Dos escombros deixados pela cheia histórica de dois anos atrás, Maurício Juchem, empreendedor de Arroio do Meio, encontrou uma oportunidade de negócio que tem sido fundamental para o redesenho da região mais atingida pela enxurrada. Ele recolhe, mói e recicla os materiais de construção deixados para trás nos bairros devastados, especialmente no Vale do Taquari.
Contratada pelo governo do Estado, a empresa Usinaldo Reciclagem de Obras deu destinação a 15 mil toneladas de estruturas destruídas em Cruzeiro do Sul. Recentemente, ele assinou um novo contrato para executar o mesmo trabalho, com a mesma quantidade de resíduos estimada, no município de Arroio do Meio.
“A partir do material que recolhemos, transformamos tudo isso em brita, vendida para os próprios municípios, cavaco de madeira, que usamos nos fornos da produção cerâmica, e metais que encaminhamos para empresas especializadas na reciclagem desse material. Nada se perde, evitamos um grande problema para as cidades com restos de obras e abrimos caminho para uma outra realidade nessas cidades”, explica Juchem.
Em toda a Macrorregião Central do Rio Grande do Sul, 30,4% do território foi inundado, atingindo quase 140 mil pessoas. O impacto na economia regional ainda não aparece em dados oficiais de PIB municipal. No entanto, ainda sem considerar o fator enxurrada, o levantamento do PIB das cidades de 2023 – o mais recente disponível – mostra que, em dois anos, mesmo com um crescimento do PIB regional de 8,06%, esta faixa central do Rio Grande do Sul já havia perdido espaço na economia gaúcha, reduzindo em 0,15 pontos percentuais a sua participação no PIB estadual.
Passados dois anos, o redesenho das cidades atingidas pela cheia vai definir um novo impulso, e, principalmente, terá recursos injetados na economia regional. Em Estrela, a região dos antigos bairros Marmitt e Moinhos, às margens do Rio Taquari, será transformada em uma espécie de cartão de visitas para este novo desenho. O local vai receber um parque linear resiliente, com a aplicação do conceito de cidade-esponja – métodos construtivos e de cobertura de solo favoráveis à infiltração de água, servindo como um amortecedor de cheias – na sua estruturação. O aporte de R$ 17 milhões já garantido pelo governo federal possibilitará a primeira parte de uma orla completamente revitalizada para o rio.
Na região onde fica o porto de Estrela, o município planeja um parque de eventos linear e resiliente, em uma área de 50 hectares que se estende até o Centro da cidade. Lá também já foi aprovado e há financiamento para desenvolver o novo calçamento, igualmente favorável à infiltração de água, no chamado Caminho do Rio. Fica na região central a antiga estrutura da cervejaria Polar, que se tornará o símbolo econômico dessa revitalização completa da orla.
“A enchente de 2024 atingiu 75% da nossa cidade, com 180 empresas destruídas. Agora, teremos, no Centro da cidade, de frente para o rio, uma estrutura toda reformada e renovada para pequenos empreendedores de Estrela que ainda estão tentando se reerguer, com o incentivo do município em uma parceria com o Estado”, diz a prefeita Carine Schwingel.
A partir de um convênio, o Estado custeará, com aporte de R$ 39 milhões, o restauro e reestruturação do complexo de 10 mil metros quadrados, com uma primeira etapa de R$ 19 milhões para a primeira fase do projeto. A proposta é ter ali um centro de inovação com espaço para a operação e desenvolvimento entre 120 e 150 pequenos negócios – todos comprovadamente atingidos pela enchente. Ainda não há prazo determinado para a execução de todas as partes dessa transformação.