Porto Alegre,

Publicada em 14 de Julho de 2026 às 17:35

Interação com botos sustenta pescadores e preserva cultura do Litoral Norte do RS

Pescador Francelino Antônio dos Santos Neto conta que mamíferos ajudaram muito durante os 40 anos de pescaria na região

Pescador Francelino Antônio dos Santos Neto conta que mamíferos ajudaram muito durante os 40 anos de pescaria na região

PEDRO BARBOSA/ESPECIAL/CIDADES
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Pedro Barbosa
Pedro Barbosa
Morador do bairro Barra, em Tramandaí, o pescador Francelino Antônio dos Santos Neto, 65 anos, aprendeu a pescar aos 13 anos com o pai, os colegas e amigos. "Fui conhecendo os botos e praticando, até que aprendi. O segredo para tarrafear é saber repartir a tarrafa para botar. São várias coisinhas que tem que ter. É o jogo. Às vezes tu não pode só um balanço, tu não podes jogar com força, que ela não enroda", conta.
Morador do bairro Barra, em Tramandaí, o pescador Francelino Antônio dos Santos Neto, 65 anos, aprendeu a pescar aos 13 anos com o pai, os colegas e amigos. "Fui conhecendo os botos e praticando, até que aprendi. O segredo para tarrafear é saber repartir a tarrafa para botar. São várias coisinhas que tem que ter. É o jogo. Às vezes tu não pode só um balanço, tu não podes jogar com força, que ela não enroda", conta.
Francelino conta que a relação de interação com os botos é de conexão. "Às vezes ele dá uma nadada mais rápida, outras vezes se joga de cola e outras dá de cabeçada. São várias formas que ele nos auxilia na pescaria. Tem um jeito que quando você lança a tarrafa, quando ele está ao lado, ele nos ajuda muito a pescar", explica o pescador
Nesses mais de 40 anos de pesca, Francelino diz que tem várias histórias para contar. De pegar 45, 60 e até 80 tainhas em uma única tarrafada. "A gente já pegou muito peixe com ajuda dos botos. Todos eles trabalham com a gente. Sabem mostrar o peixe, interagem com a gente". Pescador aposentado, atualmente Francelino tira seu sustento da aposentadoria, da pesca e das tarrafas que fabrica. 
Francelino entende que a pesca era mais sustentável antigamente, pois havia menos pescadores. Para ele, um dos desafios atualmente é que há muitos pescadores que não são profissionais. Entretanto, o pescador não vê como um problema, pois a pesca com botos na foz do rio Tramandaí é um patrimônio cultural e, portanto, de todos. "Para nós até é bom estarem aqui com a gente. Nos ajuda a proteger".
Natural de São Leopoldo, João Reneé Soares Cardoso Filho, 62 anos, mora há 22 anos no balneário Tramandaí Sul, em Tramandaí. Quase todos os dias, ele pedala mais de seis quilômetros até a foz do rio Tramandaí para pescar. Aposentado, João vive da pesca e da renda de uma casa que aluga em São Leopoldo. "O aluguel de lá paga as contas daqui. Mas, em alguns meses a coisa aperta. Daí a pesca vira a minha saída", revela.
Ele conta que possui uma clientela fixa para os peixes que pesca. Os que não consegue vender, estoca em um freezer. João pesca desde os cinco anos. Aprendeu a arte com o avô, que já é falecido. Ele diz que apurou a técnica ao longo dos anos e conhece pelo olhar do boto onde está o peixe. "Ele levanta a olhada no olho e se tu prestares atenção, ele mostra onde é que está o peixe. Ele pode nem mostrar, mas se tu conheces o boto, tu sabes que ele vai dizer onde o peixe está". Para o pescador, a pescaria com boto é singular. "Quando ele está com o peixe, o movimento dele é diferente. Ele bate a cola de cima, aponta para o lado que está o peixe".
Nessa pesca colaborativa, João diz que já chegou a pegar 30, 40 e até 100 tainhas numa única tarrafada. "Porque com isso, com esse movimento, o boto consegue espantar a tainha graúda e ele pega a graúda. Se o pescador der sorte de pegar a graúda, beleza. Se ele não conseguir, é dele. Faz uma troca, pois há relação de parceria".

