O Ecossistema Fazenda Santa Lúcia (EFSL) é um modelo inovador de economia circular que transforma resíduos orgânicos agroindustriais em energia limpa. Com um faturamento de R$ 3,5 milhões no ano passado, gerados apenas na operação de sua usina, a empresa agora tem como foco principal liderar a transição energética de grandes corporações, substituindo o uso de combustíveis fósseis em suas operações.
A história da empresa começou em 2019, quando Augusto Grave e Letícia Kuhn decidiram dar continuidade à tradição agrícola da família investindo na criação de um tambo de leite. O negócio inovou ao implementar tecnologia de ponta, incluindo galpões climatizados e ordenha 100% robotizada. A fazenda cresceu, alcançando a marca de 270 animais que produzem 5 mil litros de leite diariamente. No entanto, o avanço trouxe um grave desafio ambiental e logístico: como descartar as oito toneladas de esterco geradas todos os dias na propriedade.
A busca por uma solução levou à implementação de um biodigestor. Para viabilizar a estrutura financeiramente e ganhar escala, o casal precisou expandir a operação e passou a receber resíduos de grandes indústrias de laticínios da região. Foi assim que o tambo se transformou no Ecossistema Fazenda Santa Lúcia, uma usina que hoje processa cerca de 150 toneladas diárias de matéria orgânica, solucionando o gargalo dos dejetos industriais enquanto produz adubo orgânico e biogás.
Na tarde desta quarta-feira (7), Augusto Grave e Letícia Kuhn, sócio-fundadores do Ecossistema Fazenda Santa Lúcia, visitaram a nova sede do Jornal do Comércio, localizada no Tecnopuc. Durante o encontro, eles debateram a urgência de implementar plantas descentralizadas de biogás para descarbonizar o setor produtivo e baixar os custos operacionais das indústrias.
Com a ideia de transformação energética em pauta e o crescente debate em torno de alternativas limpas, a estratégia atual da empresa foca na purificação de seu biogás. O objetivo é gerar o biometano (gás com 98% de pureza e equivalente ao gás natural) para abastecer frotas de caminhões, substituindo diretamente o diesel.
"Isso aqui é sustentabilidade. Isso aqui é de fato transição energética, é sustentabilidade, é redução de emissão. O que estamos trazendo é a possibilidade de reduzir valor logístico e de longo prazo do negócio", destaca Augusto Grave.
A proposta do Ecossistema é criar uma logística verde e circular: a grande indústria entrega seus dejetos orgânicos à usina e, em troca, utiliza o combustível gerado por seu próprio lixo para movimentar seus produtos.
Grave argumenta que a proposta traz imensos benefícios ambientais, o que, segundo ele, atrai parceiros pelo ganho financeiro e pela segurança de não depender da sazonalidade dos preços internacionais do diesel.
A visão da empresa foge do padrão de megausinas, apostando no potencial de plantas menores operando diretamente com os produtores rurais. "É melhor ter plantas pequenas descentralizadas do que ter mega plantas centralizadas, porque para a indústria se torna muito mais viável e traz economia para o produtor", argumenta Grave.
Essa rede formaria um ecossistema logístico e sustentável baseado em uma negociação tripartite, onde indústria, produtores de biogás e setor de transporte ajustam as tarifas em parceria.
"O que eu quero é trazer um terceiro jogador, que é o parceiro logístico, para negociar numa tripartite. Tá ruim o preço logístico? Vamos ajustar. Eu baixo o gás aqui ou subo ali. A gente trabalha junto e ninguém fica refém de ninguém", explica o fundador.