Esta terça-feira, 20 de maio, marca os 150 anos da chegada das primeiras famílias de imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, tendo como berço a cidade de Farroupilha, especificamente a localidade de Nova Milano. As famílias de Stefano Crippa, Tomazo Radaelli e Luigi Sperafico, vindas de Milão, encontraram terras devolutas e praticamente inexploradas da região, com grande quantidade de matas virgens e indígenas.
O primeiro ciclo migratório ocorreu entre 1875 e 1914, trazendo ao estado cerca de 84 mil pessoas, que deixaram a Lombardia, o Vêneto e o Tirol em busca de oportunidades e fugindo das tensões que culminaram na Primeira Guerra Mundial. O ápice da imigração foi entre 1884 e 1894, com a chegada de 60 mil italianos, que ajudaram a forjar o estado.
Com parcos recursos financeiros e o quase inexistente apoio do poder público, as famílias superaram os desafios, colocando em prática conhecimentos que obtiveram nas suas origens. De acordo com a professora e pesquisadora Vânia Merlotti Herédia, o processo de desenvolvimento econômico da região até os anos 1930 foi pautado pelas indústrias naturais, principalmente as que tinham referência com a subsistência.
"O objetivo do governo era criar uma colonização agrícola. Deu certo porque os imigrantes, além de camponeses, tinham experiência em outros ofícios específicos, como alimentos, bebidas, tecidos e produção de equipamentos agrícolas. Inicialmente atendiam as necessidades das colônias e depois as do mercado", assinala.
Documentos históricos revelam a trajetória de empreendedorismo nas mais diversas atividades econômicas
Prefeitura Municipal de Farroupilha/JC
A professora também destaca a capacidade dos imigrantes e seus primeiros descendentes de diversificarem as atividades, atuando também em vinícolas e olarias, dentre outras, e de buscarem novos mercados, não ficando dependentes dos alemães que ocupavam o Vale dos Sinos. "Eles iam para São Paulo negociar diretamente com o mercado. Estes fatores unidos ajudaram no crescimento", explica.
Segundo a pesquisadora, os primeiros 25 anos estiveram muito ligados à agricultura, iniciando com a atividade extrativa e posterior plantios das principais culturas. As etapas posteriores seguiram o desenvolvimento clássico com o comércio, pequena oficina, grande indústria e serviços. "A diversificação industrial é uma característica muito presente, especialmente em Caxias do Sul", reforça.
A utilização da madeira, tanto nos parreirais apoiados em cepos como no vime que amarrava a videira à estrutura, assim como servia aos teares cuja produção agasalhava as famílias, teve papel fundamental na estruturação de uma matriz econômica, que crescia na primeira década do novo século. A importância da atividade extrativa se mostra evidente com dados de Caxias do Sul. Entre 1894 e 1909, o número de serrarias passou de 28 para 50.
Além do empreendedorismo, ela registra o pioneirismo dos imigrantes, com o desenvolvimento de produtos para resolver os problemas da comunidade. Cita a empresa De Antoni, em 1894, primeira fábrica de trilhadeiras do Brasil, e usadas no beneficiamento de arroz, trigo, cevada, aveia e cereais. Em 1891, Aristides Germani deu origem ao Moinho Ítalo Brasileiro, tornando-se, posteriormente, um ícone nacional no segmento de trigo. Em 1896, Abramo Eberle assumiu uma funilaria, adquirida pelo pai Giuseppe e administrada pela mãe Luigia Zanrosso, e a transformou em uma poderosa indústria metalúrgica conhecida no Brasil e exterior. A Cooperativa Vitivinícola Forqueta, fundada em 1929, foi o primeiro estabelecimento do seu gênero implantado na América Latina.
As casas de comércio também recebiam a produção agrícola, que era estocada e revendida em épocas vantajosas, dando pequenos juros aos produtores. A acumulação gerada permitiu a diversificação da aplicação: dos produtos hortifrutigranjeiros, as inversões passaram para o vinho e depois para a indústria. Vânia Herédia destaca que os imigrantes tinham um senso de poupança muito forte, fazendo com que o comércio operasse com baixos estoques, ainda assim com grande variedade de itens, e atendendo, muitas vezes, o consumo por demanda. Fator determinante para a evolução econômica da região foi a chegada da ferrovia, em 1910, que permitiu o estabelecimento direto de comercialização com o comércio de Porto Alegre, sem a intermediação dos comerciantes das colônias alemãs dos vales.
A também professora e economista Mônica Mattia reforça a tese de que os imigrantes trouxeram consigo o "saber fazer", pois a Itália já vivia os processos inovadores da Primeira Revolução Industrial em suas empresas. Razão, segunda ela, para que na região os setores produtivos, como alimentação, têxtil, metalúrgico, moveleiro e vinícola, sejam tão representativos na economia.
Recorda que, inicialmente, eram pequenas oficinas manuais que se ampliaram e evoluíram com a industrialização do Brasil, iniciada na década de 1930 após a Grande Depressão dos Estados Unidos e Europa, e intensificada com o período de desenvolvimento da década de 1970. "A região foi fortemente influenciada pelos movimentos nacionais de industrialização e modernização dos processos produtivos", observa.
Outro ponto destacado pela economista é o cooperativismo, que possibilitou à área rural potencializar o setor do agro e influenciar as indústrias do trigo, vinícola e do leite. Acrescenta ainda a integração entre os ítalo-brasileiros e os italianos residentes na Itália, cujas viagens de retorno à terra natal possibilitaram a observação do que se fazia fora do país. "Houve a influência da participação em feiras internacionais e a realização de eventos na região, possibilitando aumento na qualidade, produtividade, design e tecnologias utilizadas pelas empresas, bem como pela inovação", reforça.