Gabriela Mânica
Advogada e associada do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
Quando cresce o número de empresas que recorrem à Justiça para não quebrar, o recado é objetivo: a economia não vai bem. Ao final de junho, o Monitor RGF-BIZDOC contava 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior patamar da série iniciada em 2023. A Serasa Experian, que conta os pedidos, já havia registrado, em 2025, o maior número de processos em dez anos, 977, envolvendo um recorde de 2.466 empresas. No Rio Grande do Sul, são 707 empresas em recuperação, o segundo maior número do país e quase o dobro da média nacional em proporção, segundo levantamento publicado por este jornal.
Os próprios pedidos apontam a causa. A Casas Bahia, por exemplo, atribui a crise a um dos ciclos de aperto monetário mais intensos da história recente: com a Selic e os juros nas alturas, somados à inflação acumulada, a renda das famílias, sobretudo das classes populares, encolheu, a demanda caiu e a inadimplência subiu. O desfecho foram lojas fechadas e posições de trabalho eliminadas. A Americanas percorreu caminho semelhante. O Grupo Gennius, dono do Habib’s, também fala em cenário macroeconômico extremamente adverso e em juros que encareceram o capital de giro.
E quem paga a conta? O empresário, claro, mas também o trabalhador que perde o emprego, a família que perde a renda, o consumidor que perde a loja do bairro, e o Estado, que perde um bom pagador de impostos.
Há ainda uma parte da crise que não aparece nas estatísticas. Uma reestruturação exige advogados, contadores, consultores financeiros. Se isso é custoso para uma gigante, imagine para o pequeno negócio, que nem sequer tem fôlego para chegar à recuperação judicial. Ele fecha as portas antes, demite antes, deixa de contribuir antes.
Passada a eleição, seguem no centro das atenções, com razão, o emprego, a renda e a proteção social. Mas esses objetivos dependem de uma base: empresas que consigam funcionar. São elas que sustentam os empregos e a arrecadação que financia os programas sociais. Quando o custo do dinheiro as sufoca, o efeito chega à vida das pessoas e também às contas públicas. Cuidar da economia não se opõe a cuidar das pessoas: é a condição para que esse cuidado seja possível. Quem vai governar precisa enxergar as duas pontas.