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Eleições 2022

- Publicada em 21 de Agosto de 2022 às 15:01

Edegar Pretto diz que pretende barrar a privatização da Corsan

Candidato do PT ao governo quer rever RRF e avalia que acordo foi "um péssimo negócio" para a economia do Rio Grande do Sul

Candidato do PT ao governo quer rever RRF e avalia que acordo foi "um péssimo negócio" para a economia do Rio Grande do Sul


fotos: LUIZA PRADO/JC
Lívia Araújo e Caren Mello, especial para o JC
Lívia Araújo e Caren Mello, especial para o JC
Com críticas aos recentes processos de privatização no Estado, como o da CEEE Distribuição, o deputado estadual Edegar Pretto, caso eleito, quer ser o terceiro governador do PT no Rio Grande do Sul revendo a intenção de privatizar outra empresa estatal: a Corsan. "Não quero que um serviço essencial para a população fique sem nenhum controle do Estado", justifica.

JC VÍDEOS: Como foi a entrevista com Edegar Pretto 

Quanto ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), o petista defende a manutenção de ações judiciais para impedir o pagamento da dívida e defende a busca de novos entendimentos com o governo federal, porém defende que "antes de fazer alguma modificação formal, o Estado tem de cumprir o que está estabelecido".
Entre as propostas do candidato do PT, estão investimentos específicos em alimentação no contexto da educação, incluindo o fornecimento de alimentos oriundos da agricultura familiar.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o petista, conhecido em sua atuação parlamentar por iniciativas de combate à violência contra a mulher, pretende levar mais inclusão feminina à composição de seu governo. "Vamos buscar a maior participação possível das mulheres, em cargos de primeiro escalão, inclusive." Segundo Pretto, a oportunidade será também de "formulação e implementação de políticas".
Jornal do Comércio - Na questão das privatizações, com o PT sendo historicamente contra a medida, como o senhor deve tratar a questão das desestatizações que já estão encaminhadas?
Edegar Pretto - Bom, em relação à privatização da água eu tenho já um compromisso: se eu for eleito governador, vou anular todos os atos de privatização da Corsan. Primeiro porque é uma empresa lucrativa, presente em 317 municípios, que abastece a grande maioria dos lares do nosso Rio Grande do Sul, e não quero que um serviço essencial para a população fique sem nenhum controle do Estado. O exemplo da nossa CEEE nos faz tomar essa decisão, pois esse modelo de privatização que foi feito com o setor energético aqui no Estado é prejuízo para nossa população e nossa economia. A mesma coisa com o Banrisul. Não é só para que ele seja público, mas também fortalecido para financiar a nossa economia, nossa indústria, com políticas específicas para micro e pequenas empresas, para a agricultura... O Banrisul pode ser um potente instrumento para fazer nossa economia reagir positivamente. Então, no nosso governo, assim como o Olívio Dutra já salvou o Banrisul das garras privatistas do Antonio Britto (MDB), vamos colocar o Banrisul a serviço do desenvolvimento dos gaúchos e das gaúchas.
JC - E no caso da concessão de rodovias, parques, essa é uma possibilidade em seu governo?
Pretto - Não temos preconceitos contra concessões, a nível nacional especialmente, mas somos contra esse modelo de concessão que o governador que renunciou está impondo à sociedade gaúcha sem nenhum diálogo. Afinal de contas, são contratos para 30 anos, Eduardo Leite (PSDB) quer que a população gaúcha dê esse mergulho no escuro. A RS-118, por exemplo, é um modelo do que está errado. Uma estrada que o Estado levou 20 anos para fazer. Foram gastos R$ 900 milhões, e agora vem um pedágio caro, em uma área urbana, numa região deprimida economicamente, com uma taxação para os cidadãos, para a indústria, para o comércio, para os setores produtivos que ali estão.
JC - O funcionalismo público tem manifestado descontentamento com as últimas gestões, principalmente do ponto de vista de reajustes salariais. Se eleito, como deve tratar a questão?
Pretto - Infelizmente, nesse último período, o comportamento do governo com os servidores públicos foi de tratá-los como inimigos do Estado. Nós vamos voltar a dialogar com eles, tratá-los com respeito e valorização, como fizeram os governos do Olívio Dutra e do Tarso Genro. Obviamente, não posso estar aqui prometendo índices de reajustes, aliás, de reposição, porque os servidores públicos ficaram sete anos sem a reposição da inflação, mas vamos dar um passo de cada vez. Temos que fazer nossa economia reagir positivamente, temos que voltar a colocar a estrutura do Estado a serviço dos setores que são importantes para a economia.
