Porto Alegre,

Publicada em 14 de Julho de 2026 às 17:30

Pesca com botos preserva cultura de comunidades no Litoral Norte gaúcho

Modo de pescaria foi reconhecido como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

Modo de pescaria foi reconhecido como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

Pedro Barbosa/ESPECIAL/CIDADES
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Pedro Barbosa
Pedro Barbosa
Geraldona, Catatau, Bagrinho, Furacão e Rubinho. Esses são alguns nomes muito conhecidos pelos pescadores de Imbé e Tramandaí, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Identificados pelo comportamento e pelas marcas no corpo, os botos possuem uma relação de parceria com as duas comunidades pesqueiras que já dura mais de três gerações. Reconhecida recentemente como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a pesca com botos na foz do rio Tramandaí desempenha um papel essencial em uma prática que vai muito além de preservar uma tradição: ajuda a complementar a renda e garante o sustento de centenas de famílias que dependem da atividade na região.
Geraldona, Catatau, Bagrinho, Furacão e Rubinho. Esses são alguns nomes muito conhecidos pelos pescadores de Imbé e Tramandaí, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Identificados pelo comportamento e pelas marcas no corpo, os botos possuem uma relação de parceria com as duas comunidades pesqueiras que já dura mais de três gerações. Reconhecida recentemente como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a pesca com botos na foz do rio Tramandaí desempenha um papel essencial em uma prática que vai muito além de preservar uma tradição: ajuda a complementar a renda e garante o sustento de centenas de famílias que dependem da atividade na região.
De acordo com a bióloga Janaína Carrion Wickert, que trabalhou no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Celimar) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a pesca cooperativa que ocorre no rio Tramandaí se caracteriza por uma interação entre pescadores artesanais de tainha e os botos-de-Lahille e botos-da-barra. "Essa interação é registrada há décadas e ocorre quando os animais encurralam cardumes de tainha contra a margem do rio, e 'avisam' para os pescadores, através de movimentos com a cabeça, que está na hora de jogar a rede", explica. 
A pesquisadora conta que quando a tarrafa é jogada, o cardume de tainhas se desorienta. Assim, grande parte dos peixes acaba preso na rede dos pescadores e, os que escapam, são capturados pelos botos. Dessa forma, tanto botos quanto pescadores são beneficiados. "Esse tipo de interação entre botos e seres humanos é rara, tendo sido registrada em pouquíssimos lugares do mundo e, somente aqui no Sul do Brasil, com a espécie Tursiops gephyreus, uma das espécies de cetáceos mais ameaçadas do oceano Atlântico Sul ocidental", conta a bióloga, ao explicar a forma de pesca.
Janaína ressalta que os botos-de-Lahille, assim como outras espécies de vertebrados marinhos e costeiros, podem servir como bioindicadores ambientais - ou seja, podem dar pistas de como anda a saúde dos oceanos e do ambiente costeiro. "Por estarem no topo da cadeia alimentar, os botos podem acumular toxinas em seu organismo. Identificar e estudar estas toxinas possibilita avaliar a saúde geral do ambiente onde vivem estes animais, auxiliando numa melhor compreensão da presença de poluentes na água ou até mesmo nos peixes ingeridos por esses botos e pelos próprios seres humanos", explica a bióloga.
Outra possibilidade é o estudo de zoonoses (doenças transmitidas entre animais e seres humanos), como por exemplo a lobomicose, infecção causada por fungos que afeta a pele e tecido subcutâneos, tanto de botos quanto de seres humanos. "A presença de botos com essa doença serve como um indicador de degradação ambiental, pois vem sendo associada a poluição e contaminação costeira", alerta a pesquisadora.
Para o presidente da Colônia de Pescadores e Aquicultores Z-39 de Imbé, Marcelino Teixeira, popularmente conhecido como Catarina, os botos fazem parte da história e da subsistência dos pescadores da região. "Quando cheguei aqui no Imbé, eu vivia de pegar peixe junto com o boto. Ele mostrava o peixe para eu poder pegar, para poder vender, para sustentar os meus filhos", relembra. Hoje, porém, o pescador afirma que a relação enfrenta desafios devido à falta de conhecimento de alguns colegas. Para preservar essa tradição, ele defende que 'os pescadores mais velhos' transmitam sua experiência "e ensinem as pessoas que vêm de fora como deve se arremessar a tarrafa para pegar o peixe com o boto".
O dirigente do Sindicato dos Pescadores de Tramandaí, José Roberto Prestes Madruga, explica que, para quem vive da pesca artesanal, a parceria com os botos vai muito além da tradição. "Além de facilitar a captura do pescado e complementar a renda das famílias, a pesca cooperada fortalece a preservação da espécie e se tornou um atrativo turístico para Tramandaí e Imbé", afirma.
Madruga ressalta que os pescadores conhecem individualmente os botos, identificados pelas marcas nas barbatanas e no corpo, além de atribuir nomes a cada um deles. Na avaliação do dirigente sindical, o reconhecimento concedido pelo Iphan transcende o valor simbólico. Ele cria instrumentos para proteger a continuidade dessa prática diante do avanço urbano. "Além de reconhecer a pesca como patrimônio, também protege. Nenhum empreendimento pode ser edificado na Barra do rio Tramandaí sem que se saiba se esse tipo de pesca vai ser extinta ou não. A briga também é para a não extinção desse patrimônio que nós temos aqui".
Fundado há mais de um século, o Sindicato dos Pescadores de Tramandaí reúne atualmente cerca de 800 associados e atua na representação da categoria, oferecendo orientação jurídica, apoio na documentação profissional e interlocução junto aos órgãos públicos. Apesar dos desafios enfrentados pelas entidades representativas nos últimos anos, Madruga afirma que o Litoral Norte mantém uma das estruturas organizacionais mais fortes da pesca artesanal gaúcha.
Segundo Madruga, o próximo objetivo é buscar um novo reconhecimento internacional, desta vez junto à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), como patrimônio agrícola mundial. A iniciativa poderá colocar a Pesca com Botos no Sul do Brasil entre os poucos reconhecidos internacionalmente por integrar cultura, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.

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