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Publicada em 27 de Setembro de 2026 às 21:11
O geógrafo e climatologista Pedro Valente avalia que, nos últimos anos, as mudanças climáticas deixaram de ser um tema essencialmente científico e ambiental para se tornar um debate político e ideológico. O problema, na avaliação do pesquisador, é que “há muita ideologia que não prioriza os dados” na discussão sobre o clima.
O climatologista também entende que houve retrocessos no engajamento do mundo no combate à crise climática, especialmente a partir da saída da maior economia do mundo, os Estados Unidos, do Acordo de Paris. Um desses retrocessos foi o corte de financiamento de pesquisas relacionadas ao clima. O Acordo de Paris, assinado por 195 países, prevê uma série de medidas para diminuir a emissão de gases do efeito estufa, para a transição energética de combustíveis fósseis para energias renováveis, entre outras medidas.
Ao comentar os eventos climáticos extremos ocorridos no Rio Grande do Sul, Valente considera prioritário um sistema de informações e alertas sobre enchentes e chuvas. Ele elogia o site Clima RS e a integração entre prefeituras e defesas civis. Contudo, critica a demora na preparação do Estado para chuvas intensas, novas enchentes e ventos fortes.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Pedro Valente também explica por que o fenômeno El Niño deste ano deve manter as autoridades e a população atentas até fevereiro de 2027 - período em que há 50% de chance do fenômeno ser "muito forte". Ele detalha ainda como o aquecimento global intensifica esse evento climático que causa fortes chuvas no sul do Brasil.
Jornal do Comércio – Nos últimos anos, o mundo assistiu a países como os Estados Unidos saírem do Acordo de Paris. O próprio presidente dos EUA, Donald Trump, é um negacionista em relação às mudanças climáticas. Isso parece ter gerado uma certa desmobilização de várias outras nações em torno das medidas para mitigar o aquecimento global. Como enxerga isso?
Pedro Valente - Foi justamente isso que aconteceu nos últimos cinco anos. A crise climática deixou de ser uma questão essencialmente científica ou ambiental. Ela ganhou também um viés político, no sentido de que há muita ideologia que não prioriza os dados na discussão sobre o clima. Uma das consequências é a diminuição do financiamento para a pesquisa e mitigação das mudanças climáticas. Meteorologistas da Noruega, Suécia, Dinamarca, Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos têm reclamado de cortes nessa área. Os Estados Unidos, um país que historicamente investe muito em escritórios de meteorologia, têm demitido os pesquisadores e sucateado os projetos de pesquisa. Essa é uma realidade que o Brasil enfrenta historicamente, mas agora está se tornando global. Não existe um lado bom nisso, mas, por viver situações como essa há mais tempo, o Brasil sabe lidar um pouco melhor com isso.
JC – As mudanças climáticas se transformaram em uma crise política?
Valente – Com certeza, a crise climática se transformou em uma crise política. Mas existe gente interessada no combate às mudanças climáticas, na pesquisa científica, em mitigar a crise climática o mais rápido possível. O clima não deixa mais a gente esquecer que as mudanças climáticas estão aqui. Os eventos climáticos extremos convencem cada vez mais as pessoas. Infelizmente, até então muita gente pensava: ‘ah, mas eu não vou viver isso, quem vai viver isso vai ser a geração dos meus filhos.’ Agora o clima não deixa as pessoas esquecerem das mudanças climáticas.
JC – No Rio Grande do Sul, após a calamidade causada pela enchente de 2024, a preparação para eventos climáticos extremos entrou na agenda do Estado, efetivamente. Como avalia as medidas nessa área?
Valente - Sinto que o preparo para os próximos eventos extremos demorou um pouco para acontecer. Houve uma espera muito longa entre o nosso último evento extremo em maio de 2024 até agora. Parece que, enquanto não houve a ameaça de uma enchente, enquanto não houve um novo El Niño, as pessoas não trataram isso com a mesma prioridade. Mas o Estado não precisa de um El Niño para ter uma enchente. O El Niño é um dos fatores que potencializa esse risco. O Rio Grande do Sul teve diversas enchentes fora do período de El Niño. Por exemplo, em julho de 2020, houve uma enchente no Vale do Taquari e no Baixo Jacuí. Então, a preparação deveria ter começado antes.
JC – O que considera mais urgente na preparação do Estado para os eventos climáticos extremos?
Valente – Hoje existem ferramentas que monitoram o clima, como o site Clima RS, que traz informações em tempo real para o cidadão. Ele pode ver nesse portal como estão a temperatura, a chuva, o vento, o nível dos rios, da cidade onde ele mora. Isso é uma das coisas mais importantes. Por exemplo, durante as fortes chuvas de julho, as pessoas monitoraram o nível dos rios no Vale do Taquari, para ver se as águas subiriam mais ou começariam a baixar. Então, muitas vidas foram salvas por causa dessa ferramenta (o site Clima RS), além do esforço contínuo das prefeituras, defesas civis e outros órgãos. É importante que as instituições do Estado trabalhem juntas cada vez mais.
JC - Diria que a informação sobre o clima é o primeiro passo para se preparar para as mudanças climáticas?
Valente - Com certeza, não só informações em tempo real, mas também dados para deixar os modelos mais acurados. Acredito que também seja importante deixar as pessoas cientes sobre as políticas públicas em curso. Não basta mais que o governador, os deputados, os prefeitos digam que vão combater as mudanças climáticas. Eles devem dizer como vão fazer isso. Vão criar uma defesa civil mais forte? Ampliar as pessoas que trabalham com monitoramento climático e ambiental? Destinar mais verba para a divulgação de alertas e educação ambiental? Aliás, nas escolas, as crianças podem aprender a detectar eventos extremos e passar isso para suas famílias. Então, a questão da informação é uma ação conjunta: da ciência, do governo e da própria população.