JC - O RRF já está em vigor e demandará compromissos do Estado para quem quer que vença a eleição. Qual será sua posição em relação ao regime?
Pretto - Vamos revisar esse Regime de Recuperação Fiscal, conversando com o presidente da República. O RRF é danoso para nossa economia, foi um péssimo negócio que Eduardo Leite fez, e também não é justo, e é desleal que um governo cujo governador renunciou, imponha essas amarras ao nosso orçamento, e os próximos governantes não tenham gerência sobre ele. Então vamos, com um diálogo a nível nacional, estabelecer uma nova relação federativa. O RS não pode continuar nessa submissão perante a União.
JC - O que precisaria ser revisto?
Pretto - Bom, tem toda a questão da dívida. O governo faltou com a verdade, inclusive com a sua base parlamentar. No dia em que foi votado o último item para aderir ao RRF, os deputados da base discursaram que ia ser muito mais fácil fazer o pagamento da dívida, porque, a partir do ano que vem, apenas R$ 400 milhões seriam pagos. Aí, no outro dia, foi publicado no site do governo do Estado que não eram R$ 400 milhões, e sim R$ 2 bilhões, depois são R$ 3 bilhões, depois R$ 4 bilhões, e no último ano são R$ 8 bilhões, então nossa economia não vai suportar o pagamento que está estabelecido. Temos de voltar a fortalecer setores de ponta, que precisam ter no governo um parceiro. Por exemplo, utilizar o Banrisul para políticas específicas, para indústria, para o setor calçadista, que compete e exporta; para a indústria metalmecânica, vinicultura, agricultura de modo geral, que têm importância na economia. O RRF impede isso, ele é meio que um atestado de que ficaremos do jeito que estamos, sem crescer, só sobrevivendo para pagar essa dívida, que é injusta e impagável.
JC - Nesse sentido, pretende entrar com que medidas para rever o regime?
Pretto - Vamos utilizar todos os mecanismos possíveis, mas antes de fazer uma modificação legal, formal, o Estado tem que cumprir o que está estabelecido. A OAB e a Ajuris têm esse processo na Justiça, do qual inclusive somos parte. Vamos continuar questionando, mas partiremos também de uma mobilização com os outros estados e fazer o que Tarso Genro fez quando era governador, uma mobilização com mais 14 estados na mesma situação que nós, que foram negociar junto ao governo federal. Com aquela mobilização foi possível estabelecer uma mudança no indexador da dívida de 6% para 4%, o que diminuiu em R$ 22 bilhões o estoque da nossa dívida.
JC - O senhor tem um trabalho forte em relação a causas como o combate à violência contra a mulheres. Que espaço haverá no seu governo não só para essa questão, como para outras políticas relacionadas à inclusão?
Pretto - Sou o primeiro candidato a governador do PT que tem paridade inclusive na coordenação de campanha. Isso também é uma demonstração do governo que queremos constituir, dando oportunidade não só para escutar as mulheres, mas para que estejam na linha de frente, ajudando a elaborar e implementar as políticas do governo que quero constituir.
JC - Deve haver paridade na distribuição de secretarias? É algo que será buscado?
Pretto - Vamos buscar a maior participação possível das mulheres, em cargos de primeiro escalão inclusive. E o governo que vamos constituir vai dar oportunidade a todos, não só de participação, mas de formulação e implementação de políticas. E claro, vamos remontar a estrutura de proteção às mulheres. O feminicídio só aumenta aqui no Estado. Obviamente isso tem um componente cultural, que é onde tenho colocado parte da energia do meu mandato, e também é causa da minha vida, o combate a todo tipo de violência contra as mulheres.
JC - Levando em conta os altos índices de evasão escolar registrados durante a pandemia e também a baixa posição nos rankings de qualidade de educação, quais são seus planos para essa área?
