Porto Alegre, quinta-feira, 29 de novembro de 2018.

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desenvolvimento

Notícia da edição impressa de 30/11/2018. Alterada em 29/11 às 19h43min

Rio Grande do Sul capta mais de R$ 22 bilhões em investimentos em 2018

Investimentos já estão em execução, foram anunciados ou inaugurados ao longo deste ano

Investimentos já estão em execução, foram anunciados ou inaugurados ao longo deste ano


DIAGRAMAÇÃO/JC
Alexandre Elmi
Mesmo travado pela lentidão econômica do País, e apesar da crise financeira que espalha um clima de desânimo, o Rio Grande do Sul acumula uma carteira de, pelo menos, R$ 22,2 bilhões em investimentos, conforme um levantamento exclusivo produzido pelo Anuário de Investimentos do Jornal do Comércio. São projetos de todos os portes e dos mais variados setores. Há iniciativas inauguradas ou ainda em fase de intenção, bancadas com dinheiro público e privado, que ilustram o esforço do Estado para se recolocar na rota do crescimento em meio a um ambiente adverso.
O balanço, composto a partir de notícias publicadas ao longo de 2018 no Jornal do Comércio, de anúncios efetuados por empresas ou governos e do acompanhamento feito pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (Sdect), além de apuração da reportagem, aponta algumas tendências.

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Uma das principais é que os empreendimentos de alguma forma ligados à tradição gaúcha para o agronegócio seguem entre os mais expressivos da carteira. São exemplos deste viés os investimentos previstos pela Yara Fertilizantes, na casa de R$ 1,5 bilhão, e pela Pellco, que pretende aplicar R$ 1,4 bilhão em uma planta de produção de pellets, material usado para produzir energia a partir de resíduos de madeira.
Outra tendência que se torna extremamente positiva quando confrontada com a crise fiscal estrutural do setor público é que o Estado acumula um volume expressivo de melhorias em infraestrutura. Combinando dinheiro público e privado, o Rio Grande do Sul exibe planos com potencial para melhorar as condições básicas de produção e, portanto, atrair novos investimentos.

Empreendimentos ligados à tradição gaúcha do setor do agronegócio seguem entre os mais expressivos da carteira do Rio Grande do Sul

Do valor apurado pelo JC, pouco mais de R$ 10 bilhões referem-se a melhorias em estradas, fornecimento de energia e qualificação logística - 45,6% do total. Só os dois maiores projetos de geração de energia eólica, por exemplo, se saírem do papel, vão injetar R$ 5,5 bilhões apenas na sua implantação.
O atual governo enxerga de forma otimista o ciclo de atração de investimentos. Para a titular da Sdect, Susana Kakuta, responsável pela estratégia estadual de promoção do desenvolvimento, os números exibem a competitividade da economia gaúcha, apesar dos obstáculos. A primeira barreira vencida, segundo ela, estaria nas consequências inevitáveis da crise no País. "Não dá para desconsiderar o momento econômico. A turbulência que atravessamos impactou a atração de investimentos para todo o Brasil", explica Susana.

Mais de R$ 10 bilhões referem-se a melhorias em estradas, no fornecimento de energia elétrica e na qualificação logística - 45,6% do total

Pelos números do centro de controle de atração de empresas do governo gaúcho - a Sala do Investidor -, em 2018, passaram pela mesa de negociações um total de R$ 5,5 bilhões em expectativa de investimento. Se todos os projetos virarem realidade - algo que nem sempre acontece, em função de conjuntura e por mudanças no ânimo dos investidores -, o aporte significaria a geração de, aproximadamente, 1,2 mil empregos novos. Esse volume refere-se tanto a negócios que estão chegando quanto a empresas que já estão enraizadas.
De acordo com Susana, os valores comprovam que a vontade de investir no Rio Grande do Sul permanece. "Vemos que o Estado continua se consolidando como uma plataforma importante para alguns segmentos", ilustra. Ela cita vocações gaúchas que não perderam o fôlego, mesmo diante do quadro recessivo, como os projetos na área de transporte e logística, do agronegócio e de eletroeletrônica. A existência de 12 parques tecnológicos, por exemplo, cravou o Estado no mapa da inovação. "Temos várias vantagens competitivas para gerar um ciclo virtuoso", garante.
O governador José Ivo Sartori destaca o esforço "para desburocratizar processos para atrair novos investimentos" ao Estado. "Exemplos disso são o licenciamento ambiental on-line e a digitalização da Junta Comercial", aponta. "E temos como grande ativo nossos recursos humanos e nossas universidades", completa Sartori.

