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Publicada em 12 de Agosto de 2024 às 18:46

Em Porto Alegre 'nasceu a volta da democracia', avalia Tavares

Tavares foi preso três vezes no Brasil, em uma delas foi torturado, e uma no Uruguai

Tavares foi preso três vezes no Brasil, em uma delas foi torturado, e uma no Uruguai

TÂNIA MEINERZ/JC
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Ana Carolina Stobbe
Ana Carolina Stobbe
A Ditadura Militar no Brasil completa 60 anos em 2024. O período foi marcado pela repressão e pelo exílio de personalidades políticas contrárias ao governo. O jornalista Flávio Tavares foi uma delas. Enquanto profissional da imprensa, ele acompanhou momentos decisivos: da campanha da legalidade, em 1961, à instauração do regime, na madrugada do dia 1º de abril de 1964. Posteriormente, ingressou na luta armada, tendo sido preso três vezes no Brasil e uma no Uruguai. Na última detenção em solo nacional, foi vítima de tortura.
A Ditadura Militar no Brasil completa 60 anos em 2024. O período foi marcado pela repressão e pelo exílio de personalidades políticas contrárias ao governo. O jornalista Flávio Tavares foi uma delas. Enquanto profissional da imprensa, ele acompanhou momentos decisivos: da campanha da legalidade, em 1961, à instauração do regime, na madrugada do dia 1º de abril de 1964. Posteriormente, ingressou na luta armada, tendo sido preso três vezes no Brasil e uma no Uruguai. Na última detenção em solo nacional, foi vítima de tortura.
Em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, Tavares relembra a partir de suas vivências profissionais e políticas esse momento da história do País. Além disso, avalia a importância do jornalismo para a democracia, comenta a invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 e celebra a importância da cidade de Porto Alegre em sua trajetória pessoal. O jornalista considera ter formado suas raízes na capital gaúcha e a vê como peça fundamental para a democracia brasileira. 
Jornal do Comércio - No dia do golpe militar, você esteve no Congresso Nacional, como foi esse momento?
Flávio Tavares - Eu acompanhei toda a sessão, que teve entre 3 e 7 minutos, e o presidente do Congresso da época, o senador Auro de Moura Andrade declarou a presidência da República vaga, porque o presidente João Goulart tinha viajado para Porto Alegre para montar um governo aqui. O Andrade fez o impeachment sem nenhum debate, quanto menos votação. O golpe foi militar, mas tentou muito habilmente ser reconhecido pelo Congresso em uma tentativa de legalização.
JC - E depois disso, o que aconteceu?
Tavares - Fomos para o Palácio do Planalto, mas não queriam nos deixar entrar, incluindo o presidente do Senado e o da Câmara. Como Goulart já era um vice que assumiu com a renúncia do Jânio Quadros, com o impeachment quem assumia a presidência era o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, mas quando ele foi assumir os golpistas disseram que faltava um general para dar legalidade à posse. Acharam o general André Fernandes. Ele já era reformado e estava dormindo nesse momento, alheio a tudo que estava acontecendo. Foi só quando o André Fernandes chegou que empossaram o Mazzili como presidente.
JC - Nesse momento já era possível perceber que seria um regime de exceção?
Tavares - Não, ao contrário dos outros golpes, esse começou muito brando, ainda que totalmente ilegal. O presidente (Humberto) Castello Branco foi eleito pelo Congresso e não havia tradição no Brasil de eleger um presidente por via indireta. Antes dessa votação, também foram cassados os mandatos dos parlamentares ligados ao governo João Goulart ou à esquerda e cassados os direitos políticos por 10 anos de figuras desse espectro, a começar pelo (à época deputado federal Leonel) Brizola e pelo Luís Carlos Prestes, que era secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Essa foi uma tentativa de caracterizar o golpe como sendo contra o comunismo. Mas mesmo assim foi um início brando, porque só se consolidou mesmo como regime repressivo depois do Ato Institucional número 5 (AI-5) em dezembro de 1968.
JC - Como o senhor percebeu essa mudança com o AI-5?
Tavares - Aí é que foi persecutório mesmo. Até então, a perseguição era apenas formal, com a destituição de funções, demissões e a suspensão dos direitos políticos. Eu mesmo fui preso em Brasília por 48 horas pouco após o golpe e depois recebi um pedido formal pela Voz do Brasil de desculpas pelo equívoco, porque eu era colunista de um jornal que apoiava o regime deposto, o Última Hora, que naquela época era editado em sete capitais, incluindo Porto Alegre. Minhas outras prisões já foram diferentes.
JC - Como foram essas suas prisões?
Tavares - Tinha o Serviço Nacional de Informações, o SNI, que fazia espionagem doméstica, com a perseguição entre familiares. Tinha algum agente infiltrado ou o SNI dava acesso a determinadas benesses no governo para os familiares. Por oportunismo, as pessoas delataram as outras. Foi por isso que eu fui preso em Brasília em 1967 e fiquei por três ou quatro meses até ser solto por um habeas corpus unânime do Supremo Tribunal Federal (STF). Aí ingressei abertamente na luta armada de resistência à ditadura, quando ela apareceu como ditadura mesmo e começou a perseguir todo mundo.
JC - A última detenção foi em 1969, certo?
Tavares - Isso. Eu fui preso no Rio de Janeiro e aí sim fui conhecer a ditadura e o que ela tem de pior. Eu já entrei na (sede da) Polícia do Exército do Rio de Janeiro apanhando e passei direto para o choque elétrico, que é inenarrável. Eu tenho o choque elétrico por tudo, até nos olhos. Começava pela mão e depois ia se expandindo, nos olhos, na boca, nos órgãos sexuais…O choque elétrico é inenarrável.
JC - E como conseguiu sair da prisão dessa vez?
Tavares - Me disseram que das outras vezes eu tinha me livrado, mas que agora eu ficaria 30 anos preso. Fiquei 30 dias, porque ingressei na lista de 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, que tinha sido sequestrado.
JC - Depois disso o senhor foi para o exílio, mas viu de perto ditaduras na Argentina e no Uruguai. Que diferenças observou entre elas e a do Brasil?
