As cidades de Soledade e Ametista do Sul, localizada no Noroeste, são reconhecidas como polos do setor pedrista. A primeira atua como um centro de beneficiamento, comércio e exportação, enquanto a segunda é fonte de extração mineral e um destino turístico bastante visitado na região. Ambos os municípios se destacam na exportação de gemas e pedras lapidadas, com forte dependência dos mercados asiáticos, o que garante que o valor das exportações se mantenha em patamares bilionários.
Dados divulgados pela prefeitura demonstram que Soledade segue como o principal município gaúcho exportador no segmento de pedras preciosas, sendo responsável, entre 2021 e 2025, por uma participação superior a 60% das exportações do setor no Rio Grande do Sul. Os dados indicam ainda que embora tenha ocorrido uma redução gradual dessa participação nos últimos anos, a cidade continua ocupando uma posição de destaque no cenário estadual, permanecendo à frente de cidades tradicionalmente ligadas à mineração e ao comércio de pedras, como é o caso de Ametista do Sul.
Para o escritor e pesquisador Gilmar Afonso de Matos Palmeira, as pedras estão na base da economia de Soledade desde muito cedo e por isso muito do que se observa na cidade em termos de evolução se deve a elas. “Atrás de quase todos os pilares da nossa economia estão os pedristas que investem em mais de um ramo na cidade, por isso esse é um setor que abrange desde o pequeno até o grande exportador, que geralmente também é agropecuarista e também investe no setor das pedras; na construção civil; na pecuária; em grãos; em hotelaria e em várias outras formas de estruturas econômicas que beneficiam o desenvolvimento da cidade”.
Apesar disso, o município caminha a passos lentos em termos de industrialização do setor. “Temos poucas empresas que trabalham com pedras e, diante do mercado globalizado que temos, Soledade vai longe até um processo efetivo de industrialização. Isso se deve muito ao custo de produção e à taxa de câmbio e impede que a cidade tenha no momento uma industrialização de joias em massa como acontece na China por exemplo, mas não que o município tenha se transformado num polo de vendas desde a criação da Exposol”, argumenta Gilmar.
Muitas das empresas que trabalham no setor em Soledade são de origem familiar, a exemplo da Bagatini Pedras, que nasceu como uma indústria, em 1989, mas hoje atua com um foco muito mais comercial. A empresa conta com suporte de outros empreendimentos terceirizados e emprega diretamente 32 funcionários.
O empresário Rudah Bagatini conta que a empresa inicialmente era focada na industrialização de mercadorias polidas e de pedras como cristal, quartzo rosa e ametista, mas que hoje é reconhecida pela variedade de produtos oferecidos, em boa parte graças a contribuição das pequenas empresas, que garantem esse suporte extra. "A Bagatini importa pedras de 25 países e exporta para mais de 60, contando com uma variedade de mais de 200 tipos de pedras naturais, por isso hoje o que nos representa é o conjunto, essa variedade que a gente oferece", conta Rudah.
A empresa, especializada em mineração, processamento e exportação de pedras preciosas e minerais, opera no atacado, atua no mercado nacional e internacional e transforma os minerais brutos em peças prontas para a exportação. Perguntado sobre o período em que o volume de vendas é maior, o empresário explica que o último trimestre anual é o que geralmente apresenta mais concentração de vendas. "A exportação acontece com mais intensidade no último trimestre do ano, enquanto a importação de peças para a empresa é focada mais na regulação do estoque e em oportunidades de negociação".
Ele conta que as pedras que mais são vendidas são o quartzo rosa, chamada de pedra do amor; a sodalita, que é a pedra da sabedoria; a pirita, que evoca prosperidade; e a selenita, uma pedra importada do Marrocos, que se acredita ser responsável por fazer a limpeza energética de outras gemas.
Embora o processo de extração dos minerais desde os garimpos até a chegada no destino final seja complexo, empresas terceirizadas, geralmente de pequeno porte e de origem familiar, como a Silva Pedras, que atua há quatro anos na cidade e oferece suporte a empresas maiores, garantem agilidade no processo de modificação dos materiais que chegam até elas, transformando esses materiais brutos em gemas facetadas. Um processo que envolve a classificação dos produtos recebidos e passa pelas etapas seguintes de pré-formação, facetamento e polimento, entre outros, utilizando discos diamantados e serras em máquinas de lapidação.
A classificação inicial serve para analisar a pedra bruta, mensurando pontos que vão desde a dureza do material até orientações para o corte do mesmo. Em seguida, é chegada a vez da serragem e do desbaste, um processo conhecido também como rebarba, em que são utilizadas serras circulares diamantadas para eliminar partes danificadas e dividir o mineral bruto em formatos que facilitem o manuseio do produto que começa a ganhar forma.
Na etapa da pré-formação, os rebolos diamantados aproximam a gema da sua estrutura final, a partir do lixamento das pedras. Logo após é a vez do facetamento, processo em que ocorre um desgaste sistemático da pedra, para criar as facetas geométricas projetadas. No polimento, discos especiais são usados para proporcionar brilho às pedras, removendo riscos das facetas foscas e extraindo a refração de luz das mesmas. Em seguida, os materiais seguem para a lavagem final e, por fim, para o despacho.