivo no surgimento de categorias como o modal jazz (que substitui as progressões de acordes em torno de um tom pela adoção de escalas como base harmônica) e o free jazz.

Essas reinvenções combinaram com a ampliação da visão espiritual de Coltrane, culminando no seminal A Love Supreme, lançado no começo de 1965 e considerado por muito fãs e colecionadores um dos melhores álbuns de todos os tempos. Neste trabalho, o músico criou uma suíte (tema único) de quatro partes, no qual buscava capturar sua fé em Deus em forma de música - e a quarta e última parte, Psalm, é para ser ouvida enquanto se lê um poema escrito por Coltrane, incluído no encarte e cuja cadência de sílabas coincide com a das notas sopradas pelo sax. Álbuns posteriores, como Ascension e Meditations (ambos de 1966), também refletem essa busca espiritual, que no caso de Coltrane também assumia um caráter de sincretismo - originalmente um muçulmano por influência da primeira esposa, Naima, o artista mais tarde se diria "um devoto de todas as religiões".

A morte de John Coltrane, em 17 de julho de 1967, surpreendeu amigos e fãs - em especial porque o músico, mesmo sofrendo as dores de um câncer de fígado, seguiu tocando ao vivo e em estúdio praticamente até os últimos dias de vida. A principal suspeita é de que o saxofonista tenha sido vítima de uma hepatite nunca tratada - contraída, ao que parece, por uso de agulhas contaminadas durante seus dias de vício. Ou seja, o músico teria sido vítima das tentações mundanas anteriores à sua conversão. Menos mal, para ele e para nós, que Deus o concedeu uma década de genialidade para tocar nossas almas - tempo mais do que suficiente para virar não apenas santo de igreja, mas um ícone da arte que se liberta das próprias amarras rumo à eternidade.

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