Tanto os agentes do setor eólico gaúcho, como os do Nordeste, concordam que há uma dificuldade de transmissão de energia nessa região do País que pode favorecer o Rio Grande do Sul em um cenário futuro. Entretanto, há divergências quanto ao tempo que essa perspectiva positiva para o Estado ficará aberta.
O secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte, Hugo Alexandre Meneses Fonseca, diz que o governo federal está trabalhando para que a capacidade de conexão dos novos projetos no Nordeste no sistema interligado nacional de transmissão se amplie já a partir de 2025 e 2026. Além disso, ele recorda que está prevista a realização de um leilão de uma linha de transmissão de enorme capacidade (chamada de bipolo, que atua com elevados volumes de energia em corrente contínua) no próximo ano, que sairá do Rio Grande do Norte indo até o centro do País.
O gerente sênior de O&M da CPFL Renováveis, Felipe Oliveira, admite que é visível o impacto do gargalo que vem ocorrendo no sistema de transmissão do Nordeste. "Mas os leilões de transmissão que têm acontecido vão tentar corrigir esse descasamento do crescimento da geração e a capacidade de escoamento para o Centro-Sul, onde concentra a carga elétrica do Brasil", aponta.
Até lá, o dirigente comenta que o crescimento da geração distribuída (em que o consumidor gera sua própria energia, usualmente através de painéis solares) contribui para atender ao incremento de demanda. Além disso, ele lembra que o desempenho da indústria não foi o esperado nos últimos anos e esse fator fez com que o consumo de energia não disparasse no País, até agora.
Sobre a perspectiva da energia se tornar mais atrativa no Sul do País em curto prazo, por ser um ponto que está mais próximo do centro de carga e sem a limitação do Nordeste quanto ao escoamento de geração, o gerente sênior de O&M da CPFL Renováveis concorda com a hipótese. "Parece que faz sentido que esse problema (no Nordeste) gera mais competitividade na região (Sul)", reforça Oliveira.
Quanto às perspectivas futuras de demanda, o secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte assinala que a demanda de energia vem aumentando em todos os países, principalmente, nas nações que estão em processo de industrialização ou que já são industrializadas. "No Brasil não é diferente esse processo", frisa o dirigente.
Ele acrescenta que, especificamente, o Rio Grande do Norte viveu um enorme salto na geração de energia. Conforme ele, em poucos anos a potência instalada de geração do estado foi triplicada, alcançando atualmente cerca de 11,6 MW de capacidade de geração de energia, segundo dados da Aneel, sendo cerca de 10 mil MW em produção eólica.
Sobre as limitações do escoamento da transmissão no Nordeste, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Marcio Rea, anunciou recentemente que foram ampliados os limites de intercâmbio no subsistema local em direção ao Sudeste/Centro-Oeste e ao Norte, elevando assim o aproveitamento da geração eólica e solar e, consequentemente, reduzindo as restrições de geração dessas fontes. No sentido Nordeste-Sudeste/Centro-Oeste, o acréscimo foi de cerca de 12%, com os índices saindo dos 11,6 mil MW para 13 mil MW.
A expansão do intercâmbio de energia entre as regiões foi viabilizada após ser autorizada em outubro, a entrada em operação no sistema interligado nacional de uma subestação e três novas linhas de transmissão de 500 kV: SE 500/230 kV Pacatuba, LTs Pecém II/Pacatuba C, Fortaleza II/Pacatuba C e Pacatuba/Jaguaruana II C. "A ampliação de transmissão está em linha com a estratégia de aumentar a transferência de energia do Nordeste, maior produtor de energia limpa do País, para os demais subsistemas, em particular para o centro de carga que é o Sudeste", afirma Rea.