As plataformas online se tornaram uma alternativa para buscar a recuperação de mercados aos produtores de pedras preciosas no polo de Soledade, no Alto da Serra do Botucaraí, na Macrorregião Norte do Rio Grande do Sul. E a explicação é simples, como define o empresário Gilberto Bortoluzzi, que comanda a Bortoluzzi Comércio e Exportação de Pedras e atua no setor há 50 anos.
"O objetivo é sempre atendermos ao cliente. Neste caso, é uma fórmula que, por um lado, ameniza a queda nas vendas que estamos sofrendo, inclusive com redução de custos com agentes de venda internacionais e, por outro, aquele recurso que o comprador de outro país gastaria em passagens para vir até Soledade, ele agora investe no produto", diz.
As vendas online já representam 70% da receita da empresa, que é uma das 80 indústrias que operam no município, além de 215 produtores independentes associados. A ponta fundamental de uma cadeia que tem em Ametista do Sul, no Médio Alto Uruguai, a principal fonte de ametistas gaúchas para o mundo. Além dessa pedra, a ágata e mercadorias trazidas do norte do Brasil e industrializadas em Soledade fazem parte das mais de 200 formas de peças diferentes oferecidas pelo conjunto das empresas do polo de pedras preciosas.
"É uma gama muito variada, com alto potencial de abertura de mercados. Um movimento que começou nos anos 1990, a partir de uma visão empresarial e de contatos com clientes no Exterior, que começaram a ver o que já produzíamos aqui. Virou um hábito deles fazer negócios em Soledade. Já as vendas online são positivas para quem já tem uma rede consolidada e domina as línguas estrangeiras, com investimento em seus funcionários. Quem está estruturado, está vendendo", aponta Bortoluzzi, que preside o Sindicato das Indústrias de Joalheria, Mineração, Beneficiamento e Transformação de Pedras Preciosas e Semipreciosas do RS (Sindipedras).
O auge do movimento de compradores interessados no município costuma ser a Feira Internacional de Pedras Preciosas, de Soledade (Exposol). Na edição deste ano, porém, as vendas ficaram abaixo do ano passado, mas representaram, ao menos, um retorno do mercado interno brasileiro que, desde a cheia de 2024, estava estagnado.
No entanto, 70% das vendas do setor de pedras estão voltadas à exportação, em mercados como o chinês, norte-americano e europeu. E o momento não é positivo. Em média, o setor exporta US$ 60 milhões a partir de Soledade – 60% das vendas gaúchas de pedras –, mas fechou 2025 com US$ 43,6 milhões, uma redução de 13,8% em relação a 2024. No primeiro trimestre deste ano, não houve melhora. Foram comercializados US$ 7,6 milhões em pedras preciosas, uma queda de 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado, e outros US$ 1,4 milhão em pedras sintéticas, estas, com redução de 15,7%.
O setor foi fortemente atingido pelo tarifaço dos Estados Unidos, que espantou os lojistas norte-americanos e tradicionais parceiros do polo de Soledade. Somente na Bortoluzzi, as vendas reduziram em 60% com a medida determinada por Donald Trump, um desfalque nas contas que, segundo o empresário, só será possível recompor em dois ou três anos. Mas o baque foi mais forte em outras empresas.
"Algumas tinham 90% das vendas para os Estados Unidos e, de uma hora para outra, zeraram esse movimento e foram obrigadas a fechar", conta Bortoluzzi. E quando o setor fazia a recomposição, com a derrubada das tarifas, incertezas como a guerra dificultam a retomada.
"Os juros, o dólar e as guerras internacionais são as peças que precisam ser ajustadas para retomarmos a competitividade. Toda vez que o dólar está em baixa, por exemplo, reduz a nossa possibilidade de rentabilizar com as negociações externas", explica.
Uma das consequências é uma perigosa estagnação do polo, que reduz o tamanho do Rio Grande do Sul no cenário mundial das pedras preciosas. A estimativa do Sindipedras é de que, em termos de maquinário, por exemplo, as indústrias locais estão até 20 anos atrás da China.
O setor não conta com qualquer isenção fiscal para modernizar o parque de máquinas. O jeito sempre foi, como conta Gilberto Bortoluzzi, improvisar com adaptações locais em cima do maquinário chinês disponível. Algo que, com o aumento da tecnologia dos asiáticos, fica cada vez mais difícil.
Com os chineses, a relação dos produtores gaúchos é de fornecedores, especialmente da ágata bruta, que é industrializada lá fora. Produtores ornamentais e de decoração, com maior valor agregado, encontram maior aceitação nos demais mercados, e aí, vêem-se obrigados a competir com o que sai da China com maior competitividade.