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Publicada em 06 de Novembro de 2026 às 14:00

Os fandoms e a política brasileira em 2026

Sarah Melo, jornalista e coordenadora de comunicação do Livres

Sarah Melo, jornalista e coordenadora de comunicação do Livres

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Sarah Melo

Em 31 de agosto de 2026, um ministro de Estado leu no Palácio do Planalto uma lista que nenhum cerimonial imaginou: BTS, Blackpink, Taylor Swift, Lady Gaga, Olivia Rodrigo. O evento era o lançamento de decretos contra o cambismo digital, e entre os convidados estavam fandoms, as comunidades organizadas de fãs. No X (antigo Twitter), alguém comentou que nunca pensou em ouvir aquela sequência de palavras na política brasileira. Dois meses depois, o resultado das urnas obriga muita gente a revisitar o episódio e talvez o próprio desdém sobre cultura pop.

Fandom é uma rede de indivíduos com hierarquia, divisão de tarefas, metas de streaming, mutirões de votação em premiações e uma capacidade invejável de colocar uma hashtag no topo em minutos. Essa infraestrutura não necessariamente nasceu para a política, mas foi migrando para ela. Desde 2018, é significante a mobilização de fã-clubes e artistas pop para que adolescentes de 16 e 17 anos tirassem o título de eleitor. Em 2026, o fenômeno mudou de patamar: segundo o The Guardian, citado pela Variety, mais de 600 grupos de fãs declararam apoio à candidatura do presidente Lula na reta final, numa mobilização que ganhou força depois que Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno. Três semanas depois, Lula virou e venceu com 51,79% dos votos válidos. Num comício na Avenida Paulista, o candidato eleito chegou a brincar que não sabia se chamava a plateia de camaradas ou de fãs.

Quanto disso virou voto? Não dá para saber, e quem garantir o contrário está vendendo alguma coisa. Nenhuma pesquisa isola o efeito de um fã-clube, engajamento em rede social é métrica traiçoeira e fãs de um mesmo artista não pensam igual. O que dá para fazer é uma leitura de outra natureza: estética, de ocupação de espaço e de linguagem. Quando a gramática dos fandoms, com seus memes, edits, códigos internos e senso de pertencimento, entra no debate eleitoral, ela muda quem se sente autorizado a falar de política e como se fala dela.

A lógica de fã, aliás, não é exclusividade de um campo. A relação da direita brasileira com suas lideranças na última década foi descrita por muitos analistas em termos parecidos, com mito, iconografia e militância de base. A novidade de 2026 é que os fandoms da cultura pop entraram no jogo de forma organizada e visível, oficialmente, numa campanha presidencial.

Aqui mora um preconceito antigo. É comum, de jornalistas a acadêmicos, ver o discurso sobre cultura pop orbitar nas camadas de coisa menor, entretenimento descartável, arte lowbrow – justamente por ser popular. Comentaristas que passaram anos ignorando o que acontecia nos fandoms agora correm para entendê-los. A cantora neozelandesa Lorde, que sempre defendeu o pop contra esse desdém, resumiu numa entrevista de 2025 o que eles deixaram passar: "acho a música pop tão incrível porque ela é sobre o coletivo". O pop é, por definição, um fenômeno de multidão. Não surpreende que saiba mobilizá-la.

Os fandoms lembram à política três coisas que ela insiste em esquecer: jovens querem e sabem ocupar espaço, artistas da cultura pop têm voz pública legítima e estética é política. A forma como uma mensagem circula diz tanto quanto o seu conteúdo — e até defendo que sequer faz sentido separar um do outro.

Há, porém, um alerta que não podemos deixar de fazer. A lógica do fã é a da devoção, e a democracia precisa de cidadãos capazes de cobrar quem apoiam. Quando o candidato vira ídolo, é mais provável que a crítica vire traição e o adversário vire inimigo. O desafio dos próximos anos é aproveitar a energia cívica desses grupos sem transformar a política num campeonato de torcidas. Fã também vota. Que vote, então, como cidadão.

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