Pretto - Infelizmente nosso Estado vem amargando esses índices negativos na educação. Em um governo que se vangloria de ter superávit na economia, estamos com 83% das escolas que não têm um pátio adequado; outras 14% das escolas não têm banheiros e, se têm, não funcionam... Então, as escolas precisam, com urgência, de um plano de obras como nós fizemos lá no governo Tarso, que fez intervenções em 2 mil escolas. Precisamos tornar a escola um ambiente de estrutura física mais atrativa, um local adequado para recreação, uma estrutura adequada para as crianças e para os professores; Queremos um amplo diálogo com a comunidade escolar, com pais, mães, professores e especialistas. A questão da alimentação também é importante, porque, para muitas crianças, a merenda escolar é a principal refeição que fazem no dia, então temos que garantir comida quente para as nossas crianças. Vamos nos utilizar de nossa agricultura familiar, que tem uma potência extraordinária e que foi abandonada também pelo governo. Também os professores precisam trabalhar com autoestima e voltar a sentir prazer na profissão que têm, e não serem tratados com tanto desrespeito, além de reforçar as estruturas das escolas, bibliotecas, todos os locais que tornem a escola um local melhor para aprender.
JC - Dado o momento de polarização que vivemos, como o senhor, sendo de esquerda, construirá diálogo com setores mais à direita, incluindo o Parlamento?
Pretto - Já tive o privilégio de me apresentar para o RS quando fui presidente da Assembleia Legislativa, em 2017. Já era um ambiente muito polarizado na política nacional. Hoje, escuto honrosamente a opinião de colegas de vários partidos, de que no tempo em que fui presidente, a Assembleia construiu mais consensos em causas do nosso Estado, como na questão da lei Kandir. Fomos nós que fizemos a primeira mobilização, quando fomos falar com os presidentes da Câmara e do Senado. Sei conviver com as diferenças; faço política respeitando quem pensa o contrário, justamente buscando consenso. Acho que essa é uma das minhas características que levaram o PT a fazer essa troca geracional, a indicar o meu nome por unanimidade, sem debate, sem prévias, uma troca geracional, uma renovação política, e tivemos consenso das nossas direções.
JC - Como avalia o governo Leite?
Pretto - Olha, eu vou ser franco: quando o Eduardo Leite se elegeu ao governo do Estado, criou-se uma expectativa, inclusive para mim, porque ele era uma renovação política, como um jovem que se candidatou e se elegeu governador.
JC - O senhor votou nele no segundo turno?
Pretto - Não, mas criou-se uma expectativa, já que ele era uma renovação da política da direita do RS. Mas, infelizmente ele não só fala como faz a velha política que já foi testada no RS, que comprovadamente não deu certo. O ex-governador, que renunciou, não conhece o RS, porque se conhecesse, saberia o valor da palavra para o nosso Estado. Agora ele diz que renunciou para poder ser candidato sem utilizar da estrutura do Estado e poder fazer a campanha com direitos iguais. Não. Ele renunciou em nome de seus interesses políticos, para disputar prévias e ser candidato a presidente da República. Estamos em um Estado onde tudo o que se planta dá, mas a comida é uma das mais caras do País. Há 1,2 milhão no RS que sobrevivem com R$ 105,00. É um momento muito difícil, e por isso que eu quero ser governador tendo (Luiz Inácio) Lula (da Silva) como presidente. O RS tem que voltar a ter uma relação com o presidente da República, para encontrar uma saída para a nossa população.
JC - Isso passa por geração de emprego...
Pretto - Geração de emprego e de oportunidades. Aonde tenho ido, por mais difícil que seja a situação das pessoas, a gauchada não quer esmola. As pessoas querem uma oportunidade, entrar no mercado, não querem cesta básica. Se eu for governador, vou chamar para mim essa responsabilidade, vou combater a fome no nosso Estado, e isso passa por toda uma reconstrução de políticas, também para a agricultura.
 

Perfil

Edegar Pretto nasceu no interior do município gaúcho de Miraguaí em 1971. É um dos nove filhos do deputado federal Adão Pretto (PT), falecido em 2009. É graduado em Gestão Pública pela Facinter. Em 1990, foi um dos coordenadores da campanha de seu pai à Câmara dos Deputados. Entre 1991 e 1994, foi assessor na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. A partir de 1994, integrou a gestão da cidade de Novo Barreiro, onde foi secretário da Fazenda. Em 1999, começou como chefe de gabinete do deputado Dionilso Marcon (PT), na Assembleia. Em 2010, Edegar Pretto foi eleito para seu primeiro mandato, e reeleito nos pleitos de 2014 e 2018. Em 2017, exerceu a presidência da Assembleia Legislativa. Também é membro do Comitê Brasileiro Impulsor do Movimento Mundial ElesPorElas, da Organização das Nações Unidas (ONU), que reúne personalidades, instituições e empresas na luta pela igualdade de gênero e fim da violência contra as mulheres.
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