O hábito de desnudar-se como protesto ou por qualquer outro motivo, e até mesmo sem nenhum, tornou-se epidemia universal. Em um amplo significado, o ato indiscutivelmente exibicionista traduz o propósito de atrair a atenção para um “self” desvalorizado, ao utilizarem os genitais para seduzir e despertar o voyeurismo - que consiste no prazer de contemplar uma pessoa no ato de despir-se. As pessoas que saem a desnudar-se publicamente, com o propósito consciente de apoiar causas sociais ou de combater injustiças, inconscientemente estão dramatizando a imanência do complexo de castração e a existência de um profundo sentimento de insegurança.
Além de exibirem os órgãos de reprodução com o intuito de valerem-se do sensacionalismo, a fim de definir a identidade de gênero à qual pertencem, os protagonistas do exibicionismo explícito utilizam-se disso como um certificado discriminatório, para definir a condição masculina ou feminina, a identidade do sexo a que pertencem.
O sentimento de vergonha e decoro que a criança normal experimenta na pré-adolescência, com a chegada dos caracteres sexuais secundários, na atualidade, está ausente. A adolescência é uma quadra da vida em que o ser humano assume, ou não, a idade adulta, e que mais se identifica com os pais; dessa opção estabelecerá a eleição da identidade preferida. É a idade em que o pré-adolescente diante do espelho assusta-se com a brusca metamorfose somática de seu esquema corporal. Na desnudez coletiva de agora, os órgãos genitais, ocultos há milênios, são agora destapados para serem cobiçados e excitarem a multidão, além de promoverem o rompimento das comportas de interdições milenares. Os promotores do ato anômalo exercem um pacto sádico, já que oferecem, à distância, um produto cobiçado, que dá “vitrine”, não sai, reproduzindo a cena de um rei mítico que, amarrado pelos pés, à distância de alguns centímetros, observa os que dele se aproximam, sem, contudo, conseguir alcançá-lo.
Psicanalista e jornalista