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- Publicada em 12h52min, 09/02/2021. Atualizada em 20h38min, 09/02/2021.

Neurocientista Ivan Izquierdo morre em Porto Alegre

Izquierdo, que fez sua carreira no Rio Grande do Sul, estava em casa quando morreu

Izquierdo, que fez sua carreira no Rio Grande do Sul, estava em casa quando morreu


GILSON OLIVEIRA-ASCOM-PUCRS/DIVULGAÇÃO/JC
Atualizada às 18h18min
Atualizada às 18h18min
A ciência e, principalmente, os estudos e o conhecimento sobre o cérebro perderam um dos seus maiores nomes na atualidade. Argentino de nascimento, brasileiro por opção e gaúcho de coração, o médico neurocientista Ivan Antônio Izquierdo, de 83 anos, morreu nesta terça-feira (9), em casa, em Porto Alegre, devido ao agravamento de uma pneumonia que enfrentava havia seis meses.
Um dos pesquisadores brasileiros mais reconhecidos e premiados em todo o mundo e uma autoridade quando se trata de biologia cerebral, principalmente nos estudos da memória e do aprendizado, o cientista fez carreira em Porto Alegre, onde fundou, em 2012, o Instituto do Cérebro (InsCer) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), do qual era coordenador desde então.
Nascido em Buenos Aires, em 1937, o médico, pós-doutor pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chegou ao Brasil em 1973. Casado com uma gaúcha, Izquierdo deixou a Argentina devido à situação política no país vizinho, que atravessava uma ditadura, e veio para o Brasil. Primeiro, morou três anos em São Paulo, onde trabalhou na Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal de São Paulo), depois, em 1978, mudou-se para Porto Alegre.
Não esperava fixar residência no Brasil, mas optou por ficar porque, além da família da esposa e dos amigos que fez aqui, a ditadura militar brasileira acenava com uma abertura lenta e gradual. Na Capital, deu continuidade aos estudos relacionados ao cérebro e à memória, temas com o qual começou a trabalhar aos 19 anos. Em 1970, fundou o Centro de Memória do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), do qual foi diretor até 2003.
Trabalhando com ciência básica, ele desvendou os mecanismos bioquímicos e fisiológicos envolvidos na formação das memórias, em como elas são evocadas, como persistem e também como são esquecidas, no que é considerado um dos seus trabalhos seminais. Essas pesquisas formaram a base de estudos sobre a doença de Alzheimer que são atualmente o foco principal do InsCer.
Em umas das entrevistas, quando questionado sobre como a neurociência pode ser usada por educadores para aprimorar o aprendizado dos alunos, disse: "Os educadores estão começando a aprender um pouco de neurociência. Estão se dando conta de que há horas e idades em que o cérebro pode aprender e outras em que não pode, pois não amadureceu o suficiente. É uma questão de ensinar para cada um o que corresponde com a sua idade e com o seu conhecimento prévio." Ainda sobre o que professores deveriam saber sobre neurociência para poder ensinar melhor, complementou: "Por exemplo, saber que existe um cérebro, como ele funciona basicamente, coisa que a maioria dos professores não sabe. É o cérebro dos alunos que vai aprender, e isso os professores nem pensam, porque não acham que seja assim."
Em seu currículo na Plataforma Lattes - site mantido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico -, atualizado em janeiro, há o registro de que, por 55 anos, colaborou com as principais agências de fomento do Brasil e várias no Exterior. Foi membro da Academia Brasileira de Ciências por 12 anos, onde também foi diretor.
Atuou ainda no National Academy of Sciences (EUA), como professor emérito da Ufrgs e honorário das universidades de Buenos Aires e Córdoba, Doutor Honoris Causa das universidades do Paraná e de Córdoba, na Argentina. Também foi membro do comitê editorial de 33 revistas internacionais, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico e recebeu a comenda da Ordem de Rio Branco.
Em 2014, foi agraciado com o título de Professor Emérito da Ufrgs, em reconhecimento à sua trajetória e dedicação à universidade. Na ocasião, declarou que chegou a Porto Alegre atrás de um sonho - e que aqui descobriu o que já havia vislumbrado antes: "correr atrás de um sonho não é suficiente; é necessário se agarrar a ele e montar em cima, pois ele é a própria vida".
Recebeu muitos prêmios, entre eles o Prêmio Internacional Unesco-Guiné Equatorial para Pesquisa em Ciências da Vida, em 2017, em reconhecimento por suas descobertas em elucidar os mecanismos de processos de memória, levando a uma melhoria da qualidade de vida humana. Em 2018 foi laureado com o prêmio Cientista do ano, na área de neurociências, pelo Instituto Nanocell.
O pesquisador deixa a esposa, Ivone, dois filhos e quatro netos. A cerimônia de despedida ocorrerá nesta quarta-feira (10), no Crematório Metropolitano de Porto Alegre, e será restrita a um pequeno grupo devido à pandemia de Covid-19.
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