Sergio Stock
A expressão que dá título a esse artigo, totalmente pejorativa, teria surgido logo após a enchente de 1941. Traumatizadas, muitas pessoas vagavam sem rumo, tinham dificuldade de falar e de se relacionar. Viviam “aéreas”. Acabaram sendo chamadas de abobadas, forma de tratar quem sofria de algum problema de saúde mental. Não demorou para se tornarem os abobados da enchente. Era gente com tristeza profunda, ansiedade, depressão.
Durante muito tempo a expressão foi usada para criticar o comportamento de alguém que estivesse desatento ou cometesse algum erro.
Hoje é inimaginável que se trate alguém assim, principalmente quem realmente sofre de uma moléstia psíquica. É uma agressão, um desrespeito e em nada contribui para ajudar ou resolver o problema.
Os avanços da ciência nos permitem enxergar com muito mais clareza aquilo que 85 anos atrás era praticamente invisível. Psiquiatras e psicólogos são profissionais que se popularizaram e há bastante procura por esses especialistas, o que é muito bom.
Considerando as enormes adversidades enfrentadas pelos gaúchos nos últimos anos, é natural que haja um crescimento das doenças que afetam a saúde mental até e derivam para danos físicos.
A pandemia, que trancafiou quase todo mundo em casa, e a enchente de 2024 foram como mísseis lançados contra a nossa capacidade racional. A pandemia um pouco mais diluída porque afetou o mundo todo. Já a enchente se concentrou aqui no nosso território. Portanto, problema nosso!
Existem outras causas que afetam o bem-estar. Endividamento, falta de perspectiva, desilusões amorosas e outras. Mas a catástrofe de 2024 tem um peso gigantesco.
Estamos no Setembro Amarelo, mês de conscientização para a prevenção ao suicídio. Faz-se mais do que necessário e urgente uma ação efetiva do sistema público de saúde. Um olhar aprofundado e dedicado, na ampliação dos atendimentos e no encaminhamento de tratamentos eficazes. Mais estruturas de atendimento. Mais tempo de tratamento. Disponibilidade de medicamentos e aplicação de terapias reconhecidas.
Evidente que isso tem custo. Mas o custo de uma sociedade doente é muito maior. Por exemplo: quem tem a saúde mental abalada trabalha mal, ou nem trabalha, e isso impacta na produção e na renda das pessoas.
Cabe ao poder público estabelecer a diretriz de um sistema de saúde mais robusto. Compete a ele o gerenciamento da saúde. É imperioso investir na recuperação de quem está doente. A não ser que queiramos deixar tudo como está e voltar a chamar as pessoas de abobadas da enchente.