As dificuldades para obter óleo diesel já começam a interferir nos trabalhos da safra de verão no Rio Grande do Sul. Em Pedras Altas, na Zona Sul, produtores de arroz que haviam iniciado a semeadura tiveram de interromper operações por falta de combustível. Na soja, há máquinas paradas à espera de diesel para preparar as áreas, a dois dias da abertura do calendário regular de plantio da cultura no Estado.
O produtor Maicon Pazinato é um dos atingidos. Ele aguarda a chegada do combustível para fazer a dessecação da área que receberá soja e, posteriormente, iniciar a semeadura. O problema ocorre em meio a relatos de restrições em diferentes regiões gaúchas, sobretudo na oferta de diesel S500, além de limites de volume, incerteza sobre entregas e preços elevados.
A situação levou a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) a encaminhar nesta terça-feira (29) novo ofício à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O documento reúne informações de produtores, sindicatos rurais e fornecedores e aponta um mercado desuniforme: enquanto algumas localidades têm produto, em outras os Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRRs) não conseguem atender integralmente aos pedidos ou não dão previsão de entrega.
Em Pedras Altas, o presidente do Sindicato Rural, Carlos Hofmeister, confirma problemas entre produtores que já estavam semeando arroz. Ele ressalta que a cultura ocupa área relativamente pequena no município, estimada em cerca de 2 mil hectares, e é implantada mais tarde devido às temperaturas mais baixas. “Na parte do arroz, sim, o pessoal que estava no meio do plantio está com problema”, afirma.
A preocupação maior está à frente. Pedras Altas cultiva aproximadamente 50 mil hectares de soja e, segundo Hofmeister, a semeadura costuma começar mais efetivamente por volta de 15 de outubro. No Estado, o calendário regular da cultura para a safra 2026/2027 começa nesta quinta-feira (1º). Nesta safra, plantios antecipados puderam ser autorizados excepcionalmente a partir de 15 de setembro.
Hofmeister conversou nesta terça-feira com três grandes produtores e nenhum havia conseguido combustível em volume suficiente para iniciar os trabalhos com tranquilidade. Alguns recorrem aos postos e conseguem 200 ou 400 litros por vez, quantidade que, segundo ele, pode ser consumida por um trator em um único dia. “A preocupação é justamente ter o estoque para poder começar e não parar.”
Apesar das dificuldades, o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, afirma que ainda não há atraso generalizado do plantio de arroz provocado pela falta de diesel, embora o abastecimento esteja fora da normalidade.
“Por enquanto não, mas que está com dificuldade, está. O pessoal pega a conta-gotas, pega nos postos, algum TRR dá uma atrasada, depois atende. Realmente não está normalizado, não está na sua entrega normal”, afirma. Para Nunes, a situação precisa ser resolvida rapidamente porque a semeadura deve ganhar intensidade a partir da próxima semana e, logo depois, aumenta também a demanda da soja.
O alerta ocorre quando a maior parte da safra de arroz ainda precisa ir para o campo. Levantamento do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), atualizado em 24 de setembro, mostra 155,6 mil hectares semeados, equivalentes a 18% dos 861,8 mil hectares projetados para 2026/2027. A Fronteira Oeste estava mais avançada, com 52,5% da área prevista implantada, enquanto a Zona Sul chegava a 11,1%.
Os relatos reunidos pela Farsul mostram diferenças dentro do Estado. Em Pelotas e Restinga Seca, fornecedores consultados estavam sem S500. Em Lavras do Sul, havia S10 a R$ 7,70 por litro, mas não S500. Em Caçapava do Sul, um fornecedor recebeu 10 mil litros de S500, limitando a entrega a 3 mil litros por produtor.
Além da disponibilidade, o preço preocupa. Hofmeister relata que um produtor de Pedras Altas havia comprado diesel a R$ 6,02 por litro e, ao encomendar nova carga, recebeu cotação próxima de R$ 7,90, sem pronta entrega.
As restrições persistem após o anúncio, no fim de semana, de uma cota de 14 milhões de litros de S500 da Petrobras para reforçar o atendimento aos TRRs gaúchos. A medida foi articulada após tratativas da Farsul em Brasília. No novo ofício, a entidade pede à ANP informações sobre estoques, produção e distribuição, previsão de normalização e providências diante das diferenças de oferta e preços verificadas no Estado.
Procurada pelo Jornal do Comércio, a ANP não respondeu aos questionamentos até a publicação desta matéria.