Tavares - As diferenças praticamente não existem, mas eu acho que pior que a ditadura do (ex-presidente chileno Augusto) Pinochet, que eu não assisti, foi a da Argentina. Lá não houve prisões, houve desaparecimento de pessoas e não se sabe quantos foram, nunca se acharam os corpos. Eu fui casado com uma argentina na época que teve dois irmãos desaparecidos e que nunca se acharam os corpos. Eu vi cenas em Buenos Aires indescritíveis, pegaram na rua, à luz do sol, três jovens e botaram no porta-malas do automóvel, em plena avenida de um bairro povoadíssimo.
JC - Na Argentina se faziam os chamados "voos da morte"...
Tavares - Isso, as pessoas eram atiradas em alto mar de avião, uma coisa tenebrosa, terrível, inenarrável também. Eram escoltados por um piloto que foi um arrependido. Ele conta que os presos eram anestesiados, levados ao avião e jogados em alto mar no Sul da Argentina, mas que alguns acordaram da anestesia e foram jogados assim mesmo. Nem nos campos de concentração do (Josef) Stalin na Rússia ou do (Adolf) Hitler na Alemanha houve tanto sadismo como na Ditadura Argentina.
JC - Como o Brasil deveria lidar com a memória da Ditadura?
Tavares - Eu acho que para que ficasse registrado na história, os torturadores tinham que ter sido punidos também. Mas a Lei da Anistia que houve no Brasil ainda vem do tempo da finalização da ditadura, no governo (João) Figueiredo, onde todas as liberdades ainda não haviam sido restituídas. Foi algo enjambrado pela própria ditadura que estava no fim e já não tinha mais oxigênio para respirar. Já se sabia que não tinha mais apoio de ninguém, nem do empresariado e nem dos Estados Unidos, que estava no governo (Jimmy) Carter que era de esquerda e fez a campanha pelos direitos humanos no mundo inteiro. Então tinha que começar pelas ditaduras no cone sul do continente, o que abrangia o Brasil também.
JC - Quando a Lei da Anistia foi promulgada, o senhor estava exilado em Portugal. Como foi recebida essa notícia de que poderia voltar para o Brasil?
Tavares - Pela Lei ter sido feita pela própria ditadura, eu voltei com muito medo que o regime pudesse voltar e que pudesse enrijecer. Eu dizia, como uma metáfora, que eu tinha deixado toda a minha roupa em Portugal. E eu voltei inclusive para lá. Fiquei quatro meses aqui e depois fui para Portugal, deixei passar um tempo, e aí voltei definitivamente para o Brasil.
JC - Então o senhor temeu que pudesse acontecer um novo golpe ou que a democracia ainda estivesse ameaçada?
Tavares - Durante um tempo, acreditei que pudesse haver um grande golpe, mas as Forças Armadas tinham sido tão desmoralizadas pela própria propaganda que tinham feito que já não era mais possível. Na época, era anunciado um milagre brasileiro no governo do presidente gaúcho (Emílio) Médici, que foi o mais repressivo e sucedeu o (Artur da) Costa e Silva. Ficou no ar uma interrogação de se voltavam ou não os militares. Mas eles estavam desmoralizados porque tinham feito um mau governo. O lema da ditadura era "Brasil, ame-o ou deixe-o" e o povo dizia "o último a sair apague a luz do aeroporto".
JC - Em janeiro do último ano, houve uma invasão na sede dos Três Poderes em Brasília por manifestantes que contestavam o resultado das eleições gerais de 2022. Como foi acompanhar esse episódio?
Tavares - Foi muito tristonho, porque eu vi que boa parte do povo brasileiro não tinha sabido interpretar o que foi uma ditadura. Só pode ser a favor de uma ditadura quem não conheceu uma ditadura. Seja de que tipo for, de esquerda ou de direita, sempre será uma ditadura, oprimindo as liberdades. Até a liberdade de palavra, fundamentalmente ela. É assim que eu explico o 8 de janeiro. Foi uma tentativa absurda de pretender ganhar as Forças Armadas para um golpe de estado quando a situação internacional não era propícia para isso, porque o golpe no Brasil em 1964 foi produto da Guerra Fria, entre a União Soviética e os Estados Unidos, entre oriente e ocidente. E não existia mais Guerra Fria.
JC - Qual é o papel do jornalismo para a democracia na sua opinião?
Tavares - Eu acho fundamental. Os meios de comunicação são fundamentais porque formam a opinião pública. Podem até derrubar um governo. Só que em 1964, só a Última Hora é que apoiava as reformas de base do (João) Goulart. Todo o resto da imprensa ficava contra o governo, por medo das reformas de base, que eram a urbana, a agrícola e a financeira.
JC - E como avalia a questão das chamadas fake news? 
Tavares - Eu gosto de falar o termo em português, notícia falsa. Isso surgiu com a telefonia celular e todas as suas variantes. Antes, as informações se resumiam à imprensa e aos jornais, depois ao rádio e mais adiante com a televisão. E nessa época, não havia essa situação. 
JC - O que Porto Alegre significa na sua trajetória?
Tavares - Bom, em Porto Alegre que eu fiz as minhas raízes profundas. Eu não nasci em Porto Alegre, mas eu me formei em Direito aqui e aqui que fui exercer o jornalismo, ser jornalista. Também foi aqui que nasceu a volta da democracia.
JC - Por conta da Campanha da Legalidade?
Tavares - Isso, em 1961. Foi o maior movimento popular da segunda metade do século XX, eu sempre disse isso. Toda a população de Porto Alegre participou de tal forma que depois o comando do Exército daqui, que estava obedecendo aos ministros militares que não queriam dar posse ao presidente João Goulart se juntaram ao movimento, isso uniu o Exército de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Na época, eu cobria o Palácio do Piratini como editor de Política da Última Hora e acompanhava o então governador Leonel Brizola, então estive acompanhando de perto atuando jornalisticamente. Foi uma época muito regeneradora do jornalismo. 
JC - Recentemente, o senhor foi homenageado na Câmara Municipal de Porto Alegre e reuniu personalidades de diferentes vertentes políticas. Como o senhor consolidou esse ecumenismo político? 
Tavares - Eu sou um homem de esquerda. Mas sempre pretendi ser plural. Não sei se consegui, mas acho que sim. E um exemplo disso foi essa homenagem, que reuniu os ex-governadores do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (1999-2002, PT) e Jair Soares (1983-1987, PDS), que são opostos politicamente e ideologicamente, mas os dois são amigos meus, principalmente o Jair. Estava lá também a Ana Amélia Lemos (PSD), que foi senadora e ela é uma conservadora. Mas ela também foi jornalista e eu tive muito mais contato com ela pelo jornalismo do que pela política. 

