* De Santana do Livramento
Quase 500 quilômetros separam Porto Alegre de Santana do Livramento, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. O pago santanense fica ainda mais distante de Dionísio Cerqueira, na Fronteira brasileira com a Argentina, de onde partia um corcel azul que migrava do Paraná rumo ao extremo Sul do País. “Eu me lembro até hoje do cheiro do carro”, lembra, nostálgico, o empresário Raed Shweiki, de 48 anos, que percorreu o trajeto aos cinco anos de idade, ao lado dos pais.
Filho de pai palestino, da cidade de Hebron, e mãe jordaniana, Raed herdou deles a vocação pelo comércio – área de forte atuação da comunidade árabe instalada na cidade. “A cultura árabe sempre foi do comércio. Ele surgiu com os fenícios, que percorriam o Mediterrâneo”, conta o empresário. A veia comerciante está tão intrínseca às famílias imigrantes que, quando questionado sobre quando começou a atuar no setor varejista, Raed responde, em tom bem humorado: “eu sou árabe! Já nasci dentro das lojas”.
A imigração árabe ao Brasil iniciou entre o final do século XIX e o começo do século XX, especialmente relacionado ao domínio do Império Turco-Otomano nos seus países e a perseguição perpetrada contra os árabes cristãos do Líbano e da Síria. Na sequência, os palestinos chegaram ao País, a partir da criação do Estado de Israel, em 1948, e a escalada dos conflitos na região.
No Brasil, foi no comércio que encontraram uma maneira de levar a vida. Inicialmente, desenvolveram a profissão de mascates. Depois, abriram pequenos negócios. E, hoje, comandam importantes lojas e até mesmo free shops em Santana do Livramento – o que leva o guia turístico e turismólogo Amir Omar a denominar informalmente a região central da cidade de “Bairro Árabe”.
A escolha da comunidade em se situar na fronteira brasileira com o Uruguai, para Raed, tem uma explicação. “As fronteiras sempre têm um comércio pujante, são dinâmicas. Aqui, tudo se dá um jeito. Uruguai e Brasil se misturam. Os primeiros árabes se instalaram aqui, abriram seus comércios e atraíram outros conterrâneos. Aí que se criaram as colônias nas fronteiras, em Uruguaiana, Foz do Iguaçu (Paraná), Santana do Livramento, Chuí, Bagé, Aceguá e outras. Até no Mato Grosso, tem. Onde tem fronteira, o comércio vai se instalando, agregando e trazendo pessoas”, avalia Raed.
Mas é válido ressaltar que a vocação comerciante, em muitos casos, surgiu no Brasil. Nas suas origens, muitos árabes que migraram ao Rio Grande do Sul tinham outras funções. Foi o caso, inclusive, do pai de Raed. “A gente brincava que ele era que nem o Seu Madruga (personagem do seriado Chaves), porque já trabalhou com tudo. Ele foi sapateiro, fabricante de perfume… Tudo que puder imaginar. Ele era um guri que veio para cá com 20 e poucos anos. E tinha um espírito descobridor, jovem, que queria sair para conhecer o mundo”, relembra.
Não à toa, percorreu diferentes cidades, até mesmo com uma temporada de retorno à Palestina, antes de retornar ao primeiro local em que se instalou quando chegou ao Brasil: Santana do Livramento. “É uma cidade que te acolhe”, conta Raed. Ali, ele iniciou seus negócios, que atualmente são quatro: duas lojas Casa Guri e duas Casa Palestina, todas do lado brasileiro da fronteira. Antes do pai de Raed falecer, a mãe dele começou a administrá-los e, atualmente, é o filho do casal quem se responsabiliza pelos empreendimentos.
“Você vê que a maioria dos free shops são de árabes ou descendentes de árabes. Então a influência do comércio, no lado brasileiro e no uruguaio, é formada com uma grande presença e ajuda da comunidade árabe, que já está na sua quarta ou até quinta geração. Tem árabes, hoje, que trabalham como profissionais liberais, médicos, advogados, etc. Mas a presença segue muito forte no comércio, que foi o que os uniu no início da imigração”, avalia Raed.
Atualmente, Santana do Livramento possui cerca de 700 pessoas de origem árabe, entre imigrantes e descendentes, conforme estima o presidente da Sociedade Árabe Palestina do município, Nasser Judeh. A associação, criada em 1980, realiza eventos de confraternização e reuniões da comunidade. De acordo com o dirigente, a maioria são palestinos e seus descendentes. Em escala menor, também integram o grupo libaneses, sírios e jordanianos. E a atuação econômica dessas nacionalidades é destacada por ele.
Loja Palestina é um dos empreendimentos de Raed Shweiki, que também empreende na Casas Guri
TÂNIA MEINERZ/JC
“No comércio é indiscutível a importância dos empresários de origem árabe na cidade, com muitos estabelecimentos comerciais, lojas e supermercados, gerando um importante número de empregos e contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da região. Sem falar na atuação beneficente e na ajuda aos mais carentes, inclusive nas calamidades climáticas, como as enchentes de 2024”, avalia Nasser.
Câmbio variável e economias binacionais afetam o comércio
Se o comércio já é afetado por variações macroeconômicas dentro de um único país, nas fronteiras, é necessário dar conta das flutuações de dois países. De mudanças no câmbio às crises, os empreendedores estão sujeitos aos riscos financeiros permanentemente.
No caso do pai do empresário Raed Shweiki, a mudança a Santana do Livramento se deu justamente após o fechamento de um negócio na fronteira paranaense com a Argentina, em virtude da crise econômica do país vizinho durante a Guerra das Malvinas, em 1982.
“Meu pai veio para o Brasil na década de 1950. Tivemos lojas em outras cidades, mas não dava certo, fechávamos e íamos para outro lugar. Quando viemos para Livramento, em 1982, foi por conta da guerra. Seis meses depois de abrirmos a loja, começou o conflito nas Malvinas. E tivemos que ir embora, porque não tinha o que fazer, a loja praticamente fechou. Não tinha ninguém na rua. Íamos esperar quebrar? Já estava praticamente quebrada. Lojas pequenas não têm muita cultura para queimar. E aí viemos para cá e fundamos uma das lojas mais antigas de Santana do Livramento em atividade no setor de calçados”, conta Raed.
Mesmo em solo gaúcho, ele segue vivenciando as variações econômicas. “Se acontecer do dólar vir a R$ 2,00, os free shops do lado uruguaio vão vender tudo. E nós vamos chupar o dedo. Porque é uma balança. Se for a R$ 10,00, por exemplo, venderemos para o mundo inteiro. As medidas econômicas precisam ser em doses homeopáticas, porque, se não, pode quebrar um determinado lado. No Uruguai, duas vezes os free shops quebraram”, aponta o empresário.