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Pensar a Cidade
Bruna Suptitz

Bruna Suptitz

Publicada em 06 de Agosto de 2024 às 19:26

Urbanista espanhol Javier Arpa defende comunicar a crise climática a diferentes públicos

Trabalho de Javier Arpa Fernández é dedicado a 'construir audiências'

Trabalho de Javier Arpa Fernández é dedicado a 'construir audiências'

Instituto Cidades Responsivas/Divulgação/JC
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Estabelecer pontes entre universidades, cientistas e a população é a defesa do arquiteto e urbanista espanhol Javier Arpa Fernández para comunicar sobre a crise climática. A preocupação com o futuro do planeta mudou o seu rumo profissional nos anos mais recentes e orientou sua pesquisa para o conceito de "construir audiências". "O mais importante agora é que tudo o que sabemos seja transferido de uma forma que seja compreensível para diferentes públicos", sustenta. Arpa é um dos professores da nova edição do MBA Cidades Responsivas, promovido pelo Instituto de mesmo nome, e esteve em Porto Alegre no fim de julho para um evento no Instituto Caldeira. Confira a seguir trechos da entrevista à coluna Pensar a cidade.
Estabelecer pontes entre universidades, cientistas e a população é a defesa do arquiteto e urbanista espanhol Javier Arpa Fernández para comunicar sobre a crise climática. A preocupação com o futuro do planeta mudou o seu rumo profissional nos anos mais recentes e orientou sua pesquisa para o conceito de "construir audiências". "O mais importante agora é que tudo o que sabemos seja transferido de uma forma que seja compreensível para diferentes públicos", sustenta. Arpa é um dos professores da nova edição do MBA Cidades Responsivas, promovido pelo Instituto de mesmo nome, e esteve em Porto Alegre no fim de julho para um evento no Instituto Caldeira. Confira a seguir trechos da entrevista à coluna Pensar a cidade.
Jornal do Comércio – Você estudou e trabalhou na Holanda (Países Baixos). O que conhece da experiência de lá sobre a prevenção contra enchentes?
Javier Arpa Fernández – Na Holanda existe o que se chama “cultura de pôlder”. A Holanda é um país que possui uma grande extensão de território abaixo do nível do mar. Quando Napoleão, no século XIX, conquistou a maior parte da Europa, exceto o Reino Unido, enviou um general à Holanda para ver o que havia. O general voltou e disse não, não vamos para a Holanda, é um pântano, é uma zona de malária, e Napoleão não conquistou a Holanda porque era um pântano. Ou seja, é um país que luta contra o mar desde a Idade Média, desde o século XIII, lutando e ganhando terreno ao mar. E a cultura de pôlder é politicamente muito interessante, porque exige consenso para lutar contra uma emergência constante e presente, que é o que aconteceu aqui (em Porto Alegre) no ano de 1941, no ano de 2024, algumas vezes em outros anos, mas não tão grave. E isso requer uma cultura de enorme consenso. Aqui, em um mês, desencadeou-se um fluxo espetacular de solidariedade. Tenho ouvido como as pessoas começaram a trabalhar juntas para compartilhar dados. Essa é uma cultura que na Holanda teve que ser feita, vem da cultura da emergência.
JC - Qual a expertise do seu trabalho que será apresentada no curso?
Arpa - Me interessa muito a capacidade da arquitetura e do planejamento urbano de melhorar a vida das pessoas. A capacidade de construir a cidade é um ato político, não podemos esquecer que "Polis", em grego, significa "cidade política". Acho muito importante envolver todos os participantes na construção da cidade e não apenas os profissionais. Nós, profissionais, somos, digamos, apenas um elo de uma cadeia muito grande de decisões. Tenho me interessado muito pela especulação - não a imobiliária. Especular, imaginar e projetar-se no futuro com total liberdade. Venho falar sobre o quão importante é a imaginação e a criatividade para avançar e sair dos problemas. Minha experiência pessoal e profissional tem muito a ver com sair de crises com imaginação.
JC - Envolver todos seria buscar que as pessoas participem das decisões sobre a cidade?