Perfil

Jornalista Flávio Tavares. Escritor. Política

Jornalista Flávio Tavares. Escritor. Política

/Fotos: TÂNIA MEINERZ/JC
Flávio Tavares, 90 anos, é natural de Lajeado (RS). Apesar de ter se graduado em Direito, exerceu profissionalmente o Jornalismo, atuando na editoria de Política do jornal Última Hora, fundado por Samuel Weiner. Em 1964, foi preso pela primeira vez, mas liberado em 48 horas após o reconhecimento de um equívoco pelo governo federal. Voltou ao cárcere em 1967, sendo libertado por um habeas corpus aprovado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal. Após o endurecimento da ditadura militar, ingressou abertamente na resistência armada. Preso pela terceira vez em 1969, sofreu torturas e fez parte do grupo de 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. No mesmo ano partiu ao exílio, vivendo no México, na Argentina e no Uruguai, e atuando como correspondente do diário mexicano Excelsior e do jornal O Estado de S. Paulo. Seu último exílio foi Portugal, onde permaneceu até a aprovação da Lei da Anistia, em 1979. Foi um dos fundadores da Universidade Federal de Brasília (UnB) e autor de livros como Memórias do esquecimento (1999) e O dia em que Getúlio matou Allende (2004), ambos vencedores do Prêmio Jabuti. Recentemente, foi homenageado com o Troféu Câmara de Porto Alegre.

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