Porto Alegre,

Publicada em 25 de Agosto de 2026 às 18:10

Mercado Central de Pelotas mantém a memória e o comércio

Inaugurado em janeiro de 1849, prédio histórico na Praça Sete de Julho mantém hábitos de compra dos pelotenses, mas busca revitalização para se tornar mais atrativo

Inaugurado em janeiro de 1849, prédio histórico na Praça Sete de Julho mantém hábitos de compra dos pelotenses, mas busca revitalização para se tornar mais atrativo

Samantha Beduhn/ESPECIAL/CIDADES
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O Mercado Central é o coração de Pelotas, na região Sul do Estado. Localizado na Praça Sete de Julho, o espaço integra o Centro Histórico do município, cercado por casarões preservados do século XIX. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985, o prédio é reconhecido nacionalmente como patrimônio histórico e cultural do país, funcionando como ponto de encontro entre a memória do município e o dinamismo do comércio local.
O Mercado Central é o coração de Pelotas, na região Sul do Estado. Localizado na Praça Sete de Julho, o espaço integra o Centro Histórico do município, cercado por casarões preservados do século XIX. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985, o prédio é reconhecido nacionalmente como patrimônio histórico e cultural do país, funcionando como ponto de encontro entre a memória do município e o dinamismo do comércio local.
A construção do Mercado está relacionada à viagem que o Imperador do Brasil, Dom Pedro II (1825-1891), fez pelo Sul do país. Nesse momento, Pelotas estava retomando o desenvolvimento do comércio após a Revolução Farroupilha (1835-1845). Ao redor da praça Sete de Julho havia diversas bancas de frutas, legumes e outros alimentos. Esse cenário influenciou a decisão de Dom Pedro II de construir um Mercado Central ali, já que ele chegou à cidade com um discurso voltado ao desenvolvimento social e econômico.
Ainda em 1846, a prefeitura adquiriu o terreno para dar início às obras. Um dos diferenciais do projeto pelotense em relação a outras cidades da época foi a escolha estratégica da localização - o prédio foi construído na parte central do município - facilitando o fluxo de produtores e consumidores. O espaço abriu as portas oficialmente em 3 de janeiro de 1849, tornando-se rapidamente o principal ponto de abastecimento e convivência da região. "Nessa época se vendia de tudo. Se encontrava feijão, arroz, farinha... Era tudo a granel, em sacos de 60 quilos. Tinha sapato, tamanco, bicho, galinha, açougue e peixaria. Eram os grandes armazéns", relata o presidente da Associação dos Permissionários, Guilherme Fiss, sobre as primeiras décadas do Mercado Central.
A maior transformação do prédio ocorreu em 1912, a partir do projeto do arquiteto Manoel Barbosa Assumpção Itaqui. Foi nessa ampla reforma que o Mercado Central ganhou marcantes traços de inspiração europeia. O prédio original do século XIX, projetado por Roberto Offer, era feito apenas de paredes de tijolos comuns com portas simples. Itaqui mudou tudo: colocou quatro grandes torres nas esquinas, instalou portões de ferro desenhados trazidos da Bélgica e cobriu o pátio do meio para proteger as pessoas da chuva.
Importados da Alemanha, o pavilhão de ferro e a famosa Torre do Relógio chegaram a Pelotas para coroar a nova estrutura. A torre, cuja arquitetura foi inspirada na icônica Torre Eiffel, de Paris, tornou-se uma das principais referências visuais e históricas da cidade. "O relógio funcionava perfeitamente. A cada hora, tocava o sino e tudo. Hoje está faltando manutenção, mas ele ainda funciona", explica Fiss. Como é preciso dar corda de tempos em tempos, o funcionamento pleno do equipamento se torna um trabalho complexo nos dias atuais.
Torre do Relógio foi inspirada na Torre Eiffel, de Paris | SAMANTHA BEDUHN/ESPECIAL/CIDADES
Torre do Relógio foi inspirada na Torre Eiffel, de Paris SAMANTHA BEDUHN/ESPECIAL/CIDADES
Além do relógio, no para-raios da torre ficava uma estátua de Mercúrio, o deus romano do comércio. A escultura é uma cópia da obra do artista italiano Giambologna (1529-1608). Existem indícios de que o monumento permaneceu na torre até a década de 1950 e, em 1967, foi parar na Biblioteca Pelotense. Depois de mais de 50 anos longe do prédio, em 2019 a estátua foi restaurada e voltou para o Mercado, desta vez exposta no corredor principal. "A estátua ter voltado pra cá tem uma importância histórica", salienta Fiss.
Um incêndio de grandes proporções atingiu o Mercado em 1969. Na noite de 4 de setembro, um curto-circuito na rede elétrica provocou chamas que se espalharam rapidamente pelo prédio. A parte exterior, a torre e o relógio não foram atingidos. Entretanto, as bancas foram destruídas com todos os produtos dentro.
"Foi uma tristeza, porque queimou tudo. Na época não existia banco, então o pessoal guardava o dinheiro nos cofres e ficou todo mundo sem dinheiro, sem nada", relembra Vicente Gianne Gill, que já trabalhava como barbeiro em uma das bancas no período. O profissional, que dividia o espaço com o irmão, conta que a banca deles só não foi destruída porque ficava próxima da área externa. Assim, eles chegaram a tempo de salvar os equipamentos antes que o fogo chegasse ao local. Para garantir o funcionamento do comércio, a prefeitura realocou os trabalhadores para um terreno a quatro quadras dali até o fim da restauração, que durou cerca de seis meses.
Estátua de Mercúrio foi reinstalada no local em 2019 | Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Estátua de Mercúrio foi reinstalada no local em 2019 Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Nas décadas seguintes, o espaço passou por transformações no seu perfil de consumo: o antigo comércio atacadista e a venda de mantimentos estritamente a granel deram lugar a uma ocupação mais diversificada. Para além dos comerciantes, o público antigo acompanha com saudosismo as transformações. O aposentado Afrânio Lopes de Souza, de 62 anos, frequenta o espaço desde a época em que as paradas de ônibus ficavam logo em frente e o local funcionava como um grande armazém. "A gente vinha cortar o cabelo, buscar banana, rapadura puxa-puxa ou goiabada de caixinha", recorda.
Atualmente, ele limita suas compras ao peixe na Semana Santa e ao corte de cabelo com o barbeiro Vicente. Também defende que o poder público cuide do espaço para não perder a sua essência. "Antes a pessoa vinha com o troquinho num lenço e comprava de tudo. Era que nem uma feira lá dentro. A prefeitura precisa ter atenção para o Mercado não perder o jeito simples que sempre teve", afirma Souza.
Hoje, o local opera como um polo cultural, turístico e gastronômico, unindo bancas tradicionais de produtos naturais, agroindústrias, peixarias, docerias, variedades e tecnológicos, entre outros. Além disso, é um espaço de manifestações artísticas com rodas de Samba, Choro e também abriga o encerramento do tradicional Festival Internacional Sesc de Música.

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