Arpa - Neste momento estou escrevendo minha tese de doutorado (PhD). Chama-se "Building Audiences" - construir audiências. Trata-se de estabelecer pontes entre a academia, a ciência e o público. Por quê? Porque hoje, aqui, todos concordamos que existe uma crise climática, acho que ninguém duvida. Acredito que o que acontece aqui (no Rio Grande do Sul) é resultado do Antropoceno - a atividade humana na Terra. Mas por quatro anos vocês tiveram um presidente que não se importava com as mudanças climáticas. Existe um grande setor da sociedade que vota em candidatos ou políticos que não se importam com a crise climática. Acredito também que estão conscientes de que existe uma crise climática, mas não querem fazer nada. Eu costumava dizer "eles negam". Não, eles não negam; eles não se importam, porque vivem no curto prazo e zelam por uma série de interesses imediatos.
JC - Como comunicar isso?
Arpa - Bom, acho muito importante que a academia saia de si, que ultrapasse os muros da academia e consigamos influenciar o público. Para mim, neste momento, depois de ter pesquisado muito sobre a cidade, ensinado sobre a cidade, desenhado a cidade, o mais importante agora é que tudo o que sei ou tudo o que sabemos seja transferido de uma forma que seja compreensível para diferentes públicos. O mais importante agora é investigar, comunicar e agir.
JC – O que é o conceito de usar a especulação como imaginação para sair de crises?
Arpa – Esta é mais uma parte do trabalho que venho fazendo há oito anos na The Why Factory, onde tentamos imaginar a cidade do futuro de um ponto de vista absolutamente otimista, como imagens ou projetos muito mais utópicos, muito ambicioso, no sentido de coisas que dizem “você é louco!”. Dizemos aos alunos “não se preocupem, gravidade zero, vocês inventam”. Libertem-se, imaginem que tudo flutua. E isso dá aos alunos durante um semestre a oportunidade de imaginar uma cidade que flutua. Mas você diz “uma cidade que flutua não existe”. Bem, neste momento a tecnologia dos drones está se desenvolvendo cada vez mais, estamos vendo como a Amazon começa a distribuir mercadorias voando por drones, etc. Ou seja, a cidade flutuante que imaginamos com nossos alunos já começa a tomar forma, certo? Isso é um pouco do trabalho que fazemos.
JC – Como essa liberdade para que os estudantes imaginem dialoga com a reconstrução que as cidades precisam, a exemplo do que estamos vivendo aqui como consequência da crise climática?
Arpa – Antes de dar toda essa liberdade, o que fazemos é trabalhar com os alunos a realidade e essa liberdade é uma resposta aos problemas de hoje. Já falei da cidade que flutua, mas um trabalho que fizemos com os alunos foi imaginar que existe um material inventado que permite mudar contigo, esse material é o seu vestido, a sua cama, o seu quarto, sua casa. Você se move e o material se expande porque precisa de mais espaço, ou volta a dormir e o material encolhe porque não precisa mais de espaço. Esta é uma resposta à necessidade de flexibilidade na habitação. Na cidade tradicional, o que acontece? Antes da pandemia, digamos que às 8 da manhã você saia de casa para trabalhar e sua casa ficava vazia por cerca de 10 horas mais ou menos, aí então você voltava e usava a casa. Por que não podemos imaginar um sistema de habitação flexível que encolha e abra espaço para outros espaços de trabalho? Então, o que fazemos é baseado em uma necessidade atual. Ok, essa é a necessidade atual: flexibilidade na habitação, nos estilos de vida, no trabalho. É como a flexibilidade deste local (Instituto Caldeira), onde as pessoas partilham. Agora, leve isso para o futuro, liberte-se de tudo e pense que existe um material, um único material, que se transforma com você. E a casa, durante o dia, encolhe ou cresce para acomodar um espaço de trabalho. Isso é um pouco de tudo o que fazemos, é sempre responder com imaginação às necessidades e emergências atuais.
JC - O quanto a mudança climática tem te preocupado e impacta o seu trabalho?
Arpa - Não uso mais o termo mudança climática, porque a palavra "mudança" soa como "ok, mudou". Não. É uma catástrofe climática, uma crise climática, uma ameaça climática. Em outras palavras, o mundo não será mais o mesmo. Há alguns dias (em 22 de junho) foi o dia mais quente desde que existem registros na humanidade (com temperatura média global de 17,15ºC). Essa ameaça climática mudou primeiro a orientação da minha investigação, no sentido de que tudo o que fazemos é pensar e imaginar soluções a partir da crise climática. E, além disso, a crise climática é a razão pela qual decidi mudar de rumo profissionalmente, é a razão pela qual comecei a construir audiências. Aqui todos concordamos (que há uma crise climática), mas temos que comunicar e convidar, não podemos obrigar ninguém, mas temos que convidar o público a agir.

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