Porto Alegre,

Publicada em 03 de Novembro de 2026 às 17:40

Pesquisas na Serra Gaúcha contribuem para a recuperação ambiental

Preservação das araucárias, que são impactadas anualmente pelo desmatamento, faz parte do escopo de estudos na região

Preservação das araucárias, que são impactadas anualmente pelo desmatamento, faz parte do escopo de estudos na região

PARADOR HAMPEL/DIVULGA??O/JC
Compartilhe:
Três projetos de pesquisa em andamento demonstram a contribuição da reserva do Pró-Mata para a ciência e a recuperação ambiental da Serra Gaúcha, de acordo com Glauco Schüssler, analista do Instituto do Meio Ambiente (IMA) da Pucrs. A intensa exploração madeireira que, no último século, reduziu drasticamente a quantidade e a diversidade genética das araucárias na Serra Gaúcha, prejudicando a capacidade da espécie de se adaptar às mudanças ambientais, está entre as motivações para o projeto "Restauração evolutiva e funcional em remanescente no Nordeste do RS (Araucária)".

Três projetos de pesquisa em andamento demonstram a contribuição da reserva do Pró-Mata para a ciência e a recuperação ambiental da Serra Gaúcha, de acordo com Glauco Schüssler, analista do Instituto do Meio Ambiente (IMA) da Pucrs. A intensa exploração madeireira que, no último século, reduziu drasticamente a quantidade e a diversidade genética das araucárias na Serra Gaúcha, prejudicando a capacidade da espécie de se adaptar às mudanças ambientais, está entre as motivações para o projeto "Restauração evolutiva e funcional em remanescente no Nordeste do RS (Araucária)".


O estudo analisa a dinâmica produtiva de pinhões da Araucaria angustifolia, espécie ameaçada de extinção, para restaurar sua demografia e diversidade genética local.


A iniciativa monitora 10 remanescentes florestais em bom estado de conservação, em um raio de 90 quilômetros, abrangendo os municípios de Cambará do Sul, Canela, Jaquirana, Nova Petrópolis e São Francisco de Paula. O trabalho busca árvores de grande porte (antigas) para a coleta de pinhões e a realização de enxertos de indivíduos específicos, acelerando a produção de sementes (pinhões). 


“Com a reintrodução desses genótipos de regiões vizinhas, o projeto pretende

plantar neste ano 5 mil pinhões, dando início aos primeiros reflorestamentos em três ou quatro anos. A longo prazo, a intenção é recuperar o protagonismo ecológico e ecossistêmico da espécie dentro da reserva”, explica Schüssler.


Crise climática também está em pauta
PRO MATA/DIVULGAÇÃO/CIDADES | PRO MATA/DIVULGAÇÃO/CIDADES
PRO MATA/DIVULGAÇÃO/CIDADES PRO MATA/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Agendar uma visita ao Pró-Mata no mês de outubro foi um desafio em função das constantes chuvas provocadas pelo super El Niño. Foram raros os dias secos e com maior visibilidade durante a primavera para a realização da reportagem. Nada que surpreenda os pesquisadores. O Centro de Excelência em Resiliência Climática e Bioinspiração para a Sustentabilidade é um dos destaques entre as iniciativas do IMA.
O coordenador do Laboratório de Desenvolvimento e Meio Ambiente, Osmar Tomaz de Souza, destaca que o projeto, financiado por universidades, empresas privadas e pela  Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) busca entender os impactos das mudanças climáticas na biodiversidade e na agropecuária da região. Por meio de ferramentas como drones, Inteligência Artificial,  satélites, entre outros, o monitoramento deverá repercutir na produção de tecnologias de mitigação desses impactos, como bioinsumos, protocolos para produção sustentável e mapas de uso do solo. “É um grande projeto que responde ao tema das mudanças climáticas e resiliência  usando tecnologias e oferecendo soluções para a região, favorecido pela localização estratégica da reserva”, destaca o pesquisador.
Os resultados esperados do projeto incluem a implementação de um sistema integrado e contínuo de monitoramento climático, atmosférico e ecológico capaz de medir precipitação, umidade, qualidade do ar, nutrientes do solo e emissões de gases de efeito estufa, além de gerar mapas de vulnerabilidade agrícola e modelos climáticos avançados que aprimorem a previsão de eventos extremos. Espera-se aprofundar o entendimento dos efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade nativa, as florestas, os campos e a agricultura dos Campos de Cima da Serra, produzindo diagnósticos sobre solo, água e biota, bem como bancos de dados inéditos sobre comunidades microbianas, flora, fauna e fluxos de carbono
Outro trabalho importante é o "Reflora - Resgate de DNA" e indução de florescimento de recursos genéticos em áreas afetadas pelas enchentes de 2024 no RS. O projeto tem foco em 34 espécies nativas ameaçadas, utilizando uma tecnologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV) baseada em enxertia e indução de florescimento ultraprecoce. A metodologia consiste na coleta de pelo menos 50 brotos do terço superior de árvores adultas isoladas ou em risco, os quais são transportados em caixas térmicas com gel até o local de enxertia. Em ambiente controlado, o material recebe doses de fitorreguladores para acelerar a produção de sementes, passando por monitoramento semanal de pragas e avaliações silviculturais até os 150 dias. 
“Os enxertos resultantes serão plantados em campo na forma de pomares de sementes quando atingirem cerca de um metro de altura”, afirma o biólogo Glauco Schüssler. A iniciativa é executada em parceria com universidades locais (Ufrgs, UFSM, Pucrs, Unisc) e o governo estadual. Ao final, o projeto entregará três casas de vegetação e 6 mil plantas enxertadas, consolidando a transferência de tecnologia para o Estado e criando um modelo replicável de restauração ecológica para enfrentar eventos climáticos extremos. Atualmente, os enxertos estão sendo realizados e os plantios estão previstos para o próximo ano, em áreas que ainda serão selecionadas.

Iniciativa que monitora a fauna regional teve início em 2020


Felino carnívoro, o puma ganhou um picolé de carne | Halder Ramos/Divulgação/Cidades
Felino carnívoro, o puma ganhou um picolé de carne Halder Ramos/Divulgação/Cidades


O Monitoramento de Longa Duração da Biodiversidade é o primeiro deles. Implantado em 2020 com recursos do CNPq e da Fapergs, o sítio de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD) monitora continuamente a fauna, a flora e os processos ecológicos na reserva.


Os dados geram uma série histórica sobre a dinâmica de populações e comunidades, permitindo avaliar os impactos das mudanças ambientais e embasar políticas públicas de conservação e adaptação climática na região. A RPPN abriga uma rica biodiversidade: entre os invertebrados, há cerca de 1,5 mil espécies registradas, lideradas pelos besouros (Coleoptera), com 290 espécies, seguidos por aranhas (250) e abelhas (134), a maioria polinizadoras. 


Já os vertebrados somam 335 espécies, sendo as aves o grupo mais numeroso, com 224 registros. Os mamíferos concentram o maior número de animais ameaçados de extinção, com destaque para a onça-parda (Puma concolor), felino cuja ocorrência se estende da Patagônia ao Alasca e é conhecido como leão-baio na região.


“Nos limites da Reserva, ainda temos plantas vasculares, representadas pelas diferentes formas de vida das gimnospermas e angiospermas, com aproximadamente 900 espécies identificadas, sendo 8% delas inseridas em listas de espécies ameaçadas do Estado e do Brasil. Somando-se a essa biodiversidade, há um grande conjunto de fungos liquenizados, com 141 espécies já catalogadas”, acrescenta Schüssler. 

Notícias relacionadas