Eliana Camejo
Existe um documento que ninguém assinou e que já está valendo dentro das empresas. É uma procuração em branco entregue à inteligência artificial. Nenhum conselho deliberou sobre isso. Nenhuma ata registrou. Ainda assim, sistemas escolhem currículos, classificam clientes, sugerem quem merece crédito, priorizam denúncias e ajudam a definir respostas. Cada uma dessas tarefas carrega poder real. E poder entregue sem limite é uma procuração em branco.
Quando um executivo recebe autoridade para gastar, contratar ou assinar, existe uma matriz de alçada. Há limites claros, registros formais e alguém responsável. Com algoritmos, quase nada disso foi criado. Se a empresa tem matriz de alçada financeira, precisa construir também uma matriz de alçada algorítmica.
Pode parecer um tema restrito à tecnologia. Não é. Um sistema mal supervisionado pode descartar candidatos por padrões discriminatórios, negar crédito sem explicação e tratar dados sensíveis sem controle. Ele parece neutro porque é técnico, mas pode reproduzir vieses humanos em grande escala. A ausência de intenção não elimina a responsabilidade.
Ninguém precisa saber programar para participar desse debate. O dever de cuidado exige perguntas simples: onde a empresa utiliza inteligência artificial? Que decisões esses sistemas influenciam? Quais critérios foram definidos? Quem validou esses modelos? Quem acompanha vieses? Quem explica uma decisão automatizada quando alguém a contesta?
A inteligência artificial também precisa ser analisada pela lente ESG. É social quando interfere em oportunidades e direitos. É ambiental quando envolve consumo de energia e infraestrutura. É governança quando influencia decisões relevantes sem transparência ou definição clara de responsabilidades.
Governar a IA não significa frear a inovação. Significa garantir que o avanço tecnológico esteja acompanhado de responsabilidade. A tecnologia pode ampliar capacidades, reduzir custos e gerar eficiência, mas não pode substituir a decisão consciente de quem responde.
A pergunta que chegará aos conselhos não será apenas quanto a empresa ganhou com inteligência artificial. Será quem autorizou essa delegação de poder, quais limites foram estabelecidos e sob supervisão de quem.
A IA já entrou nas empresas. Falta incorporá-la à governança.
Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC