O museu da Charqueada São João é um dos mais populares da região por ter sido cenário de grandes produções audiovisuais. O local preserva uma história que começou nos primeiros anos do século XIX, quando Antônio José Gonçalves Chaves (1781-1837) construiu sua residência às margens do arroio Pelotas, transformando a propriedade em uma das indústrias de salgamento mais bem-sucedidas da época, tendo encerrado as atividades em 1937.
A propriedade pertenceu a quatro famílias até ser adquirida em 1949 por Rafael Mazza. O casarão foi um presente do patriarca para sua esposa, Nóris, que havia crescido na Charqueada Moreira, antiga propriedade de seu pai. O intuito de Rafael era fazer com que a esposa relembrasse os bons momentos da juventude. Nas décadas seguintes, o casal criou filhos, netos e bisnetos nessas terras.
E foi justamente o amor de Nóris pelo local que fez com que seus descendentes o preservassem em forma de museu. "(A charqueada é) um sonho da minha avó Nóris que a família compartilha, além de todos os colaboradores que ao longo desses anos têm nos ajudado a manter ela em pé, então realmente é uma emoção muito grande", relata Marcelo Mazza, que no ano de 2000 abriu a propriedade para a visitação guiada pela história de Pelotas e das charqueadas.
Local preserva história que começou quando Antônio José Gonçalves Chaves construiu a residência às margens do arroio Pelotas
Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Além do valor afetivo, a São João abriga um acervo de valor histórico. São objetos que contam uma trajetória de mais de 200 anos e que desempenharam papéis fundamentais em diferentes períodos, muitos dos quais pertenceram à família Mazza. A arquitetura, os objetos e a paisagem contribuíram para que o espaço fosse utilizado para as gravações da minissérie "A Casa das Sete Mulheres", em 2002. Dirigido por Jayme Monjardim, o enredo mostra as mulheres da família de Bento Gonçalves (1788-1847) durante os 10 anos da Revolução Farroupilha. Para essa produção, a casa passou por diversas mudanças sutis, mas que deram realidade à obra.
O casarão com aberturas azuis passou a ter a cor de madeira crua e paredes pintadas para simular o desgaste do tempo durante a guerra. Até mesmo o charque foi reproduzido com varais de carnes cenográficas montadas. "A sensação era de que nós estávamos em um sonho e eles eram a realidade. Por exemplo, tiramos toda a parte elétrica e eram só tochas", conta Marcelo sobre os bastidores.
Cerca de 10 anos depois, Monjardim voltou a Pelotas para gravar o filme "O Tempo e o Vento", uma adaptação da obra de Érico Veríssimo. Mais uma vez, a Charqueada São João serviu de cenário sediando, inclusive, uma das cenas mais importantes do longa-metragem, realizada no escritório da casa. "Quem assiste a qualquer uma das cenas gravadas aqui e, durante a visita, passa por aquele local, tem a impressão de estar dentro do filme. Isso é muito comentado e é gratificante ver as pessoas saindo e falando sobre essa experiência", relata Marcelo. Para ele, as produções cinematográficas também contribuíram para despertar o interesse dos jovens pela história, razão pela qual a propriedade recebe inúmeras excursões escolares.
Espaço funciona como locação para casamentos, aniversários e encontros empresariais
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Para complementar o turismo histórico, a Charqueada São João oferece passeios de barco pelo Arroio Pelotas. "O passeio é muito interessante. Eles vão nos mostrando as demais charqueadas pelo caminho e contando uma parte da história e da estrutura de Pelotas que a gente não está acostumada a ver", relata a pelotense Juliana Hirschfeld, sobre a experiência de ter visitado o local. Ela destaca que o roteiro é completo, rico em detalhes históricos e ressalta o diferencial de o espaço ser um dos poucos museus abertos o ano todo no município.
Atualmente, Juliana atua como arquiteta e enfatiza a importância crucial da conservação de prédios históricos. "Se nós não tivermos os prédios históricos e a arquitetura para contar o passado, de que forma vamos conseguir mostrar como a cidade começou, como os lugares eram e de que maneira as pessoas viviam? As pessoas se vão, as memórias se vão, mas a arquitetura permanece para registrar a história", avalia.
E foi justamente a beleza preservada que fez o espaço funcionar como sede de eventos particulares, como casamentos, aniversários e encontros empresariais. A decisão de abrir o espaço para essas atividades surgiu da própria necessidade de gerar recursos para a manutenção da propriedade. Inicialmente, o local promovia almoços restritos, acompanhados de debates e degustação de vinhos. Com o aumento da demanda, a família percebeu a necessidade de criar uma estrutura externa para acolher um público maior sem sacrificar o casarão histórico. Atualmente, a propriedade recebe diversas excursões que combinam a visita guiada, o almoço e o passeio náutico. Contudo, para proteger o patrimônio, o foco permanece em eventos fechados e de pequeno porte.
Para Isabelle Antônio, que trabalha com organização de casamentos, as charqueadas são locais frequentemente escolhidos por noivos para a realização desse momento especial. Ela aponta que a preferência ocorre principalmente no verão, em razão da paisagem natural e do valor histórico do ambiente. "Eu acho que o casal que escolhe esse cenário pra casar, né, ele já é apaixonado por natureza, pela beleza, pela história, que eu acho que cada uma das charqueadas tem uma história muito forte. Então a gente tem que conhecer um pouco da história, a gente tem que ter um pouco dessa ligação pra esse dia ficar ainda mais histórico", finaliza.
A união entre o conforto da modernidade e a sensação de estar em outra época é o grande atrativo da Charqueada Santa Rita. Construído em 1826 pelo charqueador Inácio Rodrigues Barcellos (1771-1860), o local se transformou em uma pousada histórica. "Os hóspedes ficam encantados em reviver essa memória e se sentir em um filme de época", ressalta Milena Brunetta, recepcionista do estabelecimento, sobre a experiência proporcionada pelo cenário de 200 anos.
Hoje, a propriedade conta com 18 suítes restauradas que misturam o passado às conveniências atuais de forma sutil. Para preservar a identidade visual do século XIX, por exemplo, os frigobares ficam camuflados dentro dos guarda-roupas antigos. Os quartos possuem pisos de madeira de lei, ladrilhos hidráulicos, climatização e, em alguns casos, lareiras e vista para o Arroio Pelotas. A experiência é completada por atividades como canoagem, passeios a cavalo e visitas guiadas pela história do local.
Os quartos possuem pisos de madeira de lei, ladrilhos hidráulicos, climatização e, em alguns casos, lareiras e vista para o Arroio Pelotas
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Essa imersão cultural chega também à mesa no restaurante "Do Sal ao Açúcar", localizado na própria charqueada. O cardápio resgata a culinária campeira do período colonial, fundindo a simplicidade dos ingredientes das culturas indígena, africana e dos trabalhadores do campo com o requinte europeu trazido pelos barões do charque.