Porto Alegre,

Publicada em 20 de Outubro de 2026 às 18:09

Quase 70% dos alunos formados pela UFSM saem de Santa Maria

Universidade reúne cerca de 30 mil estudantes em um município de aproximadamente 282 mil habitantes

Universidade reúne cerca de 30 mil estudantes em um município de aproximadamente 282 mil habitantes

Daniel Michelon de Carli/UFSM/Cidades
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar Repórter
Quando chegou a Santa Maria, em 2025, para estudar Farmácia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Taylor Gadotti encontrou na instituição o principal motivo para trocar Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, pelo município gaúcho. Hoje, no quarto semestre, já tem uma certeza sobre o futuro: depois de concluir o curso, previsto para 2030, não pretende continuar na cidade. O destino ainda está em aberto, mas Paraná e outras regiões do País aparecem entre as possibilidades.
Quando chegou a Santa Maria, em 2025, para estudar Farmácia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Taylor Gadotti encontrou na instituição o principal motivo para trocar Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, pelo município gaúcho. Hoje, no quarto semestre, já tem uma certeza sobre o futuro: depois de concluir o curso, previsto para 2030, não pretende continuar na cidade. O destino ainda está em aberto, mas Paraná e outras regiões do País aparecem entre as possibilidades.
A decisão não está ligada à qualidade da formação. Pelo contrário. Para Taylor, a universidade é justamente o grande atrativo de Santa Maria. O problema está no que existe para além dos muros do campus. "A cidade tem empregos e oportunidades de trabalho, mas deixa a desejar em questões como lazer, transporte e infraestrutura", relata. Mesmo com a possibilidade de conseguir uma colocação profissional, não enxerga motivos suficientes para construir sua vida no município.
A percepção da estudante ajuda a ilustrar um desafio de Santa Maria: a cidade atrai milhares de jovens para estudar, mas encontra dificuldades para transformar esse movimento em permanência e desenvolvimento econômico. Conhecida como cidade universitária, abriga a UFSM, primeira universidade federal criada fora de uma capital brasileira, além da Universidade Franciscana (UFN), da Ulbra, do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) e de diversas faculdades. Só a UFSM reúne cerca de 30 mil estudantes em um município de aproximadamente 300 mil habitantes.
Essa capacidade de formação, porém, não se traduz na mesma proporção em empregos locais. Um levantamento da UFSM mostra que, entre os 24.906 egressos do campus de Santa Maria com emprego formal identificado três anos após a formatura, apenas 7.877, ou 31,6%, trabalhavam na própria cidade. Os outros 68,4% estavam empregados em diferentes municípios brasileiros.
Entre os profissionais empregados identificados, 79,6% permaneciam no Rio Grande do Sul, enquanto 20,4% trabalhavam em outros estados. A Região Metropolitana de Porto Alegre absorveu 4.257 egressos, e Santa Catarina apareceu como principal destino fora do território gaúcho, com 1.942. São Paulo, Distrito Federal e Paraná também figuram entre os locais mais procurados. Ao todo, os profissionais estavam distribuídos por 899 municípios do País.
O retrato ganha dimensão quando observado o volume de profissionais formados. Desde 2010, o campus de Santa Maria contabiliza 72.011 formaturas, correspondentes a 55.091 pessoas, já que um mesmo estudante pode concluir mais de um curso. Somente em 2025, foram registradas 4.130 formaturas. O levantamento revela, portanto, que a cidade produz conhecimento e qualificação em grande escala, mas uma parcela expressiva dessa mão de obra constrói a carreira em outros mercados.
Os números não significam que quase sete em cada dez formados necessariamente deixem Santa Maria, já que o recorte considera apenas os trabalhadores com vínculo formal identificado na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Autônomos, informais e profissionais sem registro nessa base não entram integralmente no cálculo. Ainda assim, os dados dimensionam a dispersão da mão de obra qualificada produzida pela universidade.
Outro indicador ajuda a compreender os caminhos profissionais: três anos após a formatura, a remuneração mediana dos egressos era de 3,4 salários mínimos. Entre aqueles empregados no Rio Grande do Sul, o valor ficava em 3,1 salários mínimos, enquanto os profissionais que trabalhavam fora do Estado recebiam 4,8. A diferença não decorre necessariamente da mudança de localização, pois envolve ocupações e perfis distintos, mas evidencia a desigualdade de remuneração entre os grupos.
Para o professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM Daniel Coronel, os resultados refletem uma dificuldade estrutural da economia santa-mariense. "A mão de obra qualificada que se forma na cidade busca uma remuneração compatível com sua formação, e Santa Maria ainda não consegue oferecer isso", avalia.
Segundo o economista, a presença de universidades, institutos de pesquisa e faculdades representa uma vantagem competitiva que ainda não é plenamente aproveitada. Ele defende maior articulação entre poder público e iniciativa privada para ampliar as oportunidades, especialmente em segmentos como tecnologia, inovação e indústria de defesa. "Santa Maria fornece mão de obra para várias regiões do País. Lamentavelmente, a cidade não aproveita todo o potencial que possui", afirma.
O dilema local encontra eco em uma pesquisa estadual. Encomendado pela Invest RS e pela Secretaria de Comunicação do Estado, o estudo "O Sonho do Jovem Gaúcho" ouviu mil pessoas de 18 a 32 anos em cinco regiões do Rio Grande do Sul.
O levantamento revelou que 93% dos entrevistados estão abertos a deixar o Estado diante de melhores oportunidades, enquanto 61% apontam salários mais altos como motivo para uma eventual mudança. Ao mesmo tempo, 70% mencionam os vínculos familiares como razão para permanecer, e 45% gostariam de construir a vida no território gaúcho.
A coordenadora do estudo, Luciana Paim, ressalta que estar aberto à mudança não significa desejar partir. "O que ocorre é que desejar ficar não significa poder ficar", explica. Segundo ela, os jovens demonstram insegurança em relação ao futuro e enxergam um mercado de trabalho com oportunidades restritas ou pouco remuneradas, além de perceberem dificuldades para participar das decisões que moldam o desenvolvimento regional.
No caso de Santa Maria, Luciana acredita que a presença de milhares de estudantes oferece uma oportunidade de renovação econômica, desde que o conhecimento produzido nas instituições encontre espaço para se transformar em projetos e oportunidades concretas. "Os jovens não querem apenas concluir a graduação; querem ver movimentos de criação e de construção de futuros", observa.

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