Gregório José
A escalada da violência, os saques ao comércio e a deterioração do poder de compra expõem os limites de um governo incapaz de conciliar a pesada estrutura fiscal francesa, a qualidade dos serviços públicos e a preservação da ordem.
A França volta a enfrentar uma crise que ultrapassa as barricadas e as vitrines destruídas. Os acontecimentos de outubro de 2026, marcados por manifestações contra o custo de vida, protestos estudantis, confrontos com policiais e saques a estabelecimentos comerciais, expõem uma ferida política cada vez mais profunda: a distância entre aquilo que o Estado cobra da sociedade e aquilo que consegue entregar em troca.
O presidente Emmanuel Macron, no poder desde 2017, vê sua autoridade política submetida a mais uma prova decisiva. Quando milhares de cidadãos protestam, comerciantes fecham as portas por medo de saques e o governo precisa recorrer a restrições localizadas de circulação para restabelecer a tranquilidade, já não basta repetir promessas de reformas ou invocar a necessidade de sacrifícios. É preciso demonstrar capacidade de governar.
As manifestações mostraram cenas graves de violência em Paris e em outras cidades francesas. Reportagens do Le Monde documentaram lojas saqueadas, vitrines destruídas, incêndios e ataques contra policiais. Comerciantes relataram prejuízos expressivos e dificuldades para proteger os próprios estabelecimentos.
O governo francês anunciou medidas para restabelecer a ordem, incluindo restrições localizadas de circulação e o reforço da resposta judicial. A dimensão da crise levou as autoridades a discutir também medidas de apoio aos comerciantes atingidos pelos saques e pelas depredações.
É necessário fazer uma distinção elementar, frequentemente obscurecida pelo debate político: protestar é um direito; agredir policiais, intimidar cidadãos, incendiar edifícios e saquear lojas são atos que exigem responsabilização individual.
Uma sociedade democrática não pode exigir respeito às instituições enquanto tolera que grupos violentos transformem as ruas em territórios de intimidação. Tampouco pode aceitar que o pequeno comerciante, o funcionário que depende do transporte público ou a família que precisa circular pela cidade se tornem reféns de conflitos que não provocaram.
A violência não é uma política econômica. O saque não aumenta salários. A destruição de uma loja não reduz o preço dos alimentos. E atacar um policial não melhora as condições de ensino.