A dificuldade de encontrar empregos com salários compatíveis com a formação acadêmica é um dos principais fatores que levam profissionais qualificados a deixar Santa Maria. Apesar de contar com universidades que atraem milhares de estudantes de diferentes regiões do País, o município da Região Central do RS ainda enfrenta dificuldades para transformar esse potencial em oportunidades de carreira. Na avaliação de especialistas, a falta de remunerações competitivas e de um mercado de trabalho mais diversificado acabam estimulando a busca por vagas em outros centros.
Para o professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Daniel Coronel, a cidade ainda não consegue aproveitar plenamente a mão de obra que forma. Segundo ele, o problema não está na qualidade do ensino, mas na capacidade da economia local de oferecer perspectivas profissionais à altura da qualificação dos jovens.
"Quanto maior o capital humano, maior tende a ser a expectativa de renda. O problema é que a economia local não tem condições de absorver toda essa mão de obra oferecendo salários compatíveis com seu nível de qualificação", explica.
O economista observa que parte dos profissionais que permanecem na cidade encontra espaço no setor público, especialmente nas instituições de ensino e pesquisa. Já na iniciativa privada, as possibilidades são mais restritas, sobretudo para quem busca remunerações mais elevadas e perspectivas de crescimento na carreira.
A avaliação é compartilhada pela gestora de planejamento estratégico do Santa Maria Tecnoparque, Ariane Silva Jardim. Conforme ela, a economia municipal ainda é bastante concentrada no comércio e nos serviços, setores que nem sempre oferecem salários compatíveis com a qualificação dos profissionais formados.
"Santa Maria tem uma excelente capacidade de formação, especialmente pela qualidade das universidades e das instituições de ensino. O desafio está em transformar essa formação em oportunidades profissionais que sejam atrativas para quem se qualifica", concorda.
Ariane destaca que a cidade já possui parques tecnológicos, incubadoras e empresas de inovação, mas ainda precisa ampliar a quantidade de negócios capazes de gerar empregos de maior valor agregado. Segundo ela, há inclusive profissionais que continuam morando em Santa Maria enquanto trabalham remotamente para empresas de outros estados ou países.
E uma das alternativas para ampliar a retenção de talentos está no fortalecimento do ecossistema de inovação. Desde 2019, o Tecnoparque trabalha com o conceito de inovação aberta, aproximando empresas, instituições de ensino e empreendedores para estimular novos negócios.
Apesar dos avanços, Ariane reconhece que ainda existe um descompasso entre a quantidade de profissionais qualificados e as oportunidades disponíveis. "Precisamos ampliar o número de empresas e oportunidades capazes de absorver esses talentos", destaca.
Para Coronel, o município também poderia explorar melhor atividades como o turismo e a indústria de defesa, aproveitando a presença militar e a localização estratégica. O professor defende ainda medidas de desburocratização, melhorias na infraestrutura e maior articulação entre poder público, universidades e setor empresarial.
Na avaliação do economista, a saída desses profissionais representa uma perda de potencial econômico para Santa Maria, que deixa de contar com trabalhadores capazes de movimentar o comércio, gerar renda, empreender e contribuir para a arrecadação municipal. "Santa Maria investe na formação de profissionais e acaba fornecendo conhecimento, tecnologia e mão de obra extremamente qualificada para outros municípios", lamenta.