O Mercado Central é o coração de Pelotas, na região Sul do Estado. Localizado na Praça Sete de Julho, o espaço integra o Centro Histórico do município, cercado por casarões preservados do século XIX. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985, o prédio é reconhecido nacionalmente como patrimônio histórico e cultural do país, funcionando como ponto de encontro entre a memória do município e o dinamismo do comércio local.
A construção do Mercado está relacionada à viagem que o Imperador do Brasil, Dom Pedro II (1825-1891), fez pelo Sul do país. Nesse momento, Pelotas estava retomando o desenvolvimento do comércio após a Revolução Farroupilha (1835-1845). Ao redor da praça Sete de Julho havia diversas bancas de frutas, legumes e outros alimentos. Esse cenário influenciou a decisão de Dom Pedro II de construir um Mercado Central ali, já que ele chegou à cidade com um discurso voltado ao desenvolvimento social e econômico.
Ainda em 1846, a prefeitura adquiriu o terreno para dar início às obras. Um dos diferenciais do projeto pelotense em relação a outras cidades da época foi a escolha estratégica da localização - o prédio foi construído na parte central do município - facilitando o fluxo de produtores e consumidores. O espaço abriu as portas oficialmente em 3 de janeiro de 1849, tornando-se rapidamente o principal ponto de abastecimento e convivência da região. "Nessa época se vendia de tudo. Se encontrava feijão, arroz, farinha... Era tudo a granel, em sacos de 60 quilos. Tinha sapato, tamanco, bicho, galinha, açougue e peixaria. Eram os grandes armazéns", relata o presidente da Associação dos Permissionários, Guilherme Fiss, sobre as primeiras décadas do Mercado Central.
A maior transformação do prédio ocorreu em 1912, a partir do projeto do arquiteto Manoel Barbosa Assumpção Itaqui. Foi nessa ampla reforma que o Mercado Central ganhou marcantes traços de inspiração europeia. O prédio original do século XIX, projetado por Roberto Offer, era feito apenas de paredes de tijolos comuns com portas simples. Itaqui mudou tudo: colocou quatro grandes torres nas esquinas, instalou portões de ferro desenhados trazidos da Bélgica e cobriu o pátio do meio para proteger as pessoas da chuva.
Importados da Alemanha, o pavilhão de ferro e a famosa Torre do Relógio chegaram a Pelotas para coroar a nova estrutura. A torre, cuja arquitetura foi inspirada na icônica Torre Eiffel, de Paris, tornou-se uma das principais referências visuais e históricas da cidade. "O relógio funcionava perfeitamente. A cada hora, tocava o sino e tudo. Hoje está faltando manutenção, mas ele ainda funciona", explica Fiss. Como é preciso dar corda de tempos em tempos, o funcionamento pleno do equipamento se torna um trabalho complexo nos dias atuais.
Torre do Relógio foi inspirada na Torre Eiffel, de Paris
SAMANTHA BEDUHN/ESPECIAL/CIDADES
Além do relógio, no para-raios da torre ficava uma estátua de Mercúrio, o deus romano do comércio. A escultura é uma cópia da obra do artista italiano Giambologna (1529-1608). Existem indícios de que o monumento permaneceu na torre até a década de 1950 e, em 1967, foi parar na Biblioteca Pelotense. Depois de mais de 50 anos longe do prédio, em 2019 a estátua foi restaurada e voltou para o Mercado, desta vez exposta no corredor principal. "A estátua ter voltado pra cá tem uma importância histórica", salienta Fiss.
Um incêndio de grandes proporções atingiu o Mercado em 1969. Na noite de 4 de setembro, um curto-circuito na rede elétrica provocou chamas que se espalharam rapidamente pelo prédio. A parte exterior, a torre e o relógio não foram atingidos. Entretanto, as bancas foram destruídas com todos os produtos dentro.
"Foi uma tristeza, porque queimou tudo. Na época não existia banco, então o pessoal guardava o dinheiro nos cofres e ficou todo mundo sem dinheiro, sem nada", relembra Vicente Gianne Gill, que já trabalhava como barbeiro em uma das bancas no período. O profissional, que dividia o espaço com o irmão, conta que a banca deles só não foi destruída porque ficava próxima da área externa. Assim, eles chegaram a tempo de salvar os equipamentos antes que o fogo chegasse ao local. Para garantir o funcionamento do comércio, a prefeitura realocou os trabalhadores para um terreno a quatro quadras dali até o fim da restauração, que durou cerca de seis meses.
Estátua de Mercúrio foi reinstalada no local em 2019
Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Nas décadas seguintes, o espaço passou por transformações no seu perfil de consumo: o antigo comércio atacadista e a venda de mantimentos estritamente a granel deram lugar a uma ocupação mais diversificada. Para além dos comerciantes, o público antigo acompanha com saudosismo as transformações. O aposentado Afrânio Lopes de Souza, de 62 anos, frequenta o espaço desde a época em que as paradas de ônibus ficavam logo em frente e o local funcionava como um grande armazém. "A gente vinha cortar o cabelo, buscar banana, rapadura puxa-puxa ou goiabada de caixinha", recorda.
Atualmente, ele limita suas compras ao peixe na Semana Santa e ao corte de cabelo com o barbeiro Vicente. Também defende que o poder público cuide do espaço para não perder a sua essência. "Antes a pessoa vinha com o troquinho num lenço e comprava de tudo. Era que nem uma feira lá dentro. A prefeitura precisa ter atenção para o Mercado não perder o jeito simples que sempre teve", afirma Souza.
Hoje, o local opera como um polo cultural, turístico e gastronômico, unindo bancas tradicionais de produtos naturais, agroindústrias, peixarias, docerias, variedades e tecnológicos, entre outros. Além disso, é um espaço de manifestações artísticas com rodas de Samba, Choro e também abriga o encerramento do tradicional Festival Internacional Sesc de Música.