Caxias do Sul se tornou a cidade brasileira que mais coloca Implanon em proporção à população em 2026. Só até metade do ano, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) implantou 1.881 unidades do contraceptivo subdérmico de longa duração, dos quais 1.102 foram em Unidades Básicas de Saúde (UBSs), 506 em maternidades e 273 no Centro Especializado em Saúde. Recentemente, chegaram mais 584 unidades após articulaçãoda secretaria junto ao Ministério da Saúde, representando um investimento estimado em R$ 1,75 milhão pelo preço médio de mercado.
A marca é resultado de uma política de planejamento familiar iniciada em outubro de 2025. O secretário municipal de Saúde, Rafael Bueno, encontrou uma fila de mais de 800 mulheres aguardando o procedimento ao assumir a pasta, ao mesmo tempo em que o estoque municipal tinha cerca de 900 unidades represadas no sistema de regulação. "Eu disse: como a gente tem 800 mulheres esperando, tem os implanons e não faz o uso deles? Ser mulher também é poder escolher, ter o direito da escolha", defende.
A resposta foi descentralizar o atendimento: mutirões em bairros de maior vulnerabilidade social, abertura de UBSs aos sábados com horário estendido e capacitação de enfermeiros para realizar o procedimento, que antes era restrito a médicos ginecologistas. A equipe de consultório de rua também foi habilitada para a inserção do implante. Com isso, Caxias se tornou a primeira cidade do Brasil certificada por oferecer o Implanon a mulheres em situação de rua, conquista reconhecida com um prêmio nacional, conta o secretário.
Após zerar a fila inicial, o acesso foi ampliado. Hoje, qualquer mulher que procura a rede básica pode receber o implante após avaliação das equipes de saúde. Maternidades do SUS municipal mantêm estoques próprios para inserção logo após o parto, e espaços voltados ao atendimento de vítimas de violência também dispõem do contraceptivo. O perfil predominante das usuárias, segundo o secretário, é de mulheres entre 14 e 30 anos. Os contraceptivos são ofertados para usuárias do SUS entre 14 e 49 anos.
Para Bueno, a iniciativa vai além da contracepção. "Quando a gente garante acesso, informação e liberdade de escolha, protegemos a saúde da mulher, fortalecemos as famílias e reduzimos as gestações não planejadas. Muitas crianças hoje em situação de vulnerabilidade não tiveram o direito de escolher se nasceriam", disse. O secretário também aponta o impacto fiscal da política: uma gestação no SUS municipal, do pré-natal ao parto, custa entre R$ 12 mil e R$ 15 mil. A prevenção de gestações não planejadas representa, portanto, economia direta para os cofres públicos.
O planejamento familiar em Caxias não se limita ao público feminino. A SMS está acelerando mutirões de vasectomia, com cirurgias realizadas principalmente no Hospital Geral com recursos de emendas parlamentares. Até agora, houve 127 vasectomias feitas entre janeiro e maio. Há uma lista de espera que a secretaria pretende zerar com novos mutirões. "Não se pode jogar todo o peso de engravidar no colo da mulher. A gente tem que dividir essa responsabilidade com toda a sociedade", afirmou Bueno. A SMS também está em processo de licitação para aplicar R$ 100 mil de emenda parlamentar na aquisição de mais unidades de Implanon com verba própria.
Para o secretário municipal de Saúde de Caxias do Sul, Rafael Bueno, o avanço na oferta de contraceptivos precisa vir acompanhado de outras frentes de cuidado. A principal preocupação é com adolescentes, cujo acesso ao Implanon pode criar uma falsa sensação de proteção completa. "Não é porque não vai engravidar que pode fazer relação sexual sem preservativo. Temos que trabalhar também o outro lado da história, que são as ISTs", disse.
A preocupação tem base concreta. Mesmo com a campanha de imunização Vacina Caxias, programa que o secretário classifica como o maior da história do município, com abertura mensal de UBSs e ações em praças e shopping, a cobertura vacinal contra o HPV atingiu apenas 5% do público previsto. O governo federal ampliou até dezembro o período de aplicação da vacina, mas a adesão segue baixa.
Na avaliação de Bueno, o problema está na negligência familiar. "Um adolescente já pode ir a uma UBS se vacinar, mas precisa do estímulo dos pais. Uma criança de 5 anos não sabe ir sozinha", apontou. O mesmo padrão se repete com a vacina da influenza: mesmo para crianças de até 6 anos, faixa de vacinação obrigatória, a cobertura não chegou a 50% em Caxias.
O programa Vacina Caxias, na quinta edição, já vacinou 11 mil pessoas somente nos dias de mutirão, fora o fluxo diário das unidades de saúde. A iniciativa abre seis UBSs com horário estendido e uma estação na Praça Dante Alighieri, no Centro da cidade, no último sábado de cada mês, com todo o calendário vacinal disponível.