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A secretária de Desenvolvimento acredita que a economia gaúcha não perdeu os seus fatores tradicionais de atratividade, mesmo com a crise financeira do setor público, mas reconhece que, no curto e médio prazos, não há uma solução mágica. Para tanto, ela aposta na formação de mais Parcerias Público-Privadas (PPPs) na área da infraestrutura.
Em relação à guerra fiscal entre as administrações estaduais, que, recentemente, vinha atrapalhando a disputa por projetos, Susana destaca que o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) amadureceu o sistema e equalizou a capacidade dos governos estaduais batalharem usando as renúncias tributárias como arma. "Mas é claro que o nosso ICMS (referindo-se às alíquotas elevadas) impacta na competitividade", admite.
Embora tenha conseguido atrair investimentos, a situação financeira preocupa. O economista Aod Cunha, que comandou a Secretaria da Fazenda na gestão Yeda Crusius (2007-2010), considera que, sem resolver o dilema fiscal, não há como atualizar a agenda da promoção do crescimento econômico. "Não há como se ter uma agenda contínua de atração de investimentos se não superarmos esse clima de deficiência de recursos financeiros básicos. Um clima em que se fica sempre contando os centavos para ver em que dia do mês ele vai pagar a folha."
Não dá para desconsiderar o momento econômico do País; a turbulência impactou a tração de investimentos Susana Kakuta, secretária de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul

Em um documento no qual reúne propostas para destravar o crescimento econômico por meio do incentivo à indústria, a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) menciona, entre cinco eixos de atuação, a necessidade de se recuperar a infraestrutura como mecanismo indutor de novos projetos industriais. Lançado em setembro e entregue aos candidatos ao Palácio Piratini, o estudo alega ser indispensável que se invista em infraestrutura e logística, para garantir "prioridade ao desenvolvimento da oferta de plataformas logísticas com armazenagem e a maior integração entre os modais de transporte".
Para o caso específico do Rio Grande do Sul, a Fiergs defende que seja aprofundada a política de privatizações e de concessões, inclusive sugerindo a venda ou o fechamento da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), a modernização dos sistemas de navegação pela Lagoa dos Patos, a qualificação da malha ferroviária e a melhoria de acesso do Porto do Rio Grande. O investimento de R$ 300 milhões na dragagem do acesso do porto, que compõe um dos projetos destacados no levantamento do JC, já é uma resposta à pauta de reivindicações da entidade.

Ver o Estado como eixo a partir do qual é possível atingir outros mercados caracteriza novos investimentos, como o da Fraport, no Salgado Filho

O gargalo apontado pela Fiergs ressoa nas projeções de analistas. Conforme Aod, no entanto, a falta de recursos próprios não pode levar à paralisia. "O Estado não tem recursos, mas tem a capacidade de articular e delegar à iniciativa privada serviços, com concessões e PPPs", defende. Neste sentido, o recente leilão para a concessão de rodovias federais que irão compor a Rodovia de Integração Sul foi visto como um sinal positivo. O grupo CCR arrematou os 473,4 quilômetros das BRs 386, 448, 116 e 290, gerando uma perspectiva otimista de que novas transferências aconteçam. Conforme especialistas, se o Estado destravar o caminho das concessões de estradas, cerca de R$ 13,4 bilhões poderiam ser investidos em melhorias nos próximos anos.
A iniciativa privada segue apostando nas características da base produtiva gaúcha. A Yara Fertilizantes, por exemplo, executa um dos maiores investimentos da carteira, para tornar ainda mais ágil a operação da companhia norueguesa no Porto do Rio Grande. Ali, a empresa teve de absorver parte da despesa para garantir o suprimento de energia elétrica, como a construção de 24 quilômetros de linhas de transmissão até o Distrito Industrial, que estava saturada e obsoleta, e de uma subestação da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE).
Com o projeto, a empresa reforça sua aposta no agronegócio com a elevação da produção de 750 mil toneladas para 1,3 milhão de toneladas anuais, além de aumentar também a capacidade de distribuição no complexo, de 1,5 milhão para 2,6 milhões de toneladas por ano. Conforme Isaías Costa, gerente de Projeto da Yara em Rio Grande, a empresa enxerga um potencial de crescimento de longo prazo, que classifica como "orgânico", o que justificaria o investimento bilionário. Responsável pelo fornecimento de 45% do fertilizante para produtores primários gaúchos, a empresa projeta a continuidade do desempenho pelos próximos 25 anos, lastreado pela expansão do mercado externo.
"O único setor que manteve alguma estabilidade foi o agronegócio, e há a possibilidade de trabalhar de maneira ainda mais competitiva", afirma Costa. Parte do investimento da Yara em Rio Grande tem natureza logística, melhorando a capacidade da empresa de receber a matéria-prima para os seus produtos.

