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Entrevista especial

- Publicada em 24 de Novembro de 2019 às 22:46

Incentivos já atraem empresas a Dois Irmãos, diz prefeita

Tânia acredita que localização e programa de incentivo ajudaram a diversificar atividades

Tânia acredita que localização e programa de incentivo ajudaram a diversificar atividades


/fotos: NÍCOLAS CHIDEM/JC
A prefeita de Dois Irmãos, Tânia Terezinha da Silva (MDB) - primeira gestora negra do município de colonização alemã -, acredita que a localização geográfica e o programa local de incentivo a empresas foram os responsáveis pela diversificação das atividades na cidade. Além do setor calçadista, há o moveleiro, o metalmecânico, o do comércio e o do turismo. "Nos últimos 10 anos, conseguimos diversificar muito a economia da cidade", avalia a prefeita. Entre os novos empreendimentos instalados no município está a montadora indiana de tratores Mahindra.
A prefeita de Dois Irmãos, Tânia Terezinha da Silva (MDB) - primeira gestora negra do município de colonização alemã -, acredita que a localização geográfica e o programa local de incentivo a empresas foram os responsáveis pela diversificação das atividades na cidade. Além do setor calçadista, há o moveleiro, o metalmecânico, o do comércio e o do turismo. "Nos últimos 10 anos, conseguimos diversificar muito a economia da cidade", avalia a prefeita. Entre os novos empreendimentos instalados no município está a montadora indiana de tratores Mahindra.
Tânia, que também é vice-presidente da Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (Amvars), acredita que o desenvolvimento regional é fundamental para cada um das cidades da região. Quanto ao turismo, por exemplo, cita o lançamento do Vale Germânico (rota turística reconhecida pela União, que inclui nove municípios do Vale do Sinos). "A ideia é que quem visite Dois Irmãos também passe por Ivoti, Novo Hamburgo, Araricá, Campo Bom, Sapiranga, São Leopoldo, Santa Maria do Herval, Morro Reuter", complementa.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, a prefeita de Dois Irmãos - que participou de um painel na Semana da Consciência Negra na Assembleia Legislativa - também avalia a participação dos negros na política. Observa, ainda, que as cotas para as mulheres devem ser aprimoradas, para evitar que os partidos lancem candidatas-laranja.
Jornal do Comércio - A região de Dois Irmãos é conhecida pelas indústrias do setor coureiro-calçadista, que tem passado por altos e baixos. Qual a situação hoje?
Tânia Terezinha da Silva - Realmente, esse setor tem altos e baixos, porque depende muito da cotação do dólar, do mercado externo e, claro, do interno. Independentemente de bandeiras partidárias, a queda da ex-presidente Dilma (Rousseff, PT, 2011-2016) e a insegurança do governo (Michel) Temer (MDB, 2016-2018) afetaram muito o desempenho dos negócios da indústria coureiro-calçadista. Depois que o novo presidente assumiu (Jair Bolsonaro), se percebe - pelos números, pelas contratações, pelas receitas - que a área do calçado está conseguindo respirar. O calçado tem muita importância, porque é o setor que mais emprega, que mais oferta vagas de trabalho. Por mais que use tecnologia, é necessário a mão humana, o costureiro, alguém para fazer a revisão do calçado.
JC - Apesar da importância do setor coureiro-calçadista, a cidade diversificou sua economia, justamente para não ficar tão suscetível às flutuações dos calçados...
Tânia - Dois Irmãos se desenvolveu a tal ponto que, além do setor calçadista, temos o moveleiro, o metalmecânico, o do comércio e o do turismo. Nos últimos 10 anos, conseguimos diversificar muito a economia da cidade. Tanto que as pessoas estão saindo de grandes centros urbanos para ir morar em Dois Irmãos, por ser uma cidade agradável, tranquila, pela qualidade das escolas, da saúde, do turismo. E essas pessoas vão ao supermercado, à loja local, enfim, criam um círculo virtuoso. Essa diversificação da economia nos dá não uma tranquilidade, mas um pouquinho mais de segurança. Há 20 ou 30 anos, quando ocorria uma crise no calçado, o desemprego era total; fechava uma linha de calçado, era um desespero por causa dos vários desempregados. Agora, temos uma situação mais confortável, porque existem outros segmentos que entraram no município, ofertando muitos empregos.
JC - A indústria está crescendo na cidade, especialmente com a instalação da fábrica de tratores Mahindra...
Tânia - Sim, a Mahindra está produzindo tratores em Dois Irmãos, o que trouxe não só muitos empregos diretos, mas também indiretos. Isso fortaleceu não apenas o nosso município, mas a região. Também temos o grupo Herval, com vários segmentos dentro do município, temos várias indústrias metalmecânicas.
