Porto Alegre,

Publicada em 21 de Julho de 2026 às 17:23

Charqueada São João foi usada para reviver a Revolução Farroupilha em minissérie

Charqueada foi utilizada para a gravação da minissérie 'A Casa das Sete Mulheres'

Charqueada foi utilizada para a gravação da minissérie 'A Casa das Sete Mulheres'

Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
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Samantha Beduhn
Samantha Beduhn
O museu da Charqueada São João é um dos mais populares da região por ter sido cenário de grandes produções audiovisuais. O local preserva uma história que começou nos primeiros anos do século XIX, quando Antônio José Gonçalves Chaves (1781-1837) construiu sua residência às margens do arroio Pelotas, transformando a propriedade em uma das indústrias de salgamento mais bem-sucedidas da época, tendo encerrado as atividades em 1937.
O museu da Charqueada São João é um dos mais populares da região por ter sido cenário de grandes produções audiovisuais. O local preserva uma história que começou nos primeiros anos do século XIX, quando Antônio José Gonçalves Chaves (1781-1837) construiu sua residência às margens do arroio Pelotas, transformando a propriedade em uma das indústrias de salgamento mais bem-sucedidas da época, tendo encerrado as atividades em 1937.
A propriedade pertenceu a quatro famílias até ser adquirida em 1949 por Rafael Mazza. O casarão foi um presente do patriarca para sua esposa, Nóris, que havia crescido na Charqueada Moreira, antiga propriedade de seu pai. O intuito de Rafael era fazer com que a esposa relembrasse os bons momentos da juventude. Nas décadas seguintes, o casal criou filhos, netos e bisnetos nessas terras.
E foi justamente o amor de Nóris pelo local que fez com que seus descendentes o preservassem em forma de museu. "(A charqueada é) um sonho da minha avó Nóris que a família compartilha, além de todos os colaboradores que ao longo desses anos têm nos ajudado a manter ela em pé, então realmente é uma emoção muito grande", relata Marcelo Mazza, que no ano de 2000 abriu a propriedade para a visitação guiada pela história de Pelotas e das charqueadas. 
Local preserva história que começou quando Antônio José Gonçalves Chaves construiu a residência às margens do arroio Pelotas | Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Local preserva história que começou quando Antônio José Gonçalves Chaves construiu a residência às margens do arroio Pelotas Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Além do valor afetivo, a São João abriga um acervo de valor histórico. São objetos que contam uma trajetória de mais de 200 anos e que desempenharam papéis fundamentais em diferentes períodos, muitos dos quais pertenceram à família Mazza. A arquitetura, os objetos e a paisagem contribuíram para que o espaço fosse utilizado para as gravações da minissérie "A Casa das Sete Mulheres", em 2002. Dirigido por Jayme Monjardim, o enredo mostra as mulheres da família de Bento Gonçalves (1788-1847) durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Para essa produção, a casa passou por diversas mudanças sutis, mas que deram realidade à obra. 
O casarão com aberturas azuis passou a ter a cor de madeira crua e paredes pintadas para simular o desgaste do tempo durante a guerra. Até mesmo o charque foi reproduzido com varais de carnes cenográficas montadas. "A sensação era de que nós estávamos em um sonho e eles eram a realidade. Por exemplo, tiramos toda a parte elétrica e eram só tochas", conta Marcelo sobre os bastidores. 
Cerca de 10 anos depois, Monjardim voltou a Pelotas para gravar o filme "O Tempo e o Vento", uma adaptação da obra de Érico Veríssimo. Mais uma vez, a Charqueada São João serviu de cenário sediando, inclusive, uma das cenas mais importantes do longa-metragem, realizada no escritório da casa. "Quem assiste a qualquer uma das cenas gravadas aqui e, durante a visita, passa por aquele local, tem a impressão de estar dentro do filme. Isso é muito comentado e é gratificante ver as pessoas saindo e falando sobre essa experiência", relata Marcelo. Para ele, as produções cinematográficas também contribuíram para despertar o interesse dos jovens pela história, razão pela qual a propriedade recebe inúmeras excursões escolares.
Espaço funciona como locação para casamentos, aniversários e encontros empresariais | Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Espaço funciona como locação para casamentos, aniversários e encontros empresariais Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Para complementar o turismo histórico, a Charqueada São João oferece passeios de barco pelo Arroio Pelotas. "O passeio é muito interessante. Eles vão nos mostrando as demais charqueadas pelo caminho e contando uma parte da história e da estrutura de Pelotas que a gente não está acostumada a ver", relata a pelotense Juliana Hirschfeld, sobre a experiência de ter visitado o local. Ela destaca que o roteiro é completo, rico em detalhes históricos e ressalta o diferencial de o espaço ser um dos poucos museus abertos o ano todo no município.
Atualmente, Juliana atua como arquiteta e enfatiza a importância crucial da conservação de prédios históricos. "Se nós não tivermos os prédios históricos e a arquitetura para contar o passado, de que forma vamos conseguir mostrar como a cidade começou, como os lugares eram e de que maneira as pessoas viviam? As pessoas se vão, as memórias se vão, mas a arquitetura permanece para registrar a história", avalia.
E foi justamente a beleza preservada que fez o espaço funcionar como sede de eventos particulares, como casamentos, aniversários e encontros empresariais. A decisão de abrir o espaço para essas atividades surgiu da própria necessidade de gerar recursos para a manutenção da propriedade. Inicialmente, o local promovia almoços restritos, acompanhados de debates e degustação de vinhos. Com o aumento da demanda, a família percebeu a necessidade de criar uma estrutura externa para acolher um público maior sem sacrificar o casarão histórico. Atualmente, a propriedade recebe diversas excursões que combinam a visita guiada, o almoço e o passeio náutico. Contudo, para proteger o patrimônio, o foco permanece em eventos fechados e de pequeno porte.
Para Isabelle Antônio, que trabalha com organização de casamentos, as charqueadas são locais frequentemente escolhidos por noivos para a realização desse momento especial. Ela aponta que a preferência ocorre principalmente no verão, em razão da paisagem natural e do valor histórico do ambiente. "Eu acho que o casal que escolhe esse cenário pra casar, né, ele já é apaixonado por natureza, pela beleza, pela história, que eu acho que cada uma das charqueadas tem uma história muito forte. Então a gente tem que conhecer um pouco da história, a gente tem que ter um pouco dessa ligação pra esse dia ficar ainda mais histórico", finaliza.

