Fábio Cunha de Andrade
Quando decidi ser médico, foi uma escolha muito pessoal. Naquele momento, eu ainda não sabia quantas outras decisões viriam pela frente, da formação à especialidade e aos rumos da carreira. Com o tempo, aprendi a lidar com a responsabilidade de cada uma delas. Também percebi que, na medicina, nada do que construí de mais importante foi feito sozinho.
Essa percepção começou ainda na formação. Na faculdade, foram professores e colegas que me mostraram o valor da troca. Na residência, vieram as dúvidas compartilhadas e as jornadas intensas. Mais tarde, na prática profissional, passei a fazer parte de equipes em que cada pessoa contribui com seu conhecimento. Ou seja, mesmo quando a decisão final cabe ao médico, há uma rede de competências que sustenta aquele momento.
Na minha caminhada, aprendi a valorizar essas relações. A medicina exige estudo contínuo e também disposição para reconhecer que o olhar de outro profissional pode ampliar o nosso. Em situações complexas, essa troca não diminui a autonomia do médico. Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade profissional seja reconhecer quando o olhar do outro pode ampliar o nosso.
O paciente também faz parte dessa construção. Em cada consulta, estabelecemos um vínculo no qual conhecimento técnico e escuta caminham juntos. Afinal, não tratamos apenas exames, sintomas ou diagnósticos. Cuidamos de pessoas que chegam até nós com suas histórias e seus receios.
A dimensão coletiva da medicina ultrapassa o consultório. Instituições, hospitais, sociedades médicas e organizações que acompanham o profissional ao longo da carreira também ajudam a criar condições para que ele exerça a medicina e planeje seu futuro.
Por isso, vejo afinidade entre a medicina e o cooperativismo. Nos dois casos, a autonomia individual convive com a construção conjunta. Cooperar não significa abrir mão das próprias decisões, mas entender que compartilhar conhecimento e responsabilidades fortalece o que construímos juntos.
Celebrar uma profissão também é reconhecer as relações que a tornam possível. A medicina sempre começa com uma escolha individual, mas ganha força quando conhecimento, confiança e responsabilidades são compartilhados. Ninguém constrói essa trajetória sozinho.
Continue sua leitura, escolha seu plano agora!