JC - Existe uma estratégia de desenvolvimento regional, a partir da associação de municípios?
Tânia - Faço parte da Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos e, lá, chegamos à conclusão que não podemos brigar entre os municípios vizinhos, temos que nos unir para fortalecer a região. Tanto que, agora, lançamos o Vale Germânico, para unir a nossa região com os eventos culturais, gastronômicos, turísticos. A ideia é que quem visite Dois Irmãos, também passe por Ivoti, Novo Hamburgo, Araricá, Campo Bom, Sapiranga, São Leopoldo, Santa Maria do Herval, Morro Reuter. Dessa forma, se Dois Irmãos consegue diversificar sua economia, isso fortalece as outras cidades.
JC - O que difere Dois Irmãos dos outros municípios para atrair investimentos do setor metalmecânico, por exemplo?
Tânia - Existem dois fatores. Primeiro, nestes últimos 10 anos, percebemos que Dois Irmãos está muito bem localizada: está a 50 quilômetros do aeroporto; a BR-116 faz parte de toda a lateral do nosso município; está a 60 quilômetros da Serra; levam-se duas horas para chegar ao Litoral. Então, é uma cidade que, estrategicamente, está bem localizada para logística de veículos.
JC - E o segundo fator?
Tânia - Temos um programa de incentivo às empresas. Não é que distribuímos terrenos. Não. Temos um conselho e uma comissão que estuda cada empresa que tem interesse em se instalar no município, analisando de que forma o poder público pode ajudá-la. Podemos ajudar pagando o aluguel dessa empresa, fazendo a terraplanagem do local onde a empresa vai se instalar, desde que ela tenha uma meta de criar tantos empregos, previsão de faturamento etc. Aí, a cada seis meses ou um ano, é feita uma avaliação para ver se essa empresa está atingindo as metas ou não. Só que isso não passa pelas minhas mãos. Existe uma comissão - construída por funcionários municipais, sindicatos etc. - que avalia a empresa.
JC - Qual a sua avaliação da participação dos negros na política brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul?
Tânia - A participação dos negros, assim como a das mulheres, ainda é inferior ao que gostaríamos. Apesar de os partidos terem cotas para as mulheres - o que é muito importante para a participação na política -, temos que nos empoderar e nos apoderar. Acredito em uma política partidária democrática, em que o voto ocorra por causa dos projetos ou daquilo que os candidatos pretendem fazer para a sociedade. Não quero acreditar que as pessoas votem pela cor da pele ou por ser mulher. Acredito que isso não é democracia. Precisamos acreditar e levar os nossos projetos, mas enquanto pessoas. Existe um número pequeno (de negros e mulheres na política)? Existe. Mas o incentivo para as pessoas entrarem na política é uma construção que devemos fazer enquanto pessoas, pais e mães, professores, amigos.
JC - A senhora foi a primeira prefeita negra eleita em uma cidade conhecida pela matriz germânica...
Tânia - Muitas pessoas me fazem essa pergunta: "Nossa, como tu tens sorte de ser prefeita. Como conseguiste a votação?". Tenho sorte, sim. Sorte por ter saúde, uma família maravilhosa e tudo o mais. Só que tem que ter sorte aliada ao trabalho. Quando Deus me deu a oportunidade de ter o que tenho hoje, ele não me encontrou deitada, me lamentando. "Ai, coitada da Tânia, uma pobrezinha, está dentro de casa sofrendo." Não. Me encontrou trabalhando. Então, quando concorri ao cargo de prefeita na eleição de 2012, já tinha uma credencial. Tinha sido eleita, em 1996, a primeira vereadora negra do município de Dois Irmãos, a segunda vereadora mulher da cidade. Em 2000, fiquei na suplência de vereadora. Em 2004, não concorri. Aí, em 2008, fui a vereadora mais votada. Inclusive, nesse mandato, fui presidente na Câmara de Vereadores. Então é muito difícil, para mim, falar de racismo, de preconceito, porque essa comunidade acreditou nos nossos projetos. E pode ter certeza que eles não votaram em mim por eu ser mulher ou pela cor da minha pele, mas por acreditar que eu poderia fazer a diferença na vida deles.
JC - Qual a importância das cotas na participação dos negros e das mulheres na política?
Tânia - Vamos analisar as cotas femininas dentro dos partidos. Por conta das cotas, um partido deveria buscar lideranças femininas na comunidade. Mas o que vejo acontecer nos partidos é outra coisa, infelizmente. Quando chega o período pré-eleitoral, as siglas começam a filiar candidatas mulheres, mas sequer saem para fazer campanha. Fazem isso porque, quanto mais mulheres se candidatando, maior a quantidade de candidatos homens (as legendas devem lançar 30% de candidatas mulheres). Por isso, são candidatas que têm dois votos, que não fizeram nenhum voto, nem elas votaram nelas. Então, de um lado, existe quem faz a proposta da candidatura-laranja; e, de outro, existe a mulher que aceita ser essa candidata, que não vai fazer campanha, que não vai buscar os votos e, às vezes, até faz campanha para outro candidato. E não é isso o que queremos. Queremos que os partidos nos enxerguem. Temos que fazer as mudanças (dentro dos diretórios partidários) para estar nesse espaço. Mas as cotas femininas foram importantes? De certo modo, foram, porque fizeram com que os partidos olhassem a mulher como um agente partidário.