JC – Nos últimos meses, os meteorologistas têm emitido alertas sobre fortes chuvas causadas pelo fenômeno El Niño no Rio Grande do Sul. O que esse fenômeno tem de diferente neste ano? O Estado tem, de fato, motivos para ficar preocupado?
Valente – Eu diria que sim. Existem três razões para ficarmos atentos. A primeira é que já estamos há mais de três meses sob os efeitos do El Niño. E, nesse curto intervalo de tempo, que a gente já tem de El Niño, constatamos que a temperatura média do oceano na região do Pacífico Equatorial está 1 °C acima da média dos meses de julho e agosto. Geralmente, (nos anos em que ocorre o fenômeno El Niño) o crescimento da temperatura é mais devagar, subindo entre 0,2 °C e 0,5 °C nesse período. Então, cresceu muito rápido. Esse é um fator que preocupa muito.
JC – E qual a segunda razão para ficarmos atentos?
Valente – As previsões mais confiáveis sobre o El Niño apontam que esse evento deve se estender até março de 2027. Isso significa que o fenômeno vai atravessar toda a nossa primavera, verão e, possivelmente, outono. Então, ainda temos um bom tempo de El Niño pela frente.
JC – E o terceiro ponto?
Valente – Segundo a Agência Nacional de Oceano e Atmosfera dos Estados Unidos, a probabilidade de ter um El Niño da categoria mais intensa – classificado como “muito forte” – está acima de 50% entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Ou seja, é um período relativamente longo com grande probabilidade de eventos climáticos extremos. Então, por esses três motivos, eu diria que esse El Niño está evoluindo de maneira preocupante. O evento já se mostrou muito intenso desde o início.
JC – Então, esse El Niño exige atenção, porque a temperatura das águas do Oceano Pacífico subiu muito rápido, elas devem ficar aquecidas por um período mais longo e o risco de um fenômeno intenso é de 50% até fevereiro de 2027...
Valente – Exatamente. Os El Niños tendem a começar de um jeito parecido, mas, durante a sua existência, eles têm um comportamento diferente. Esse El Niño já começou muito rápido, já começou fora do padrão. Geralmente, tem aquele período de aquecimento progressivo e, dessa vez, foi um aquecimento abrupto.
JC – Existem semelhanças entre o El Niño desse ano e aquele que deu origem à enchente de 2024 no Rio Grande do Sul?
Valente – A maior semelhança é que os dois El Niños iniciaram em um período no qual a temperatura média do oceano já estava mais quente. Então, os dois já nasceram potencializados para ficarem quentes mais rápido. Mas tem algumas diferenças também...
JC – Quais destacaria?
Valente – Apesar de o El Niño de 2023 e 2024 ter sido forte, ele não cresceu tão rápido como o El Niño atual. Isso não significa necessariamente que teremos uma enchente igual ou maior que a de 2024. Mas isso abre espaço para eventos como a enchente. Tanto que, no início de julho, com um mês e meio de El Niño, já tivemos enchentes no Vale do Taquari. No El Niño de 2023 e 2024, a primeira enchente no Vale do Taquari ocorreu no terceiro mês desse fenômeno. Então, o atual El Niño exerceu sua influência mais cedo. Entretanto, isso não significa que vai ser pior que 2023 e 2024, porque (a chuva forte que causa as enchentes) é uma combinação de fatores. Tem influência da Antártida, tem uma assinatura da Amazônia, tem influência do El Niño.
JC – Muitos climatologistas alertam que as mudanças climáticas têm causado o aquecimento das águas dos oceanos. Isso intensifica o El Niño?
Valente – Com certeza. O El Niño é um modo de variabilidade climática natural da Terra. Mas, quando existe uma condição inicial mais quente, isso potencializa essa variabilidade. Então, o El Niño geralmente aquece a costa oeste da América do Sul e esfria a região da Oceania e do Sudeste Asiático. Dessa vez, como todo o planeta está mais quente, tanto nos oceanos quanto na atmosfera, o El Niño já começa com um impulso extra para ficar mais intenso.
JC – Quanto o aquecimento global aqueceu os oceanos?
Valente – A nível global, a temperatura média dos oceanos está muito acima da média nos últimos quatro anos. Até 2022, a temperatura média anual de todos os oceanos da Terra mantinha um padrão. A partir de 2023, a temperatura deles está muito acima da média. Eles estão quase 0,25 °C acima dos anos anteriores. No último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, na tradução para o português), esse aquecimento estava previsto para o final da década de 2020 e no início da década de 2030. Só que começaram a ocorrer já em 2023. Nesse período, tivemos o recorde da enchente de Porto Alegre, outras enchentes históricas na Ásia, nevascas intensas na Europa e no Hemisfério Norte. Então, vários eventos extremos que já eram esperados para o fim da década passaram a ocorrer antes. A comunidade científica conseguiu estimar a intensidade dos fenômenos, mas a frequência acabou surpreendendo os cientistas.
JC – Em agosto, participou da conferência científica organizada pelo Comitê Científico de Pesquisa Antártica (SCAR, na sigla em inglês) em Oslo, na Noruega. Como avalia a pesquisa dentro da comunidade científica global?
Valente – O Brasil foi um dos países com a maior delegação de cientistas no evento da SCAR em 2026. A comitiva tinha meteorologistas, climatologistas, geólogos, oceanógrafos, físicos, biólogos, botânicos, muita gente. Então, mesmo que exista um desdém político mundial, o tamanho da delegação brasileira mostra o quanto o Brasil tem interesse em fazer algo, em buscar recursos, em unificar a ciência, a população e a defesa civil para criar redes de apoio. Tem pessoas interessadas nisso. Esse tipo de coisa foi discutido na conferência.