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Imagem projeta como ficará o aeroporto de Porto Alegre, que receberá R$ 1,5 bilhão em melhorias. Foto Fraport/Divulgação/JC

Este também é o motivo pelo qual a Latam Forest acredita na operação que pretende montar no mesmo distrito industrial, mas no sentido inverso, o da exportação. Com um aporte de R$ 84 milhões na primeira fase da instalação, a empresa quer poder embarcar 10 toneladas por mês de pellets para fora do País, além de usar o material como biomassa para a própria geração de energia.
De acordo com Vinícius Machado Pinto, gerente administrativo da empresa norte-americana no Brasil, o aspecto logístico foi decisivo para a instalação da empresa no Rio Grande do Sul, em função da proximidade com as fontes de sobras de madeira e material vegetal, e também por conta das facilidades oferecidas pelo porto do Rio Grande.
"O preço do frete poderia inviabilizar a exportação (principalmente para a Europa). A disponibilidade de matéria-prima e a proximidade com o porto foram decisivas", avalia Pinto, que ainda aguarda a formalização da estrutura de financiamento da operação para iniciar a construção da planta.
Enxergar o Rio Grande do Sul como eixo a partir do qual é possível atingir outros mercados é característica de alguns dos investimentos e configura uma das tendências do levantamento. É o caso da aposta da Fraport no Aeroporto Salgado Filho. A empresa alemã está em plena execução de um plano de melhorias pelo qual aplicará R$ 1,5 bilhão no terminal, um dos investimentos mais expressivos da carteira.
De acordo com a CEO da Fraport Brasil, Andreea Pal, a operação da Capital é estratégica para os planos da companhia no continente. "Porto Alegre tem papel essencial na integração dos países do Cone Sul. Portanto, somos otimistas em relação ao aumento do tráfego, especialmente após a ampliação da pista, que permitirá a operação de aeronaves maiores e mais pesadas", avalia Andreea. Também é possível detectar uma tendência à descentralização dos investimentos pelo mapa. Há projetos em, pelo menos, 38 cidades. Um dos casos que chama atenção é a situação de Passo Fundo, que, além da reforma do aeroporto, recebeu investimentos do Passo Fundo Shopping - com um aporte robusto de R$ 200 milhões - e a primeira loja da rede de varejo Havan no Estado, marcando o início da expansão pelo território gaúcho, onde a cadeia catarinense ambiciona instalar 50 lojas.
De acordo com o secretário de Desenvolvimento do município, Carlos Eduardo Lopes da Silva, a cidade colhe os frutos por ter feito a lição de casa. "Não temos brigas políticas, não se desconstrói o que foi feito em outros mandatos. Tudo se deve às políticas públicas, fazendo com que a cidade aumente a sua autoestima", diz Silva. A receita que vem do Norte é relativamente simples, com um poder comprovado para contornar as dificuldades e acertar o alvo do desenvolvimento: com planejamento e alguma dose de pragmatismo, a tarefa de conquistar investimentos tem tudo para se tornar menos desgastante.

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