André Zachary
Sempre que uma nova tecnologia financeira surge, a primeira pergunta costuma ser a mesma: ela veio para substituir o que já existe? Foi assim com o Pix, lançado em 2020, quando muitos acreditavam que ele substituiria cartões, TEDs e boletos. Agora, com o avanço das criptomoedas, das stablecoins e da tokenização de ativos, a dúvida reaparece: essas tecnologias competem entre si ou caminham para um mesmo ecossistema?
A resposta aponta para a segunda alternativa. Mais do que disputar espaço, Pix, criptomoedas e stablecoins vêm assumindo funções complementares na economia digital. Cada tecnologia resolve um problema específico e, juntas, contribuem para uma infraestrutura financeira mais integrada, eficiente e global.
Os números ajudam a explicar essa transformação. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de brasileiros já utilizaram o Pix, que movimentou mais de 7 bilhões de transações apenas em maio de 2026. O sistema também registrou um recorde de 313,3 milhões de operações em um único dia, consolidando-se como o principal meio de pagamento instantâneo do país.
Ao mesmo tempo, o mercado de ativos digitais também evoluiu rapidamente. Dados da Receita Federal mostram que as stablecoins já representam cerca de 80% do volume declarado de criptoativos no Brasil. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram registrados aproximadamente R$1,13 trilhão em operações com esses ativos.
Esse movimento revela uma mudança importante. As stablecoins deixaram de ser utilizadas apenas como instrumento de negociação de criptomoedas para se consolidarem como uma infraestrutura eficiente para pagamentos internacionais, remessas, proteção cambial e liquidação financeira praticamente em tempo real, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
É justamente nesse ponto que a complementaridade fica evidente. O Pix revolucionou os pagamentos domésticos, permitindo transferências instantâneas entre contas bancárias brasileiras. Já as stablecoins solucionam desafios que ainda persistem nas operações internacionais, como liquidação em dólar digital, redução de custos de remessas e integração entre diferentes sistemas financeiros.
Na prática, essas tecnologias já começam a operar de forma integrada. Imagine uma empresa brasileira que exporta serviços para o exterior. Ela pode receber recursos em uma stablecoin lastreada em dólar, converter esse valor para reais e concluir o pagamento ao fornecedor via Pix em poucos segundos. Para o usuário, a experiência é simples. Nos bastidores, diferentes infraestruturas trabalham em conjunto.
Esse modelo híbrido tende a ganhar espaço justamente porque cada tecnologia resolve uma parte da jornada financeira. O cliente não precisa conhecer toda a infraestrutura envolvida. O que realmente importa é que a operação seja rápida, segura, transparente e com menor custo.
Essa convergência também é impulsionada pela evolução regulatória. Nos últimos anos, o Banco Central ampliou continuamente as funcionalidades do Pix, incorporando recursos como Pix por aproximação, Pix Automático e novas iniciativas voltadas à integração com o Open Finance e ao desenvolvimento do Pix Parcelado. Paralelamente, o mercado brasileiro de ativos digitais passou a operar sob um marco regulatório mais estruturado. As Resoluções nº 519, 520 e 521 estabeleceram regras para prestadores de serviços de ativos virtuais e aproximaram determinadas operações com stablecoins da infraestrutura financeira tradicional.
Isso não significa que o caminho esteja livre de desafios. Stablecoins exigem lastro auditável e gestão rigorosa de riscos, e sua adoção em escala depende de controles robustos de prevenção à lavagem de dinheiro e de plena aderência ao novo marco regulatório. Mas é justamente esse o ponto: a convergência entre essas tecnologias só se sustenta quando construída dentro do perímetro regulado, com a mesma seriedade que consolidou a confiança no Pix. A inovação que ignora essa etapa não simplifica o sistema financeiro e apenas transfere riscos para quem o utiliza.
Esse movimento acompanha uma tendência global. Segundo a Chainalysis, o Brasil já é o maior mercado de criptoativos da América Latina, tendo recebido aproximadamente US$318 bilhões em volume on-chain entre julho de 2024 e junho de 2025. Esse crescimento reflete a combinação de um sistema financeiro altamente digitalizado, um ecossistema maduro de bancos e fintechs e o avanço do uso das stablecoins em pagamentos internacionais e proteção cambial.
Diante desse cenário, a discussão deixa de ser "Pix versus criptomoedas". O verdadeiro debate passa a ser como integrar diferentes tecnologias para oferecer uma experiência mais eficiente aos usuários.
O consumidor continuará utilizando o Pix para pagar um restaurante, dividir uma conta entre amigos ou realizar uma transferência instantânea. Empresas que importam insumos, exportam serviços ou realizam operações internacionais, por sua vez, tendem a utilizar cada vez mais stablecoins para reduzir custos, acelerar liquidações e diminuir a dependência dos modelos tradicionais de remessas internacionais.
O resultado é o surgimento de uma arquitetura financeira híbrida, na qual sistemas bancários, blockchain, Open Finance e pagamentos instantâneos deixam de competir para funcionar de forma integrada.
Assim como a internet não substituiu os bancos, mas transformou profundamente a forma como os serviços financeiros são oferecidos, Pix, criptomoedas e stablecoins caminham para desempenhar papéis complementares. O futuro dos pagamentos dificilmente será dominado por uma única tecnologia. Ele será definido pela capacidade de conectar diferentes infraestruturas em uma experiência única, fluida e praticamente invisível para empresas e consumidores.
Mais do que escolher entre um sistema ou outro, o desafio das instituições financeiras passa a ser integrar essas soluções de forma segura, regulada e transparente. Quem conseguir construir essa ponte estará mais preparado para atender um mercado em que velocidade, interoperabilidade e experiência do usuário serão os principais diferenciais competitivos.
Diretor-executivo do Banco Braza