Desde 2025, Lajeado tem presenciado um aumento gradual no número de inadimplência do município. Entre janeiro e dezembro do ano passado, o indicador passou de 30% a 32,2% da população com algum tipo de endividamento, um dos índices mais altos registrados desde 2018. Entretanto, em janeiro de 2026, houve mais um aumento e o número ultrapassou os 33%. Desde então, segundo dados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) local, o índice se mantém estável, com alterações médias de 0,2%.
Ao mesmo tempo, os dados de Lajeado seguem a tendência estadual. No Rio Grande do Sul, o indicador de inadimplência permanece na casa dos 37% por quatro meses seguidos, de março a julho, uma alta de 2,2% comparada ao mesmo período do ano passado. Já no município do Vale do Taquari, houve um aumento de cerca de 1.200 moradores endividados comparado aos números de 2025. De acordo com os dados da entidade, em julho deste ano, 22.460 pessoas físicas, da cidade com 93.646 habitantes, possuem algum tipo de restrição em crédito, cheque ou protesto.
Para Giselda Hahn, presidente do CDL Lajeado, o aumento no endividamento tem múltiplas razões, desde falta de educação financeira, uso de plataformas de apostas, aumento no custo de vida e juros altos para créditos. Ainda, estes fatores também impactam na estabilização do índice, pois a população não consegue pagar sua dívida, explica Hahn.
Da mesma forma, os fatores citados pela presidente também influenciam uns aos outros. Por exemplo, com o aumento no custo de vida, consumidores procuram por créditos, entretanto, devido aos juros altos, não conseguem realizar o pagamento das dívidas. Ao mesmo tempo, devido à falta de educação financeira, parte da população encara o crédito como uma renda, em vez de um endividamento, conta Hahn. “Nós temos tido um aumento do custo de vida sem um respectivo aumento de salário. A inflação mês a mês diminui o poder de compra do consumidor. Os juros para tomada de crédito, os consignados e outras formas de crédito ajudam no endividamento da população, pois o consumidor ao tomar um crédito emprestado tem uma falsa ideia de que a sua renda aumentou, quando, na verdade, ele adquiriu uma dívida. E essa dívida gera juros.”, afirma.
Hahn também cita plataformas de casas de apostas como culpadas no aumento da inadimplência. Segundo ela, o uso de bets tem impacto tanto no endividamento da população brasileira, quanto o comércio local, uma vez que o consumidor deixa de comprar para permanecer em aplicativos de apostas. “No comércio, de uma forma geral, atribuímos uma influência muito forte às apostas, porque famílias e jovens se endividam com o jogo online. O consumidor navega por aplicativos, sites e se depara com propagandas extremamente chamativas, que o seduzem a utilizar a plataforma para saldar suas dívidas, ganhar uma renda extra, quando na verdade nós sabemos que isto não é verdade. Na medida em que as pessoas vão apostando, na verdade, elas deixam de cumprir suas obrigações, como aluguel, água e luz.”, ressalta.
Quanto ao perfil dos inadimplentes em Lajeado, a pesquisa aponta para a maioria do sexo masculino entre 30 e 34 anos e renda média entre R$ 1.401,00 e R$ 2.000,00. Já no Rio Grande do Sul, a predominância ocorre entre mulheres, na faixa etária dos 30 a 34 anos, também com renda entre R$1.401,00 e R$2.000,00. Segundo a presidente, a diferença entre os perfis acompanha o perfil de líderes da família, aquele responsável pela renda familiar. No recorte estadual, cerca de 2,2 milhões de domicílios são chefiados por mulheres, contra 2,1 milhões dos chefiados por homens, de acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, publicada em agosto de 2025. Entretanto, em Lajeado, homens permanecem como o responsável financeiro mais presente.
Indicadores devem permanecer estáveis até meados de 2027
A presidente ainda adiciona que o índice deve permanecer estável até a metade de 2027. De acordo com ela, o índice depende de futuras políticas econômicas federais, que devem demorar em torno de seis meses para mostrarem resultados. “A CDL imagina que a inadimplência vai se manter nos mesmos patamares, alguns meses com elevação de poucos pontos percentuais, outros de redução. Ela tem apresentado essa característica desde o ano passado, porque o processo de renegociação e quitação de dívidas é demorado, e na medida que ocorre ele já melhora a condição de compra dos consumidores. Por isso, imaginamos que esse comportamento ainda vá seguir por um bom período. Além disso, precisamos aguardar as medidas econômicas que serão lançadas no início de 2027 para termos uma projeção”, conta Hahn.