Porto Alegre,

Publicada em 21 de Julho de 2026 às 17:22

Charqueadas em Pelotas ressignificam o passado e abrem as portas aos visitantes

Ciclo do Charque teve um período de 150 anos e transformou a cidade e região na maior produtora do Brasil; hoje, casarões que ainda permanecem preservam a história e servem como pontos de turismo do município

Ciclo do Charque teve um período de 150 anos e transformou a cidade e região na maior produtora do Brasil; hoje, casarões que ainda permanecem preservam a história e servem como pontos de turismo do município

Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
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Samantha Beduhn
Samantha Beduhn
As charqueadas de Pelotas, hoje símbolos do turismo e do patrimônio histórico gaúcho, guardam em suas terras as marcas de um ciclo econômico que transformou a região na maior produtora de charque do Brasil no século XIX. Movida pelo trabalho escravo e pela proximidade dos rios, essa indústria moldou a aristocracia pelotense e definiu a identidade do Sul. No entanto, a origem dessa riqueza não começou nas margens do Arroio Pelotas, mas sim em um acordo europeu que mudou o destino das terras e do gado na fronteira.
As charqueadas de Pelotas, hoje símbolos do turismo e do patrimônio histórico gaúcho, guardam em suas terras as marcas de um ciclo econômico que transformou a região na maior produtora de charque do Brasil no século XIX. Movida pelo trabalho escravo e pela proximidade dos rios, essa indústria moldou a aristocracia pelotense e definiu a identidade do Sul. No entanto, a origem dessa riqueza não começou nas margens do Arroio Pelotas, mas sim em um acordo europeu que mudou o destino das terras e do gado na fronteira.
Assinado em 1777, para encerrar as disputas territoriais entre Portugal e Espanha no Sul do Brasil, o Tratado de Santo Ildefonso recuou os portugueses da Colônia do Sacramento para o Rio Grande do Sul. Em contrapartida, os espanhóis fizeram o caminho inverso, deixando para trás um imenso rebanho de gado que acabou impulsionando a pecuária e o futuro ciclo do charque na região. A produção do charque era baseada no uso de grandes quantidades de sal para desidratar a carne bovina, que em seguida era exposta ao sol. O resultado era um alimento de aspecto escuro, mas que garantia uma durabilidade de até um ano e extrema facilidade de transporte marítimo. 
"O charque era muito consumido com feijão e farinha de mandioca, entre outros alimentos. Com certeza, estava na mesa e no prato de várias famílias brasileiras, principalmente das classes mais pobres e de pessoas escravizadas no século XIX", afirma Jonas Moreira Vargas, professor de História da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), contextualizando a realidade de uma época em que a conservação dos alimentos dependia exclusivamente dessas técnicas, muito antes da invenção da geladeira. 
O Ciclo do Charque foi um período de quase 150 anos, que ocorreu por volta de 1780 até 1930. Esse ciclo econômico teve início a partir da necessidade de produzir alimentos para o grande número de africanos escravizados trazidos para o Brasil para trabalhar em fazendas. “A gente não pode pensar que um fazendeiro de café vai comprar dezenas de trabalhadores escravizados e vai deixar eles morrerem de fome. Eles precisavam ser alimentados”, pontua Vargas.
O impacto econômico desse consumo em larga escala moldou a geografia gaúcha. Na região que viria a ser o município de Pelotas, por exemplo, durante muito tempo, acreditou-se que a origem da cidade estava ligada exclusivamente à charqueada de José Pinto Martins (1755–1827). Documentos históricos, porém, mostram que o charque já era produzido na região antes disso, mas para consumo local. Naquela época, o território pertencia ao município do Rio Grande. Com o crescimento dessas indústrias e o rápido povoamento da área, impulsionado principalmente pela força de trabalho das pessoas escravizadas, o local ganhou relevância, dando início à sua separação administrativa em 1812, com a criação da Freguesia de São Francisco de Paula. Em 1835, o município passa a se chamar Pelotas por conta das embarcações indígenas que circulam pelo arroio de mesmo nome.
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Pelotas chegou a ter 12 charqueadas em funcionamento no auge da produção | Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Pelotas chegou a ter 12 charqueadas em funcionamento no auge da produção Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
, quando a região contava com 35 a 40 indústrias em atividade, responsáveis pelo abate de 300 a 400 mil cabeças de gado por safra. “ (Pelotas) foi a maior produtora de charque do Rio Grande do Sul, produzindo de 70 a 80% do charque gaúcho”, destaca Vargas sobre a época em questão.
Várias motivações culminaram no fim da produção em Pelotas. Para Vargas, a decadência das charqueadas teve início com a abolição da escravatura, em 1888, uma vez que os produtores locais não souberam como contornar a nova realidade trabalhista. Embora alguns tenham tentado contratar imigrantes e pessoas escravizadas recém-libertas, não foi possível manter o volume anterior de produção. “Para tu ter uma ideia, na década de 1880, antes da abolição da escravatura, Pelotas tinha umas 30 charqueadas. Dois anos depois da abolição, caiu para 11”, explica o historiador sobre um dos primeiros desafios que levaram ao fim do ciclo.  
As águas do Arroio Pelotas e do Canal São Gonçalo hoje conduzem os visitantes por um mergulho na história. A tradicional Rota das Charqueadas é localizada às margens do arroio, com acesso pela Estrada da Costa e inclui as propriedades São João, Santa Rita, Boa Vista e Costa do Abolengo mantêm viva a memória do Ciclo do Charque na região.
Hoje ressignificadas, essas construções do século XIX ganharam um novo propósito. Seus salões agora dão lugar a museus, pousadas e grandes eventos, integrando a memória da região ao turismo. Em 2008, as áreas das 12 charqueadas ainda existentes foram reconhecidas pelo Plano Diretor como de interesse cultural do município, mapeadas e intituladas como Sítio Charqueador. “Então, esse espaço passou a ser reconhecido pelo seu valor histórico, cultural, paisagístico e de memória da formação econômica de Pelotas”, diz Carmem Vera Roig, secretária de Cultura do município. Diante disso, as construções passaram a ser preservadas por meio de regras específicas, como a proibição de qualquer nova obra em um raio de 200 metros no entorno dos casarões.
Proteger o Sítio Charqueador vai além de cumprir a lei, trata-se de valorizar a identidade dos moradores. De acordo com a secretária de Cultura, as regras criadas pelo Plano Diretor impediram a descaracterização dessa área histórica, preservando a paisagem original. Ela destaca, porém, que as leis só ganham força quando estão unidas ao turismo e a projetos de educação nas escolas. Esse cuidado com a região é essencial, já que o local representa o nascimento do município e é parte fundamental da história de Pelotas.

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