A estrutura do Mercado Central de Pelotas comporta 83 bancas, mas apenas 41 estão ocupadas por empreendimentos, reflexo de um período de quatro anos sem licitação para novos permissionários. De acordo com a prefeitura, responsável pela gestão do espaço, ainda não há uma data definida para o lançamento do novo edital, mas a previsão de é que ele ocorra no segundo semestre deste ano. Mesmo com metade das acomodações em funcionamento, o Mercado gera 250 empregos diretos apenas nas bancas.
Esse rendimento está atrelado, principalmente, ao turismo. O Mercado Central é um dos principais cartões-postais do município e atrai visitantes de todo o país e do exterior. O período da Fenadoce é um dos mais movimentados para o comércio local. "Hoje, a gente recebe bastante turistas, não só de Pelotas, mas de toda a região. A gente ainda consegue ter produtos que não se encontram em qualquer lugar, então, esse é um diferencial", conta o presidente da Associação dos Permissionários, Guilherme Fiss, sobre a atual variedade de itens à venda.
A mudança no perfil das bancas refletiu diretamente na variedade de produtos oferecidos. Se no passado o foco era o abastecimento básico a granel, hoje o Mercado Central se destaca pela forte influência cultural e regional. Entre as principais bancas estão os tradicionais doces pelotenses, bancas especializadas em chás e produtos naturais, além de queijos e itens da agroindústria familiar. "A gente procura ter produtos aqui que não tem no supermercado", explica Fiss.
O local também conta com espaços tradicionais para a clientela, como a Barbearia Gill, de seu Vicente. Hoje, ele é o permissionário mais antigo do Mercado e testemunha viva do incêndio de 1969. Aos 81 anos, o barbeiro trabalha no espaço desde os 23, quando se tornou parceiro do irmão e, no decorrer dos anos, tornou-se proprietário. "Eu permaneço aqui porque amo minha profissão. Se eu morresse hoje e Deus dissesse para mim: 'o que tu queres ser?', eu diria 'quero ser barbeiro e no Mercado Central', porque adoro atender meus fregueses aqui", ressalta Gill, que cultiva clientes de longa data, amizades que passam a cada geração.
A vida de Gill está entrelaçada com a história do Mercado. Foi trabalhando em sua banca que ele criou os filhos, fez amigos entre a clientela e com os outros permissionários, além de gerar renda para construir sua casa e sustentar a família. "O Mercado é tudo para mim", afirma o barbeiro.
Do permissionário mais antigo aos novos comerciantes, o desejo de permanecer no ponto é o mesmo. "O Mercado é o lugar mais seguro para se trabalhar. Tu abres a loja, trabalha, fecha e vai tranquilo para casa porque tem segurança", conta Aldir Vilela, que está há três anos no espaço com a loja Gui Variedades e Eletrônicos.
Para ele, a localização central é estratégica por facilitar a indicação do comércio aos clientes. Aldir conta que seu maior desafio no momento é expandir o negócio, o que depende do lançamento de um novo edital de licitação para a ocupação de uma nova banca. Ele destaca também o impacto do turismo no faturamento e as dificuldades enfrentadas nos períodos de menor movimento.
O Mercado é um espaço de tradições e quem passa por lá, geralmente, toma um café acompanhado de um doce de Pelotas. A Imperatriz Doces Finos teve sua primeira loja no local há 14 anos. "O nosso doce é um doce turístico. Então, todo mundo que vem para a cidade e quer ver a cultura dela e os doces de Pelotas. Estando no Mercado, a gente ganha um valor a mais", explica o proprietário da loja, David Jeske, sobre a escolha do local.
"O Mercado é a carteira de identidade de Pelotas. Tudo o que a gente tem de identidade está aqui", acrescenta o empresário. Jeske destaca que, embora os permissionários invistam e gerem empregos, a sustentabilidade do prédio tombado exige o olhar atento do poder público: "A gente precisa do apoio do município na infraestrutura, no lançamento de licitações para ocupar as bancas vazias e na preservação do patrimônio como um todo", conclui.
Do lado de fora, no Largo Edmar Fetter, todos os sábados é realizado o Mercado de Pulgas, uma feira voltada à venda, compra e restauração de objetos antigos e usados. Há 12 anos o evento saiu da avenida Bento Gonçalves por conta de um série de problemas estruturais e de segurança.
Todos os sábados, feira voltada à compra, venda e restauração de objetos antigos atrai curiosos e entusiastas à região central
Samantha Beduhn/ESPECIAL/CIDADES
Além de garantir a sustentabilidade econômica dos expositores com a comercialização de itens como livros antigos, moedas e peças de coleção, a feira foi reconhecida como patrimônio cultural do município. Mais do que um comércio de antiguidades, o Mercado de Pulgas se consolida como um ponto de encontro socioeconômico e turístico em Pelotas. "Criamos um público permanente e um fluxo constante de mercadorias que seriam descartadas, além de ser um espaço onde as pessoas vêm para se encontrar, conversar e cultivar amizades", destaca Ramon Costa, um dos organizadores da feira, e que possui uma banca de antiguidades como livros, moedas e outros objetos.