JC - O diretório nacional do PSL está sendo investigado justamente por ter lançado candidatas-laranja. Uma punição nesse caso pode servir como exemplo para evitar que isso se repita?
Tânia - Acredito que sim. Pelo menos, acende uma luz de alerta para que não aconteça isso em outras legendas. O meu sonho - que vai se tornar realidade um dia - é que não tenhamos mais cotas, que não seja mais necessário ter cotas femininas para as eleições, pois, espontaneamente, haveria a participação de todos. Defendo, por exemplo, que um partido deve ter ideologia partidária. Devemos saber por que estamos nessa ou naquela legenda. O partido deve ter união, e não pequenas alas: "Ah, sou da ala jovem, da ala feminina etc.". Ok. Mas o que vocês defendem? Quais são as ideias dentro dessas alas? É a ideologia partidária que acreditamos ser a correta? Ou é aquela do meu umbigo, pela minha cor, pelo meu gênero? Então essas discussões precisam ser aprofundadas.
JC - Qual a ideologia do MDB, que a fez se filiar à legenda?
Tânia - Estou filiada ao MDB desde 1995, porque acredito que tem pessoas articuladas, capazes, que atuaram muito bem na Constituinte. Inclusive, neste momento, podem atuar sem ser esquerda ou direita. Nenhum dos extremos é bom. Abrir mão aqui, abrir mão ali, para conseguirmos construir um País melhor. Como posso dizer que tudo que a esquerda faz está errado? Ou que tudo que a direita faz está errado? Acho, inclusive, que essa postura fragilizou muito o Rio Grande do Sul: quando se troca uma gestão, se perde muita energia desqualificando a administração anterior; se leva praticamente um ano para dizer que o governo anterior estava errado, que deixou uma situação ruim. Na minha avaliação, acabou a eleição, virou o ano, vamos arregaçar as mangas e trabalhar. Como prefeita, não tenho partido. O meu partido é o município de Dois Irmãos. E assim deveria ser com o governador e o presidente, porque também estão governando para as pessoas que não votaram neles.
JC - A senhora mencionou a participação de lideranças emedebistas na Constituinte. Líderes nacionais - como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) - têm falado em uma nova Constituinte, porque a atual ofereceria muitos direitos, tornando inviável a gestão pública?
Tânia - O texto constitucional oferece muitos direitos, mas, na vida como ela é, a fiscalização é frágil. Apesar disso, houve uma evolução nos últimos anos. Por exemplo, teve a lei que tornou racismo crime, a lei que coíbe a violência contra a mulher. Mesmo assim, a Constituição de 1988 deve ser revisada em alguns pontos.
JC - Por exemplo?
Tânia - A Constituição fala muito de direitos. Está na hora de também empregarmos os deveres. Tem que ter os direitos, sim. Mas qual o dever do cidadão para ajudar que as políticas públicas deem certo? Por exemplo, Bolsa Família. Para mim, não é orgulho nenhum ter Bolsa Família no meu município. Seria um orgulho dizer que todos estão empregados, as famílias estão organizadas e tudo o mais. O programa é ótimo, mas qual é a contrapartida da família? Não podemos obrigar essa família a fazer cursos para se aprimorar. Só podemos ofertar, não obrigar.

Perfil

Natural de Novo Hamburgo, Tânia Terezinha da Silva nasceu em 16 de julho de 1963. Adotou Dois Irmãos no início da década de 1990, ao passar em um concurso público para técnica em enfermagem. Mudou-se com a família para a cidade. Em 1995, recebeu o convite para se filiar ao PMDB (hoje, MDB). No mesmo ano, conseguiu se eleger a quarta vereadora mais votada da Câmara Municipal. Em 2000, sem conquistar a reeleição, assumiu a coordenação do Posto 24 horas. Em 2008, elegeu-se outra vez para a vereança, com a maior votação em Dois Irmãos. Neste mandato, foi presidente da Câmara durante o ano de 2010. Em seguida, foi convidada a concorrer a prefeita, ao lado do atual vice-prefeito Jerri Adriani Meneghetti (PP), por meio da coalizão (MDB-PP-PTB), sagrando-se a primeira prefeita mulher de Dois Irmãos. Também foi a primeira negra chefe do Executivo na cidade de colonização alemã. Em 2016, reelegeu-se para a prefeitura. No ano de 2018, Tânia presidiu a Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (Amvars) e o Consórcio Público da Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (CP Sinos). Atualmente, é vice-presidente da Amvars e do CP Sinos.