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Publicada em 03 de Setembro de 2026 às 14:00

Ler exige tempo. E estamos ensinando às crianças a ter pressa

Rachel Guanabara, diretora ESB Rio de Janeiro

Rachel Guanabara, diretora ESB Rio de Janeiro

ESB/Divulgação/JC
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Jornal do Comércio
Rachel Guanabara

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Uma criança pode descobrir em segundos como funciona o sistema solar, assistir a uma experiência científica realizada do outro lado do mundo ou encontrar uma explicação sobre praticamente qualquer assunto. Essa disponibilidade representa uma oportunidade extraordinária para a educação. Ao mesmo tempo, trouxe um desafio que começa a ocupar silenciosamente às salas de aula: como ensinar profundidade em uma sociedade organizada para disputar segundos de atenção?
Vídeos curtos, notificações e rolagem infinita não são apenas novos formatos de entretenimento. Eles fazem parte de um ambiente (ou de um design?) no qual um conteúdo é rapidamente substituído pelo próximo. A leitura funciona de maneira diferente. Um livro não muda de assunto porque o leitor perdeu o interesse por alguns segundos. Um argumento complexo não entrega sua conclusão antes que se percorra o raciocínio. Interpretar exige permanecer, relacionar informações, recuperar o que foi apresentado anteriormente e, muitas vezes, voltar algumas páginas.
Essa diferença ajuda a explicar por que a discussão sobre telas não deveria ficar restrita ao número de horas diante dos dispositivos. Precisamos falar também sobre que tipo de atenção estamos exercitando.
Dados do PISA analisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a distração provocada por dispositivos digitais já é uma realidade relevante dentro das escolas. Em média, 65% dos estudantes relatam se distrair com seu uso durante pelo menos algumas aulas de matemática. No Brasil, esse percentual ultrapassa 80%. (Mas no Brasil celulares estão proibidos!!! Os alunos não podem olhar o aparelho durante as aulas de matemática). A organização também identifica associação entre distração digital e desempenho acadêmico inferior.
Pesquisas recentes começam a olhar especificamente para os vídeos curtos. Um estudo realizado com 376 crianças do ensino fundamental na Suíça, divulgado em 2026, encontrou associação entre maior consumo desse formato, resultados inferiores em leitura e comportamentos relacionados à desatenção e dificuldades de aprendizagem. Uma revisão sistemática publicada no mesmo ano, reunindo 42 estudos e 46.912 crianças, adolescentes e jovens, também identificou associações entre uso intenso e não estruturado de vídeos curtos e indicadores como desatenção, impulsividade e menor autorregulação.
É importante fazer uma ressalva: associação não significa causalidade. A ciência ainda investiga os efeitos desse ambiente sobre crianças e adolescentes, e seria precipitado responsabilizar uma única tecnologia por dificuldades que têm múltiplas origens. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais.
A neurociência nos ajuda a compreender por que a questão merece atenção. O neurocientista francês Stanislas Dehaene demonstrou em seus estudos que o cérebro humano não nasce programado para ler. Durante a alfabetização, ele reorganiza circuitos originalmente utilizados em outras funções visuais e linguísticas. É o chamado processo de reciclagem neuronal. Ler, portanto, é uma habilidade cultural construída por aprendizado e prática.
E a prática pressupõe tempo. Talvez esteja justamente aí uma das missões mais importantes da escola contemporânea. Durante décadas, discutimos como incorporar tecnologia à educação. Agora precisamos avançar para outra pergunta: quais experiências devemos preservar justamente porque o mundo digital não as oferece espontaneamente?
Ler um livro até o fim é uma delas. Escrever à mão, desenvolver um raciocínio sem interrompê-lo para consultar uma tela, conversar olhando para outra pessoa, pesquisar em materiais físicos, realizar atividades artísticas e até lidar com momentos de tédio são experiências que exercitam capacidades importantes para a formação intelectual.
Isso não significa defender uma escola analógica. Tecnologia e educação não são adversárias. Recursos digitais podem ampliar repertórios, democratizar conhecimentos e criar possibilidades extraordinárias de aprendizagem. O problema começa quando a lógica da velocidade passa a organizar todas as experiências.
Educar também significa ensinar que nem tudo precisa acontecer imediatamente. Uma dúvida pode exigir pesquisa. Uma história precisa de tempo para se desenvolver. Um problema complexo raramente cabe em poucos segundos. E uma opinião bem construída pressupõe contato com ideias diferentes, reflexão e capacidade de sustentar um raciocínio antes de chegar a uma conclusão.
Em uma sociedade que desenvolveu ferramentas cada vez mais eficientes para capturar nossa atenção, talvez uma das competências mais valiosas que possamos oferecer às novas gerações seja justamente a capacidade de administrá-la.
A escola do futuro certamente terá mais tecnologia. Mas precisará também preservar aquilo que nenhuma plataforma pode fazer pelo estudante: aprender a permanecer diante de uma ideia, aprofundá-la, questioná-la e construir o próprio pensamento.
Ensinar a ler continuará sendo essencial. Ensinar a desacelerar para compreender o que se lê talvez seja igualmente importante.
Diretora ESB Rio de Janeiro

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