Santa Rita oferece hospedagem como na época do Ciclo do Charque

Propriedade conta com 18 suítes restauradas que misturam o passado com o presente

Propriedade conta com 18 suítes restauradas que misturam o passado com o presente

Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
A união entre o conforto da modernidade e a sensação de estar em outra época é o grande atrativo da Charqueada Santa Rita. Construído em 1826 pelo charqueador Inácio Rodrigues Barcellos (1771-1860), o local se transformou em uma pousada histórica. "Os hóspedes ficam encantados em reviver essa memória e se sentir em um filme de época", ressalta Milena Brunetta, recepcionista do estabelecimento, sobre a experiência proporcionada pelo cenário de 200 anos.
Hoje, a propriedade conta com 18 suítes restauradas que misturam o passado às conveniências atuais de forma sutil. Para preservar a identidade visual do século XIX, por exemplo, os frigobares ficam camuflados dentro dos guarda-roupas antigos. Os quartos possuem pisos de madeira de lei, ladrilhos hidráulicos, climatização e, em alguns casos, lareiras e vista para o Arroio Pelotas. A experiência é completada por atividades como canoagem, passeios a cavalo e visitas guiadas pela história do local.
Os quartos possuem pisos de madeira de lei, ladrilhos hidráulicos, climatização e, em alguns casos, lareiras e vista para o Arroio Pelotas | Samantha Beduhn/ESPECIAL/CIDADES
Os quartos possuem pisos de madeira de lei, ladrilhos hidráulicos, climatização e, em alguns casos, lareiras e vista para o Arroio Pelotas Samantha Beduhn/ESPECIAL/CIDADES
Essa imersão cultural chega também à mesa no restaurante "Do Sal ao Açúcar", localizado na própria charqueada. O cardápio resgata a culinária campeira do período colonial, fundindo a simplicidade dos ingredientes das culturas indígena, africana e dos trabalhadores do campo com o requinte europeu trazido pelos barões do charque.
 

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