* De Ijuí
Um produto incolor, inodoro, altamente viscoso em temperatura ambiente, de sabor adocicado e com diferentes usos industriais. A glicerina refinada é a aposta da vez do Grupo Camera, de Ijuí, que inaugurou em janeiro deste ano uma nova planta industrial para o processamento do ingrediente, que é um subproduto da produção de biodiesel. O material é comercializado com a marca Raffinata.
Ao todo, são processadas 50 toneladas por dia de glicerina bruta, derivada do processo de transesterificação do biodiesel. A partir dela, são geradas 40 toneladas diárias de glicerina refinada e 2 toneladas de glicerina amarela. Enquanto a refinada é própria ao consumo, a amarela contém metais absorvidos pelos grãos utilizados na composição da matéria-prima e, portanto, é destinada a outros fins na indústria de transformação.
"A refinada é a nossa glicerina alimentícia, destinada para alimentos, xarope, pasta de dente entre outros cosméticos. Já a amarela tem os metais residuais, embora também tenha um grau de pureza bem elevado e valor de mercado. Ela não pode ser usada em alimentos, mas na fabricação de produtos como detergentes e sabão", explica o gerente de produção do Grupo Camera e engenheiro químico Vinícius Almeida.
Glicerina bruta (à esquerda) é transformada em glicerina amarela (centro) e glicerina refinada (à direita)
TÂNIA MEINERZ/JC
A empresa recebe grãos de soja e canola dos produtores rurais e as encaminha para as unidades de Santa Rosa e São Luiz Gonzaga, que, juntas, têm capacidade de processamento diário de 4,1 toneladas de soja e 700 toneladas de canola para a transformação em óleo e farelo de soja. De lá, o óleo extraído segue para Ijuí, onde é transformado em biodiesel desde 2011.
A Camera também está em expansão justamente no setor de biodiesel. Hoje, são produzidos mil metros cúbicos ao dia do combustível em Ijuí. Com obras de expansão já realizadas, a indústria espera ampliar a capacidade para 1,3 mil metros cúbicos ao dia até o fim de 2026. Ainda é esperada a licença de operação para o início das atividades. Os valores aportados não foram divulgados.
Planta de produção de biodiesel deverá ser expandida ainda este ano para gerar 1,3 mil metros cúbicos do combustível ao dia
TÂNIA MEINERZ/JC
Outro investimento é em uma nova caldeira. A atual, com capacidade de 12 toneladas de vapor por hora, não dá conta da atual produção. Por isso, está sendo construída uma nova estrutura com foco em 30 mil toneladas de vapor por hora. A antiga será desativada.
A logística dos produtos da Camera, entretanto, sofreu um revés recente: após as enchentes de 2024, alguns trechos da ferrovia que liga Cruz Alta — cidade vizinha a Ijuí — a Rio Grande ficaram inutilizáveis e não foram refeitos. Eles eram utilizados para o transporte de biodiesel. Com isso, o escoamento da produção passou a ser realizado completamente pelas rodovias, o que incide em problemas como um maior custo para o transporte.
Empresa tem a primeira fábrica brasileira exclusiva para o processamento de canola
O Grupo Camera foi pioneiro no cultivo de canola no Rio Grande do Sul. Há pouco mais de duas décadas, foi a empresa a responsável por trazer as primeiras sementes da planta à
Região das Missões. Em outubro de 2025, a colheita deu frutos: foi
inaugurada a primeira planta industrial brasileira dedicada exclusivamente ao processamento de canola, em São Luiz Gonzaga. O projeto foi feito em
parceria com a Celena Alimentos, batizada de Aliança Canola.
A unidade começou a ser construída em setembro de 2024. A empresa já possuía, no local, uma capacidade de absorver 1,5 mil toneladas de grãos de soja por dia. Com a novidade, passou a processar 700 toneladas de canola diariamente — volume que entre julho e agosto deverá crescer a mil toneladas diárias. Até então, os dois grãos eram processados na mesma estrutura, exigindo a parada de uma operação para dar início à outra. O produto, em sua maior parte, é direcionado a Ijuí para a produção do biodiesel e da glicerina refinada.
Engenheiro químico Vinícius Almeida é o gerente de produção responsável pela usina de produção de glicerina refinada
TÂNIA MEINERZ/JC
O Grupo Camera em números
- 12 empresas
- 12 mil agricultores parceiros
- 1,3 mil funcionários
- 46 unidades de originação de grãos e varejo agropecuário
- Presença em 67 municípios gaúchos
- Quatro parques industriais
- 1.000 metros cúbicos de biodiesel produzidos ao dia, com expansão prevista
- 50 toneladas de glicerina bruta processadas ao dia, gerando 40 toneladas de glicerina refinada e 2 toneladas de glicerina amarela
- 4,1 mil toneladas de soja processadas por dia
- 700 toneladas de canola processadas por dia, com expansão prevista
Unidades industriais
-
Santa Rosa: planta de processamento de soja e fábrica de ingredientes
-
São Luiz Gonzaga: planta de processamento de soja e planta de processamento de canola
-
Ijuí: usina de biodiesel e unidade de produção de glicerina refinada
-
Santo Cristo: fábrica de rações