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Publicada em 02 de Novembro de 2026 às 00:55

A fábrica escura já existe. A pergunta é se o armazém brasileiro está pronto para ela

 Yuri Santos, CEO da Carmak, tem formação em Administração pela Unisinos e MBA em Finanças pela FG

Yuri Santos, CEO da Carmak, tem formação em Administração pela Unisinos e MBA em Finanças pela FG

/Carmak/Divulgação/JC
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Yuri Santos

Yuri Santos

CEO da Carmak

A fábrica escura deixou de ser conceito de feira. Em Pequim, a planta inteligente da Xiaomi opera em cerca de 81 mil metros quadrados, com taxa de automação declarada de 81%, produz um smartphone a cada seis segundos e mais de 10 milhões de unidades por ano, com aproximadamente 220 pessoas acompanhando uma linha de 310 metros, segundo a Euronews Next, abril de 2026.  É o retrato de uma indústria em que a luz acesa virou exceção e o ser humano migrou da execução para a supervisão, a inspeção e a decisão sobre anomalias.

Quando esse case chega ao Brasil, costuma provocar duas reações igualmente equivocadas. A primeira é o deslumbramento, que trata a fábrica escura como destino inevitável e próximo. A segunda é o desprezo, que trata o assunto como coisa de chinês com subsídio. Discordo das duas. O que a fábrica escura ensina não é sobre robô, é sobre pré-requisito: nenhuma operação se torna autônoma antes de se tornar mensurável.

Os números do mercado mostram que o movimento é real e está sendo capitalizado. O mercado global de automação de armazéns deve passar de US$ 29,98 bilhões em 2025 para US$ 65,74 bilhões em 2031, com crescimento anual composto próximo de 14%, segundo a Mordor Intelligence, enquanto o software de gestão de armazém deve saltar de US$ 7,2 bilhões em 2023 para US$ 16,6 bilhões em 2030, e a América Latina projeta 9,8% de crescimento anual em movimentação de materiais até 2033. No Brasil já existem operações rodando nesse padrão: o piloto do Mercado Livre em Cajamar trabalha com mais de 100 robôs móveis autônomos processando até 20 mil itens por dia, com meta de reduzir 20% do tempo de processamento.

Só que o ponto de partida brasileiro é modesto quando se olha densidade de automação. O relatório World Robotics 2025 da Federação Internacional de Robótica, com dados de 2024, aponta média global de 132 robôs por 10 mil trabalhadores, com Coreia do Sul em 1.220, Alemanha em 449, Estados Unidos em 307 e México em 62. A América Latina segue fora do topo da lista, e no Brasil a discussão prática em muitas plantas ainda é sobre organizar o fluxo interno, não sobre operar sem luz.

É exatamente aí que vejo a oportunidade real da intralogística nacional para os próximos anos, e ela não passa por copiar Pequim. Passa por digitalizar o que já existe. Empilhadeira conectada, telemetria em tempo real, identificação de operador, integração entre movimentação interna e sistema de gestão, manutenção preditiva. Essa camada custa uma fração de um projeto de automação completa, entrega resultado em meses e, o que é decisivo, gera a base de dados sem a qual qualquer automação futura vira CAPEX mal aplicado.

O futuro da intralogística não é escuro, é transparente. Antes de apagar a luz do armazém, é preciso conseguir enxergar dentro dele.

 

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