Pesca controlada do bagre tenta equilibrar preservação e sustento de famílias pesqueiras em Imbé e Tramandaí

Desde 2014, captura da espécie é proibida em todo o Brasil, mas liminar viabiliza a atividade para 100 pescadores do Litoral Norte

Desde 2014, captura da espécie é proibida em todo o Brasil, mas liminar viabiliza a atividade para 100 pescadores do Litoral Norte

PEDRO BARBOSA/ESPECIAL/CIDADES
Uma liminar que permite a pesca controlada do bagre para os cerca de 100 pescadores cadastrados no Projeto de Automonitoramento, nos municípios de Imbé e Tramandaí, reacendeu um debate entre conservação e geração de renda. Embora a decisão judicial tenha permitido a retomada controlada da captura da espécie até outubro deste ano, a medida não representa uma flexibilização da proteção ambiental
De acordo com a superintendente da Superintendência Federal de Pesca e Aquicultura (SFPA-RS) do Ministério da Pesca e Aquicultura, Ana Luiza Spinelli Pinto, desde que duas espécies de bagres passaram a integrar a lista nacional de animais ameaçados de extinção, em 2014, a captura ficou proibida, afetando diretamente os pescadores artesanais que dependiam da atividade. A multa aplicada aos pescadores é de cerca de R$ 5 mil por peixe. "O problema é que os animais continuaram sendo capturados acidentalmente nas redes utilizadas para outras pescarias. Na prática, isso obrigava os pescadores a descartarem os exemplares, sem gerar qualquer informação sobre o estado das populações", conta. 
Ela explica que o Projeto de Automonitoramento surgiu após uma ação civil pública movida pelas prefeituras de Imbé e Tramandaí, juntamente com colônias e sindicatos de pescadores. "Pela autorização judicial, apenas pescadores previamente cadastrados podem capturar e comercializar o bagre, seguindo regras rígidas de monitoramento", explica.
Para a Ana Luiza, a experiência realizada no estuário de Tramandaí tem produzido informações que podem influenciar o futuro do manejo da espécie no Estado. "O que temos observado desde 2019 é uma estabilidade nas capturas, inclusive com resultados bastante expressivos na última safra, que foi de 410 toneladas. Mais do que simplesmente proibir, é preciso acompanhar as capturas para entender como estão os estoques e garantir uma pesca sustentável ao longo do tempo", afirma a superintendende.
Os resultados obtidos em Imbé e Tramandaí motivaram o Ministério da Pesca a discutir a ampliação do modelo para outros municípios do Litoral Norte, como Osório, Torres, Arroio do Sal, Terra de Areia e Maquiné. Os bagres continuam oficialmente enquadrados na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção.
Uma atualização publicada pelo Ministério do Meio Ambiente em abril manteve a proteção às espécies, embora uma delas tenha sido reclassificada de Criticamente em Perigo para Em Perigo. Segundo o professor do Departamento Interdisciplinar do campus Litoral Norte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e pesquisador do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), Fábio Lameiro Rodrigues, a classificação segue critérios científicos internacionais que levam em consideração fatores como abundância, distribuição geográfica e tendência populacional ao longo dos anos. "Estar categorizada como ameaçada de extinção é uma proteção. Não quer dizer que a espécie tenha desaparecido, mas que sua população apresenta um nível de risco que exige controle sobre a exploração".
Segundo o pesquisador, um dos principais entraves para a gestão pesqueira no Brasil, é a ausência de estatísticas nacionais consistentes sobre a pesca artesanal e industrial. Para ilustrar a situação, Lameiro faz uma analogia simples: administrar a pesca sem dados seria como gerenciar um supermercado sem conhecer o estoque disponível ou a velocidade de reposição dos produtos. "Hoje, em nível internacional, não se pesca mais sem registrar o que se pesca. Saber quem captura, quanto captura e onde captura é fundamental para entender a saúde dos estoques".

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