No início da tarde deste sábado (23), aproximadamente 50 pessoas se concentraram em frente à Praça Mafalda Verissimo, no bairro Petrópolis, para dar início à 4ª Caminhada Literária de Porto Alegre. Evento idealizado pelo doutorando em Teoria da Literatura Jonas Dornelles, o passeio cultural promoveu a visitação do público aos endereços onde residiram autores renomados da literatura gaúcha, com o objetivo de resgatar a memória e preservar o patrimônio literário do bairro.
Após a apresentação do projeto, que contou com falas de historiadores e moradores da região, o grupo se dirigiu à rua General Souza Doca, onde está a casa que foi de Dyonélio Machado; e depois seguiu para a rua Felipe de Oliveira, endereço da residência da família de Erico Verissimo (ocupada atualmente por seu filho, o também escritor Luis Fernando Verissimo).
O autor de obras clássicas, como O Tempo e o Vento, foi um dos primeiros a chegar ao bairro, em meados dos anos 1940. Para lá, mudaram também os escritores Cyro Martins - cuja casa, que ocupava a esquina da Ferreira Viana com a Borges do Canto, foi demolida anos mais tarde para a construção de um edifício - e (posteriormente) Josué Guimarães, que residiu na rua Riveira.
"Através dos escritores, acessamos o processo de memória da cidade", avalia Dornelles, ao destacar a importância de redescobrir o Patrimônio Literário do bairro Petrópolis, através da Caminhada Literária. "Quando pensamos em outras cidades do mundo, que preservam a memória, percebemos que aqui em Porto Alegre este vínculo não existe. Por outro lado, acessamos reminiscências da Capital nas obras de escritores gaúchos, a exemplo dos livros O resto é silêncio (Erico Verissimo) e Os ratos (Dyonélio Machado)", emenda o pesquisador.
Ao destacar que preservar o patrimônio é também uma forma de oportunizar que as novas gerações entrem em contato com "essa memória", Dornelles observa que Josué Guimarães "coroa" a história que o movimento Caminhada Literária está resgatando. "Ele é de uma geração posterior, muito ligado ao Luis Fernando Verissimo, e tem uma obra fundamental."
O pesquisador revela, ainda, que a casa onde o escritor viveu também foi residência de Mario Quintana anos mais tarde. "Depois que Quintana foi morar no Hotel Majestic a casa ficou abandonada e acabou sendo ocupada por moradores de rua e pessoas aleatórias, que vandalizaram a estrutura. Não fosse o fato da atual proprietária ter reformado e se mudado para lá, talvez este imóvel não existisse mais."
Integrante da iniciativa de resgate do patrimônio literário do bairro e morador do Petrópolis, o geógrafo Marcelo Roncato comenta que também a casa que foi de Dyonélio Machado permaneceu abandonada por muitos anos e recentemente estava prestes a ser demolida. "Foi então que o Jonas Dornelles iniciou um movimento entre os moradores da região, para reivindicar ela entrasse no inventário municipal de imóveis protegidos no bairro Petrópolis", recorda. A empreitada deu certo, e a equipe do Patrimônio Histórico e Cultural da Prefeitura incluiu a antiga casa de Machado no patrimônio cultural de Porto Alegre, em 2022, quando passou a ser vedada a sua demolição.
"Nesta casa, construída em 1942, Dyonélio escreveu ao menos dois livros: Desolação (1944) e Passos Perdidos (1946), além de dar início a Deuses Econômicos (1966)", contextualizou o pesquisador ao público que se agrupou em frente ao imóvel para conhecer um pouco da história e da obra do escritor, que além de romancista, contista, ensaísta e poeta, foi jornalista, psiquiatra e militante comunista (preso e exilado pela ditadura de Getúlio Vargas antes de chegar no Petrópolis).
O mesmo processo de reconhecimento e resgate da história dos escritores aconteceu nos outros três endereços dos bairros (situados em um trajeto de duas quadras) visitados pelo grupo. "É muito importante habitarmos estes espaços de memórias, para estabelecermos um vínculo com a produção desses escritores, sabendo como foi a chegada deles no bairro e quais livros escreveram aqui", reforçou Dornelles. "Essa experiência funciona como uma espécie de 'arqueologia' para resgatar esse passado."
Também a caixa d'água situada na praça Mafalda Verissimo (nome da esposa de Erico, falecida em 2003) passou por um movimento semelhante, liderado pela esposa do escritor gaúcho, e acabou sendo tombada. "Isso ocorreu porque os moradores do bairro na época tinham a caixa d'água como um referencial da região e entendiam que ela pertencia à história do Petrópolis", explica o historiador João de Los Santos. Segundo ele, que estava presente nesta quinta edição da Caminha Literária, o passeio cultural organizado por Dornelles é importante para resgatar também o "pertencimento" das pessoas na cidade, preservando a "memória de seus antepassados".
A iniciativa do pesquisador foi idealizada a partir de sua mobilização junto à comunidade do Petrópolis para evitar a destruição do casarão de Dyonélio Machado. Em meio à busca por documentos, Dornelles tomou conhecimento de que o bairro abriga outros pontos de referência da vida cultural e artística do Estado, a exemplo – além dos quatro escritores destacados na tarde deste sábado – do artista plástico Danúbio Gonçalves, que morou na rua Engenheiro Roberto Simonsen, e do escritor Manoelito de Ornellas, que residiu na Rua Maranguape.