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MEMÓRIA

- Publicada em 22 de Dezembro de 2014 às 00:00

Homenagem a Lupicínio recria a Ilhota


GOOGLE/REPRODUÇÃO/JC
Jornal do Comércio
O sambista Lupicínio Rodrigues nasceu em 19 de setembro de 1914, em um casebre do bairro Ilhota – surgido sobre um charco alagado em 1905, nos arredores da Praça Garibaldi, depois de o intendente José Montaury ter alterado o curso de alguns córregos que cortavam a cidade. Por um lado, o lugar era conhecido pela precariedade, falta de infraestrutura, alagamentos frequentes, epidemias, violência. Por outro, pelas manifestações culturais negras, blocos de Carnaval, rodas de samba, vida boêmia. Lupicínio transitou pelas dificuldades e alegrias da Ilhota, traduzindo a vida daquelas pessoas em canções: histórias de amor que se desenrolaram entre os barracões; noivados que fracassaram entre as ruas embarradas; emoções saboreadas nos bares da redondeza, como o Garibaldi e o Restaurante Copacabana.
O sambista Lupicínio Rodrigues nasceu em 19 de setembro de 1914, em um casebre do bairro Ilhota – surgido sobre um charco alagado em 1905, nos arredores da Praça Garibaldi, depois de o intendente José Montaury ter alterado o curso de alguns córregos que cortavam a cidade. Por um lado, o lugar era conhecido pela precariedade, falta de infraestrutura, alagamentos frequentes, epidemias, violência. Por outro, pelas manifestações culturais negras, blocos de Carnaval, rodas de samba, vida boêmia. Lupicínio transitou pelas dificuldades e alegrias da Ilhota, traduzindo a vida daquelas pessoas em canções: histórias de amor que se desenrolaram entre os barracões; noivados que fracassaram entre as ruas embarradas; emoções saboreadas nos bares da redondeza, como o Garibaldi e o Restaurante Copacabana.
O compositor morou lá até meados dos anos 1950, o suficiente para tornar-se uma das personalidades mais notórias da vila. Por conta do centenário de nascimento do compositor, a Câmara Municipal de Porto Alegre decidiu homenageá-lo através de um projeto de lei que recria o bairro Ilhota. A matéria, aprovada na quinta-feira, aguarda sanção do prefeito José Fortunati (PDT). A proposta dos vereadores é transformar a área da Ilhota em um espaço cultural e turístico. “Existem dois porto-alegrenses ilustres que moraram na Ilhota: o Lupicínio e o jogador Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha. Queremos homenagear essas grandes figuras. Principalmente, neste ano, em que comemoramos o centenário do Lupicínio. A ideia é que o novo bairro seja um lugar estritamente cultural, como o Caminito, em Buenos Aires”, explicou o presidente da Câmara, vereador Professor Garcia (PMDB).
O texto subscrito pela Mesa Diretora da Câmara circunscreve a nova Ilhota a uma área contornada pela Avenida Érico Veríssimo, incluindo o Ginásio Tesourinha e o Centro Municipal de Cultura, segue pela rua Marechal Setembrino de Carvalho, incluindo a Praça Lupicínio Rodrigues, até encontrar a rua Almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva. Segundo Garcia, o traçado do bairro tomou o cuidado para não afetar nenhuma residência, pois, os parlamentares “não querem criar polêmicas com os moradores” dos bairros circunvizinhos – Menino Deus, Cidade Baixa e Azenha. As “polêmicas” estariam relacionadas com a péssima reputação da Ilhota, que transbordava não só para os bairros vizinhos, como também para toda a cidade – junto com as inundações que acometiam a vila sempre que chovia.
Como a Ilhota existiu até 1979, quando a prefeitura transferiu a população para a Restinga, muitos habitantes dos bairros vizinhos presenciaram o cotidiano daquele lugar. Alguns ainda se lembram do estigma que os porto-alegrenses dispensavam à vila.

Bairro trouxe inspiração ao compositor

O garçom mais antigo do Copacabana, Eloi Martins, embora não tenha morado na Ilhota, frequentou o logradouro durante muitos anos, pois, participava da organização dos blocos de Carnaval que surgiram naquelas ruelas.
“Toda a cidade sabia que havia muita bandidagem lá. Mas a maioria das pessoas era trabalhadora. Mas passavam dificuldades, porque, os riachos que cortavam o terreno inundavam a qualquer chuva”, relembrou Martins.
A obra de Lupicínio também atesta as mazelas enfrentadas pelos moradores do local. Muitos personagens das suas canções – inspirados em amigos, namoradas e conhecidos da Ilhota – vivem desilusões amorosas em cenários desoladores. Maria Rosa é um exemplo que passeia – miserável e desiludida – pela melodia triste do compositor.
“Vocês estão vendo aquela mulher de cabelos brancos/ Vestindo farrapos, calçando tamancos/ Pedindo nas portas pedaços de pão?”, entoava Lupicínio com voz piedosa à sina de Maria Rosa, que foi um dos primeiros amores do sambista, como atestou em 1973, em uma entrevista ao Programa MPB Especial, da Fundação Padre Anchieta.
Da mesma forma que os morros cariocas, a Ilhota acumulava nos seus 22 hectares tanta miséria quanto riqueza cultural. Foi na vila porto-alegrense, por exemplo, que surgiram os primeiros cordões (blocos de Carnaval) da cidade. Inclusive, Lupicínio compôs sua primeira marchinha para um desses blocos – os Prediletos. Martins se recorda daquela efervescência. “Tinham muitos blocos: o Jacaré, Democratas, Caetés. Eles partiam do começo da avenida Getúlio Vargas, que ficava no meio da Ilhota. Embora a população tivesse uma imagem negativa da vila, todo mundo participava do carnaval”, comentou.
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