Henrique Torrescasana Trevisan
A economia brasileira vive um momento de contradição: o crescimento gerado pelos estímulos ao crédito e incentivos fiscais se choca com o aumento do endividamento e dos juros. Durante os últimos anos, a expansão do crédito e os programas de distribuição de renda criaram a ilusão de que o país estava no caminho certo. O consumo cresceu, a atividade econômica se expandiu e o Brasil parecia se recuperar, mas trata-se de um "crescimento artificial" que cedo ou tarde cobra seu preço.
Os estímulos ao crédito ocorreram em um contexto de inflação em alta, gerando um ciclo de crescimento contrário à política monetária do Banco Central, que aumentou as taxas de juros para conter a inflação. Inicialmente, o aumento da renda e do crédito parecia sustentável, mas, com a alta dos juros, as parcelas das dívidas começaram a consumir uma parte cada vez maior da renda das famílias. O endividamento cresceu e o peso das dívidas aumentou, restando menos renda para consumo e investimento na economia real.
O encarecimento do crédito e o alto endividamento criam uma bola de neve. A inadimplência cresce, o crédito se torna mais escasso e o consumo desacelera. O que parecia ser um caminho de crescimento revela as fissuras de um modelo insustentável, alimentado pela ilusão de prosperidade por meio do endividamento e de incentivos insustentáveis no longo prazo.
Esse modelo de crescimento não foi acompanhado de reformas estruturais que garantissem sua sustentabilidade. Não houve ganho significativo de produtividade ou mudanças capazes de manter o crescimento sem depender de incentivos financeiros. O Brasil apostou na ideia de que mais crédito significaria mais crescimento, mas agora enfrenta os custos desse excesso, com uma economia endividada e vulnerável.
O dilema do Brasil é evidente: seguir apostando no crescimento imediato por meio de crédito e incentivos fiscais ou investir em um modelo sustentável baseado em reformas estruturais, ganho de produtividade e maior competitividade. O País precisa decidir se quer continuar alimentando uma expansão efêmera ou construir bases sólidas para um crescimento duradouro. A escolha feita agora definirá não apenas o ritmo da economia nos próximos anos, mas também a capacidade de enfrentar crises sem depender de endividamento e estímulos temporários.
Economista, sócio da Bateleur e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)